26 novembro 2012

Realidade da conspiração

(Veiculado pelo Correio da Cidadania desde 23/11/12)

Paulo Metri – conselheiro da Federação Brasileira de Associações de Engenheiros e do Clube de Engenharia

Na maioria das vezes, a versão dominante na sociedade sobre qualquer tema é estabelecida pela mídia do capital, composta pelos grandes jornais, revistas, rádios e televisões, com raras exceções. São os manipuladores de informações, que vivem nos bombardeando com armas linguísticas, quando não são tendenciosos ou mentem. O objetivo principal da mídia do capital não é ter um cidadão bem informado sobre as múltiplas visões de um tema, mas um cidadão alienado, crente que a única visão apresentada sobre o tema, coincidente com a visão de interesse do capital, é a correta. Proponho-me a mostrar, a seguir, versões pouco divulgadas de alguns fatos históricos e algumas manipulações da população pela mídia, colhidos a esmo na memória.

A quase totalidade dos países da América Latina vinha sofrendo, desde as suas independências, com golpes militares, seguidos por ditaduras. Corroborando a tradição, nos anos 60 e 70 do século passado, ocorreu uma onda golpista no continente, que espalhou ditaduras de duração variável, dependendo do país. Os golpes tinham a aprovação do governo dos Estados Unidos, quando não eram planejados por ele, em um mundo dividido basicamente em dois blocos. A elite econômica de cada um desses países se instalou, com o apoio do capital internacional e dos militares, nos governos de tais países com a incumbência de permitir a usurpação do esforço do trabalho do povo e dos recursos naturais do país. Contudo, nada disso teria ocorrido se a mídia do capital não tivesse colaborado ativamente.

Como outro exemplo de participação nefasta da mídia do capital na dominação do povo e da nação, posso mencionar o caso do suposto “mar de lama do Catete” de 1954, imputado a Vargas. E um exemplo menos distante é o famoso caso da Proconsult sobre a eleição do Rio de Janeiro de 1982, onde a mídia teria um papel relevante de manipulação. Pouco comentado, mas bem característico do que esta mídia pode fazer, em 1984 um grande canal de televisão noticiou o comício de no mínimo 300 mil pessoas do movimento “Diretas Já”, em São Paulo, como sendo parte das comemorações dos 430 anos desta cidade, aproveitando a coincidência do dia do comício com o aniversário da cidade.

Continuando na lista de fraudes na comunicação, que infelizmente nunca resultaram em condenações, em 1989, poucos dias antes da eleição presidencial, a superexposição das imagens dos bandidos que sequestraram o empresário Abílio Diniz com camisetas do PT deve ter retirado votos deste partido. Também em 1989, ocorre o mais clássico caso de manipulação de informações, já muito comentado, que consiste da edição do debate entre Collor e Lula. Em 2006, na véspera da eleição para o governo do estado do Paraná, um canal de TV aberta mostrou uma fila de caminhões na estrada indo para Paranaguá, como sendo um engarrafamento que ocorria devido à má administração do porto. As imagens não eram daquele momento, mas de época passada.

Nos anos 90, após as ditaduras já terem sido varridas, anos antes, da América Latina, chegou a avalanche neoliberal por imposição de forças econômicas e políticas estrangeiras, com a complacente aceitação do empresariado desta região. Tudo ocorreu com o firme apoio e a constância tradicional da mídia do capital. Foi uma época de triste recordação, pois nunca tantos foram enganados, chegando a ponto de tomarem decisões que prejudicavam a eles próprios. Todas as sociedades dos países da região sofreram, pois as riquezas foram dilapidadas, as empresas fechadas ou vendidas para estrangeiros, os mercados usurpados, os empregos exterminados e a miséria aumentada, além de os pobres fenecerem e as pátrias esmaecerem.

Nos anos 2000, mais uma vez, acontece na América Latina uma nova onda política, desta vez com impacto social positivo. Nesta década, os povos da maioria dos países da região tomam posse da condução dos seus destinos, rejeitando os candidatos da direita, para desespero desta, da mídia do capital e de muitos profissionais de marketing político. O governo do presidente Lula e outros desta parte do continente conseguiram inclusões sociais, que eram consideradas como impossíveis de serem alcançadas, a ponto de o índice de Gini da região, que havia crescido de 0,50 em 1980 para quase 0,54 em 2000, retornar para o nível de 0,50 em 2010 (Fonte: The Economist e Carta Capital).

Tudo leva a crer que a população desta região passou a identificar melhor os candidatos, não significando que nunca mais votará em conservadores. Mas não deverá mais votar por questões supérfluas, e nunca mais candidatos maquiados a convencerão. Não é por outra razão que Brasil, Uruguai, Argentina, Paraguai (até bem pouco tempo), Bolívia, Equador, Venezuela, Peru e outros países têm governos bem mais próximos do povo do que tinham mais de uma década atrás. Restam, para os conservadores da América Latina, novas e criativas artimanhas, para as quais continuam contando com a inseparável aliada mídia do capital. Apesar dos eventuais erros do presidente Lugo do Paraguai, o golpe legislativo ocorrido lá é o caso de um novo tipo de artimanha usada pela direita para chegar ao poder. Pois, pelo voto popular, agora mais consciente, se tornou difícil.

Assim, é extremamente elucidativo analisar o caso do desvio de dinheiro público ocorrido no Brasil e que está em julgamento. Um bando de usurpadores, utilizando o esquema do senhor Marcos Valério, se locupletou. Para os que existem provas comprobatórias dos desvios, a condenação é o caminho inequívoco a seguir. Entretanto, neste momento, a direita vislumbrou uma forma de golpear o voto popular, pois esperar no mínimo uns dez anos para que os antigos 40 milhões de miseráveis famintos esqueçam quem foi eleito e não os esqueceu, irá demorar muito.

Para tanto, a direita arquitetou o estratagema, no qual a obsequiosa mídia do capital voltava a ter participação especial. Na sua nova tarefa, ela tinha que criar na grande massa, principalmente na classe média, o conceito de que acontecia algo inteiramente novo no país, ou seja, todos os integrantes de um mesmo partido tramaram suas permanências no poder pela corrupção. Recuso-me a lançar argumentos contra acusação tão desprovida de nexo. Tampouco irei me ater à falta de isonomia no tratamento de questões deste partido relativamente a outros em situação análoga. Nem sobre a coincidência do julgamento com a véspera das eleições municipais. Não quero me ater a essas questões, porque tudo isto é de uma imensa mesquinhez.

A pressão da mídia na classe média funcionou muito bem, uma vez que ela passou a acreditar que todos, criminosos comprovados e supostos criminosos, deveriam ser condenados. O instituto da “presunção da inocência” foi jogado prazerosamente no lixo, para angústia dos humanistas. Peço às forças maiores do universo que poupem os atuais verdugos de terem um filho no local errado e na hora errada. O ódio com que algumas pessoas se manifestavam com relação ao caso indicou para mim que elas estavam se vingando, não julgando de maneira isenta. Obviamente, um ódio incentivado.

Tenho mais uma observação. No nosso país, felizmente, a homofobia diminuiu e a aceitação dos afrodescendentes melhorou. Contudo, a aceitação de pessoas de esquerda por algumas instituições de governo e pela elite econômica não aconteceu, nem um pouco. Isto explica por que pessoas de esquerda só têm suas opiniões divulgadas na mídia do capital em questões como direitos humanos, cultura, comissão da verdade etc. Pessoas de esquerda nunca são chamadas a opinar nesta mídia sobre política econômica, direito de greve, privatizações e concessões, política externa (questões de economia, soberania etc.), política industrial, apoio às empresas nacionais genuínas, política mineral, lei do petróleo, renovação das concessões de hidroelétricas e outras questões relacionadas ao capital.

A mídia do capital, existente hoje e no passado, é um instrumento de manipulação da sociedade utilizado pela direita. Os golpes militares, eleitorais, legislativos e de outros tipos requerem o preparo inicial da sociedade, feito por esta mídia. Pode-se até dizer que ela é a única responsável pela fase do pré-golpe, tendo participação também nas demais fases.

A “realidade da conspiração” consiste do capital internacional, uma parte da elite econômica brasileira e a mídia do capital tramarem diuturnamente formas de manterem o povo brasileiro desinformado, alienado e votando contra seus próprios interesses.

1 Comments:

At 12:30 AM, Anonymous Anônimo said...

Ótimo texto. "Se você tem um instrumento de comunicação que fala por dia, com 70 milhões de pessoas e, o controle das mensagens é feito por uma equipe, organizada ideologicamente por um senhor, eu penso que ali está descaracterizada qualquer possibilidade de democracia... "

 

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