02 janeiro 2014

Chama o gringo

Paulo Metri

Existe a música “Chama o ladrão” do Chico Buarque, em que o autor se achava tão inseguro com uma polícia corrupta que fazia o absurdo, em tom de crítica, de chamar o ladrão para lhe proteger. Esta música me veio à lembrança assim que vi uma vinheta do Exército brasileiro, que pode ser encontrada no endereço: https://docs.google.com/file/d/0B14v3Lsx_NHPSDFCMlFaX2w1NEk/edit?usp=drive_web&pli=1

A vinheta tem como música de fundo uma canção norte-americana, cuja letra não recebeu nenhuma tradução e, assim, ela é cantada em inglês. Notar bem que não me refiro à qualidade musical desta canção, que, aliás, é linda. Existem legendas em português, mas o som não é o pátrio.

O idioma utilizado pela maioria dos habitantes de uma nação representa um dos valores culturais deste povo. O Exército brasileiro, junto com as demais Forças, deveria compor um oráculo de brasilidade. Apesar dos anos conturbados em que as Forças Armadas detiveram o poder na Nação, são instituições, nas quais o povo brasileiro confia a espinhosa tarefa de nos proteger de possíveis agressões estrangeiras. Creio que, devido à abnegação necessária para cumprir tal tarefa, que pode exigir até a vida de quem a cumpre, nossas Forças Armadas são, hoje, símbolos pátrios respeitados pela população.

Pois bem, nosso Exército escolheu para se comunicar conosco, seus protegidos, em inglês. Seria preciso explicar que mais de 90% da nossa população não entende inglês? Seria preciso explicar que o recado que passa à população é que o Exercito brasileiro faz parte de um grande conjunto de Exércitos ocidentais que têm o mesmo objetivo?

Em primeiro lugar, sei que existe um instrumento institucional que obriga a legislação, contratos e outros documentos oficiais serem redigidos em português. Versões destes em outras línguas podem ser emitidas por órgãos públicos, mas não têm valor legal. Por analogia, a vinheta do Exército deveria ser em português. Além disto, não acho que já houve a discussão sobre quem são os potenciais inimigos do Brasil, ou seja, não concordo com um alinhamento automático das Forças Armadas brasileiras com uma OTAN reformulada para conter o Atlântico Sul, por exemplo.

A minha indignação é também porque o cancioneiro popular brasileiro é tão rico quanto, por exemplo, os cancioneiros norte-americano e francês. Será que não existia uma canção brasileira que poderia servir de música de fundo desta vinheta?

Ainda sob o impacto da mensagem recebida, telefonei para um militar amigo e contei o ocorrido. A explicação que ouvi foi que, com a atuação do Exército brasileiro no exterior, principalmente no Haiti, era necessária uma vinheta promocional do nosso Exército para estrangeiros verem. Notar que este amigo não falou em nome do Exército, tendo explicado, somente, seu entendimento. Mas, neste caso, a vinheta deveria ter utilizado uma música na língua crioula, pois todos haitianos iriam entender.

O mais interessante é que o amigo que mandou o endereço da vinheta, militar também, procurando divulgá-la na melhor das intenções, colocou como assunto da mensagem: “A farda Verde-Oliva é a nossa segunda pele”. Tive vontade de responder: “A hipoderme pode ser verde-oliva, mas, o que importa é a cor do cérebro.”

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