21 julho 2014

A alma do Clube

Paulo Metri


Contrariando o significado mais comum de “clube”, o Clube de Engenharia não visa prioritariamente o convívio social dos associados. Trata-se de uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, congregando engenheiros e demais colegas de profissões afins, que busca influenciar nas questões relativas a políticas de desenvolvimento e de impacto social, principalmente as relacionadas à Engenharia. Assim, com muito orgulho, sou membro do Conselho Diretor do Clube de Engenharia desde os anos 80 e, por ter tido cinco vitórias eleitorais, hoje, sou conselheiro vitalício, o que significa que não disputo mais as eleições internas.

Entre a vitaliciedade dos membros do Clube e a imortalidade dos componentes da Academia Brasileira de Letras, creio que o Clube foi mais honesto ao escolher o título, por mais que me expliquem que a imortalidade, no caso, se refere somente às obras dos ditos imortais. Implícito está que não haveria beleza nos cálculos da engenharia, o que tem a minha mais profunda discordância.

Enfim, o Clube é uma entidade das mais nobres da nossa sociedade quer seja pelo seu equilíbrio, por não se furtar a tratar de qualquer tema, mas principalmente pelas posições que vêm sendo tomadas ao longo da sua existência. Foi fundado por engenheiros e empresários ainda no Império, precisamente em 1880, através de permissão escrita do imperador, por ele ser, então, o ente controlador de iniciativas da sociedade. Assim, na verdade, o Clube nasceu mais como uma entidade patronal que uma associação de profissionais liberais. Mas, a capacidade técnica de seus associados foi prontamente respeitada, tanto que, durante anos, julgou projetos de engenharia e de infra-estrutura, quando a administração pública ainda não tinha capacidade para julgá-los. E como qualquer julgamento de projetos, estes envolviam prioritariamente aspectos técnicos, mas também aspectos econômicos e políticos, o que trouxe para o Clube deste período um razoável poder político.

Sem seguir a cronologia, o Clube tomou posição a favor da abolição da escravatura, mesmo porque um dos seus primeiros diretores foi André Rebouças, um engenheiro negro. Apoiou a proclamação da República, foi favorável ao voto universal, incluindo o voto feminino. Também reivindicou a adesão brasileira aos aliados durante a segunda guerra na luta contra o nazismo, apoiou o movimento “O petróleo é nosso”, Lutou pelas “Diretas já” e pelo movimento “Pela ética na política”. Lançou nos anos 80, o movimento “Pela retomada do desenvolvimento” e sempre batalhou por um projeto nacionalista. Nos últimos anos, tem sido uma trincheira de luta contra as insistentes investidas do neoliberalismo. Este é um resumo de tudo que o Clube fez, a partir da memória de um de seus membros. Existem atas riquíssimas dos 134 anos de vida do Clube na biblioteca do mesmo. Quem for pesquisar lá irá se deparar, por exemplo, com a presença de Machado de Assis, em reuniões bem antigas do Conselho como representante do Ministério da Agricultura.

Este é o problema de dirigentes de entidades centenárias, uma vez que têm que honrar a memória de antecessores brilhantes. No Clube, temos que trazer para a Casa a mesma grandeza que a ela trouxeram os irmãos André e Antonio Rebouças, Paulo de Frontim, Edson Passos, Maurício Joppert, Plinio Cantânhede, Hélio de Almeida e muitos outros. Foram sócios do Clube sem participação ativa, até porque estavam distantes do Rio de Janeiro, em boa parte do tempo, Luiz Carlos Prestes, Aureliano Chaves, Mario Covas e Itamar Franco. Uma mácula, que o Clube tem, é a de nunca ter oferecido uma proposta de filiação ao seu quadro de associados ao engenheiro Leonel Brizola, que, contudo, pode ser minimizada, a qualquer época, com uma homenagem póstuma ao grande brasileiro.

Aprendi muito no convívio com os sócios do Clube e com meus pares do Conselho. São brasileiros de estaturas grandiosas, todos escondidos sem pompa em cadeiras e poltronas comuns, ouvindo pacientemente até a voz dos principiantes. Muitos deles ainda estão lá, verdadeiros ideólogos de um mundo melhor e não falo só de um tecnicamente melhor, mas, principalmente, de um socialmente melhor.

Temos lá, também, um excelente “orador do adeus”, que tem sido convocado com certa frequência, infelizmente, nos últimos tempos. E a razão para isto recai, no final, no neoliberalismo, inclusive como acontece com inúmeros outros dramas. Com a angústia advinda da introdução deste princípio econômico, projetado para maximizar os lucros dos “rentistas”, o salário médio dos trabalhadores diminuiu, o desemprego aumentou, a taxa de desemprego dos recém formados ficou maior que a das pessoas formadas há mais tempo, e os sindicatos e as associações de classe foram esfaceladas. Enfim, um jovem queria unicamente conseguir um emprego e se agarrar a ele. Os sindicatos e as associações de classe passaram a ser vistos como entidades inúteis. A política, para os jovens, se resumia em se ser malandro. Não havia esperança de solução coletiva e o individualismo imperava. Neste quadro, não se via razão para pagar contribuições para as entidades da sociedade civil, sem fins lucrativos, com objetivos sociais. Portanto, estas viram seu número de sócios decrescer, sem a entrada de novos sócios.

Desta forma, o Conselho Diretor do Clube tem, hoje, uma idade média de, no mínimo, 60 anos. Assim mesmo, graças às senhoras que felizmente têm todas menos de 40 anos. A idade média dos conselheiros homens deve estar por volta de 70 anos. Pois bem, com este universo de trabalho, ninguém pode se espantar que o “orador do adeus” esteja sendo muito solicitado. Sua tarefa é relativamente fácil, principalmente porque os que têm partido ultimamente tiveram vidas exemplares.

Por outro lado, primeiramente, ele é um grande orador. Em segundo lugar, é um profissional e ama o nobre cargo. Ele pesquisa e consegue deixar muito felizes os parentes do viajante, que, tristemente, não ouve suas palavras. Eu espero que ele tenha uma vida mais longa que a minha e que o desfecho só ocorra daqui a uns 30 anos, para ele fazer a gentileza de consolar os meus parentes.

Tudo, que foi falado até aqui, visa convergir para a “alma do Clube”, reconhecendo ser difícil transmitir como uma entidade pode ter alma. Ela está na garantia, feita a cerca de 100 anos, que o Rio de Janeiro ia ter água em seis dias. Está em diversas posições e recomendações tomadas pelo Clube, muitas acatadas e outras, não. Está na seriedade das mensagens emitidas. Está na coragem de se posicionar. Está na capacidade misteriosa de levar o conjunto de dirigentes e sócios a pensar e a buscar verdades maiores e, quando não as encontra, de levar todos a buscar um caminho possível de razoável satisfação dos engenheiros e da sociedade. Gostaria que uma nova geração, pulando a que foi perdida para o neoliberalismo, chegasse logo para que os conselheiros antigos possam passar a missão, sem sentir o amargo gosto de ter enterrado uma entidade. Mas, eles não podem demorar a aparecer, pois meu orador do adeus preferido e eu não temos tanto tempo assim.


Julho de 2004

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