05 janeiro 2014

Apartheid brasileiro: o caso do Maracanã

Paulo Metri

É um sobressalto para qualquer alma encarnar, como acreditam os espíritas, em um ser humano que viverá em um país capitalista. O ser pode não ser agraciado geneticamente com uma mente e um corpo propícios à sobrevivência neste sistema. Além disso, a aleatoriedade pode escolher um núcleo populacional sem respeito à vida, sem garantia de instrução, atendimento à saúde, acesso a moradia etc, graças à própria agressividade que o capitalismo induz. O núcleo familiar receptor pode também contribuir para a desgraça do ser, que, a estas alturas, se consciente da roleta que participa, desejará não mais nascer.

Estou sendo um pouco radical, uma vez que esta roleta tem uns poucos números de sorte, que correspondem a locais na Terra onde há vida menos desumana, com o capitalismo mitigado. Existem algumas sociedades em que cada ser tem maior consideração com seus pares, apesar de não se importar que haja exploração dos seres de outras sociedades. É como se os seres estrangeiros não pertencessem aos humanos. As guerras, em muitos casos, são consequência da exploração alheia. Se esta necessidade de acúmulo de riquezas não for domada, ela levará à extinção da espécie, dado seu alto grau de exploração humana, guerras e agressão ao meio ambiente.

Mas, em um ponto, pode-se falar a favor do capitalismo, pois é um grande promotor de desenvolvimentos tecnológicos, apesar de ser com o objetivo de acumular mais capital. É interessante notar que nunca se observa que a acumulação positiva de um grupo gera um déficit de acumulação ou carência de outro. De qualquer forma, a competição inspira mais o desenvolvimento tecnológico que a solidariedade.

Esta divagação me gratifica, mas preciso dizer algo sobre o Maracanã, porque é necessário justificar o pensamento que me motivou a escrever e me levou a este título. Uma confluência de interesses, principalmente políticos e econômicos, levaram as forças relacionadas a se mobilizarem para trazer a Copa do Mundo para o Brasil. O povo mesmo não foi consultado e, a bem da verdade, foi muito mal informado. Os políticos acreditavam que conseguir trazer a Copa para o Brasil renderia muito crédito político, se não fosse com o povo, certamente seria com os empresários.

Capitais nacionais e estrangeiros vislumbraram uma excelente oportunidade para aumentar suas riquezas. A FIFA tinha seus ganhos como certos, qualquer que fosse o local da Copa, graças à psicose mundial com relação a este esporte. Com isso, qualquer país hospedeiro abre mão de decisões suas para se submeter à ditadura da FIFA. Não recrimino a humanidade por eleger o futebol como uma das suas maiores obsessões, até porque ele ajuda as pessoas a se deleitarem durante o efêmero tempo nesta superfície. A FIFA tem interesse de preservar a característica circense do evento, para garantir o sucesso de outras Copas. Aliás, gladiadores lutavam contra seus iguais, cristãos desarmados eram entregues aos leões, na antiga Roma, para a máxima “diversão” do espetáculo.

 Os Clubes brasileiros e as administrações estaduais descobriram uma forma de ganhar estádios novos com verba pública federal, de graça para eles. Verba esta, oriunda de imposto, que fez falta nos orçamentos da saúde, educação, moradia etc. Os construtores aproveitaram e impuseram reformas desnecessárias ao governo precipitado que decidiu sem visão social e só com interesse político. Ganham muito também empresas do esporte, agências de viagem, empresas de transporte, agências de propaganda e, sem dúvida, as empresas de mídia com o direito de transmissão. Enfim, o circo beneficia muitos, até o povo com a manutenção da esperança de alegrias.

O conluio no Brasil envolveu os mesmos grupos de outras Copas: FIFA, políticos, construtores etc. Para alegria dos construtores, concluíram erradamente que o Maracanã tinha que ser colocado abaixo e construído outro no lugar. O antigo era popular, pois alguns destituídos de dinheiro podiam assistir ao jogo até de perto, sem ver imagens de duas dimensões em uma tela, sentindo o cheiro do suor dos jogadores. Nele, o pobre conseguia ser aceito.

A versão das mentes servas do capital era: “O Maracanã precisa ser destinado a quem conquistou na sociedade o direito de ver belos espetáculos”. Continuavam dizendo: “Um Zé Ninguém não pode ter o direito de ouvir os berros dos jogadores, enquanto a elite está surda”. E concluíam: “Não se sabe onde estava a cabeça dos projetistas do antigo estádio com total repulsa à hierarquia social”. Esses destruidores do patrimônio popular deviam ir a um jogo de baseball em Cuba, o esporte mais popular deste país, para ver os portões totalmente abertos, sem bilheterias, com o povo entrando e sentando livremente. O único critério para a conquista de um assento era ter chegado cedo. Era assim, há uns quinze anos. Torço para que ainda seja.

Assisti, pela televisão, ao jogo final da Copa do Brasil do ano passado, que foi no novo Maracanã. Mesmo que estivesse motivado a ir ao estádio, me negaria a pagar até o preço mínimo de R$ 250. A partir da televisão, o estádio parecia muito bonito. Aliás, pelo que foi gasto, se não parecesse, era o caso de se reivindicar uns fuzilamentos. Mas, o que mais me chamou a atenção foi, quando uma câmera, que provavelmente estava fixada em um trilho no teto do estádio, começou a deslizar mostrando a torcida do Flamengo. Era um mar homogêneo de torcedores brancos, cheios de dentes brancos, bem nutridos e vestidos e, por aí, vai. Veio à minha cabeça, por uma fração de segundo, a impressão que o Bolsa Família tinha conseguido um resultado inusitado, pois até o branqueamento da sociedade brasileira imaginado por conservadores do início do século passado tinha ocorrido. Mas, aquela era a imagem de um subgrupo extremamente minoritário dos flamenguistas. Ali, não tinha o povão torcedor do time, que forma a grande massa dos torcedores. Aí, veio a pergunta: “Onde está o povo?”
O povo está se comprimindo nas portas de bares e restaurantes, que têm telão, ou vendo em uma telinha pequena em casa. Dependendo do dia, ele pede uma cerveja para o dono do bar não olhar com cara feia. O povo foi expulso do Maracanã, com a adoção da proposta do capital. Não sei o que representava uma ida ao Maracanã para um torcedor verdadeiro, pois nunca fui um aficionado, mas, sou levado a crer que a reforma deste estádio foi sobejamente desaprovada. Para tornar pior o ato dos governos, a verba que o “modernizou” era pública, então ela não poderia ser usada para benefício de uma casta da sociedade. Hoje, o Maracanã, certamente, não parece com a Praça Castro Alves de Salvador, porque esta é do povo.

1 Comments:

At 8:37 PM, Anonymous Antonio Ferdinando Zanardi said...

Paulo , fica parecendo os estádios europeus com os cidadãos frios e engravatados , sentadinhos e ordeiros.Ridiculo!

 

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