21 abril 2014

Indústria da difamação



Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia

Em um salão amplo, em torno de uma grande mesa de reunião, será tomada a decisão da pauta do próximo número de um dos maiores periódicos do país. O editor chefe, os chefes de editorias setoriais e, o que é incomum para este tipo de reunião, o próprio dono da editora estão presentes. Em geral, ele recebe a pauta gerada nestas reuniões e ainda interfere nas decisões. Mas, desta vez, ele está interessado em mostrar ao seu filho, um dos mais recentes diplomados em jornalismo, como funciona o negócio da família. Por isso, trouxe o rebento para a reunião. O editor chefe está com a tarefa, determinada pelo dono, de presidir a reunião e com a recomendação de esquecer a sua presença. Assim, falando mais alto, o editor abafa o bate papo do grupo e inicia a reunião.

Editor chefe – Quero sugestões para a matéria principal e para as demais matérias. Vamos começar com a matéria principal, com direito à chamada da capa.

Jornalista 1 – Pasadena, depoimentos, Petrobras, Paulo Roberto Costa ...

Editor chefe – Para matéria principal, não. Precisamos de um furo, algo novo ou de uma nova declaração sobre um tema antigo.

Todo mundo fica em silêncio, até que uma jornalista, que só tem dois meses na editora, pede para falar.

Jornalista 2 – Eu tenho a informação de uma fonte que outro diretor da Petrobras também está envolvido em superfaturamentos, negócios não bem explicados etc.

Editor chefe – É algum dos que nós já fizemos matérias?

Jornalista 2 – Não. É outro.

Editor chefe – É coisa séria?

Jornalista 2 – Minha fonte foi apresentada por um amigo, que diz que ela é séria. Mas, até agora, não tive nenhuma confirmação.

Editor chefe – Então, vá à luta e descubra o máximo que puder. Antes da edição do novo número, vamos ter mais uma reunião e, sempre que precisar, fale comigo.

Jornalista 2 – Só tenho medo de não conseguir comprovar as denúncias. Aliás, têm muitas pessoas que dizem exatamente o contrário. Dizem que quem conhece o tal diretor não vai acreditar que as acusações sejam verdadeiras.

A jornalista 2 não sabe ainda como as coisas funcionam nesta editora. Por isso, o editor chefe olha para o dono, esboça um ligeiro sorriso e responde para a jornalista.

Editor chefe – Busque a história e as comprovações. Mas, mesmo que você não consiga comprovar, fale comigo, porque há chance de se utilizar o material.

Jornalista 2 – Como assim?

Editor chefe – Se só faltar um link óbvio, você não precisa de comprovação. A própria obviedade é a validação da informação. Além disso, muitas vezes, o leitor quer ouvir mais versões do que realidades. E temos, também, que satisfazer o leitor!

Jornalista 2 – Mas, tem a chance de grupos com interesses na empresa estarem querendo “queimar” este diretor e, por isso, estariam “plantando” estas notícias falsas na nossa publicação.

Editor chefe – Colha todo o material e, depois, venha na minha sala com ele.

Neste ponto, o filho do dono se dirige ao pai, falando baixinho.

Filho – Agir como ele propõe não pode resultar em um processo futuro de difamação, que poderá trazer prejuízos?

Em ato incontinente, o dono se levanta e diz para o grupo continuar com a reunião, mas ele terá que se ausentar, devido a tarefas inadiáveis. A seguir, sai da sala, acompanhado do filho. Chegando a sua sala, dirige a palavra para o filho.

Dono – Você sabe qual o negócio mais rentável nesta empresa?

Filho – Edição das nossas publicações, incluindo o carro-chefe, em cuja reunião de pauta, nós estávamos?

Dono – Não!

Filho – A publicação de livros?

Dono – Também não. Você não vai descobrir. É o lançamento de acusações, verdadeiras ou não. Através delas, há a possibilidade de se ganhar dinheiro de várias formas. Em primeiro lugar, porque a venda da publicação com denúncias é sempre alta. Depois, os grupos econômicos por trás do corrupto, beneficiários das suas falcatruas, ou seja, os corruptores, ficam propensos a abrir os cofres para que paremos a linha de investigação. Muitas vezes, estes grupos ficam sabendo, antecipadamente, as nossas investigações e ...

Filho – Como podem?

Dono – Eles têm espiões na nossa redação. E, aí, eles oferecem valores consideráveis para as investigações serem paralisadas.

Filho – E nós aceitamos?

Dono – Se o valor oferecido garantir uma boa lucratividade e dependendo, também, da inconsistência das acusações que temos, sim!

O filho fica pensativo. O pai continua com a sua explicação.

Dono – Têm as encomendas de calúnia para “queimar” adversários políticos. Por fim, os governos, às vezes, ficam sabendo antecipadamente também, e oferecem, por exemplo, a compra de publicidade para não publicarmos determinadas denúncias.

Filho – Isto não seria proibido?

Dono – É. Mas, é muito difícil de ser detectado.

Filho – E o caso que lhe perguntei na reunião? São publicadas acusações não comprovadas e o cidadão, que se julga difamado, vai à Justiça. Se esta der ganho de causa ao reclamante, não vai nos dar prejuízo?

Dono – Têm dois fatores a se levar em consideração. O primeiro é que ganhar uma causa na Justiça não depende, necessariamente, de se estar fazendo justiça. Se você está sendo representado por bons advogados, suas chances de ganhar aumentam muito. Por isso, nós trabalhamos com um dos melhores escritórios existentes. O outro ponto a considerar é que, mesmo que percamos a causa, o total das penalidades ainda pode ser menor que o lucro gerado pela edição caluniosa. E o pagamento das penalidades só acontece anos depois da receita do fato calunioso ter entrado no nosso caixa.

O filho continua pensativo e o pai complementa da seguinte forma.

Dono – Eu prefiro trabalhar com fatos verdadeiros, até porque com eles você não é desmascarado e não tem a chance de perder a credibilidade. Mas, o nosso negócio é o escândalo. E, às vezes, os escândalos reais ficam escassos.

Filho – E os difamados injustamente? Como ficam?

Dono – São acidentes de percurso. Não há nada pessoal contra eles.

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