02 novembro 2015

O meu Clube e o outro

Paulo Metri

Li, recentemente, que a Casa Daros vai fechar as suas portas no Brasil e o belíssimo casarão, que a abriga em Botafogo, vai ser vendido para o grupo educacional “Eleva Educação”. Este grupo tem o projeto de transformar o local em uma escola inovadora. Neste ponto, minha mente andou mais rápido que a visão sobre as letras do jornal. Imaginei que seria o projeto experimental, que sempre sonhei. Uma escola que formaria cidadãos prioritariamente para a vida e, de passagem, para o mercado. Imaginei que, além da grade de ensino tradicional, falariam sobre a evolução do pensamento humano, os grandes pensadores, as conquistas da humanidade, a luta da classe trabalhadora, enfim, seria um curso de humanismo.
A sentença seguinte foi um “balde de água fria”, pois se previa somente “aulas de ética, empreendedorismo, noções básicas de finanças, programação de software e até oratória”. É verdade que esta escola é inovadora ao preparar melhores gerentes dos investimentos do capital. Ela irá ajudar muito a concentração de riqueza na mão de poucos. Este “avanço” é condizente com o mundo atual em que vivemos.
Se nosso amigo Paulo Lima ainda estivesse conosco, iria perguntar, de forma meio irreverente, que era como ele falava de coisas sérias, se o educado através desta inovação seria um ser mais feliz. Perguntaria mais. Iria querer saber se a educação inovadora seria benéfica para o conjunto da sociedade.
Algo análogo se passa com o Clube de Engenharia. Queremos buscar o Clube que atua na sociedade para modificá-la para o bem dos engenheiros e da própria sociedade? Ou devemos nos dedicar a especializar os engenheiros para o mercado de trabalho que lhes é oferecido no momento? O Clube não deve se ater às disputas geopolíticas existentes no mundo? O Clube não deve se meter em questões políticas internas que representem mais concentração de renda, “pois isto é inevitável no capitalismo”? Queremos um Clube que seja uma ferramenta política para a luta por um Brasil mais produtivo, justo e democrático? Ou um que seja somente transmissor dos últimos conhecimentos da operação e manutenção de projetos? Ou o Clube deve lutar para que as atividades de projeto sejam também feitas aqui? O Clube deve concordar com a destinação do Brasil para ser um país exportador de minérios e grãos, e importador de bens de alto conteúdo tecnológico? Um país periférico do capitalismo mundial? O que traz, como consequência, só as tarefas pouco nobres da engenharia serem aqui realizadas.
Falo tudo isto porque o mundo mudou para aqueles que têm, no mínimo, uns 45 anos. Mudou muito. E não podemos fazer a indignidade de roubar a autoria de quem tem a maior responsabilidade pelo ocorrido: os princípios neoliberais, aplicados no mundo, desde a década de 1970, e no Brasil, a partir da década de 1990. Mudaram o Brasil para pior.
Faliram as incipientes experiências de empresas genuinamente nacionais. Não satisfeitos em só privatizar as estatais, desnacionalizaram muitas delas. Na França, grupos econômicos franceses tinham prioridade no arremate de estatais francesas e nem se sonhou em privatizar uma EDF, por exemplo. No Brasil, colocaram as poucas estatais, que restaram, para trabalharem para o mercado. Criaram um grande número de desempregados, com o objetivo de baixar o custo da mão de obra. Com isso, quebraram a espinha dorsal dos sindicatos e dos órgãos de classe, que identificavam todo o ardil, mas eram impotentes para denunciá-lo. Desmobilizaram os movimentos sociais. Quase não houve reação porque a sociedade era muito mal informada por uma única opção de mídia, a do capital. Artigos e depoimentos de técnicos e políticos com posições nacionalistas, por exemplo, eram e são necessariamente excluídas.
Neste contexto, o Clube de Engenharia, assim como muitas das organizações da sociedade civil, perdeu associados. O mundo tinha ficado mais agressivo. As ofertas de emprego escassearam. Havia um alto índice de engenheiros desempregados, principalmente os recém-formados. Foi nesta época que muitos engenheiros abandonaram a profissão. Como ser associado a uma entidade, que não trazia benefícios de curto prazo, se o ganha-pão estava em perigo? As gerações que vieram depois nem têm idéia do que é a engenharia de um país soberano. Elas não estão conscientes que pode ser intensificada a engenharia de projeto no Brasil, como, por exemplo, um carro totalmente projetado por brasileiros ser realizado aqui, em outro modelo de inserção internacional do nosso país. Mas teria que ser por demanda de uma empresa nacional genuína, pois as multinacionais nunca o demandarão. Plagiando os fóruns sociais mundiais, outra engenharia brasileira é possível.
Um dos maiores problemas das direções do Clube, nos últimos anos, tem sido explicitado da seguinte forma: como trazer mais associados para o Clube? Eu divirjo da simplicidade desta colocação. Não se trata somente de trazer engenheiros, principalmente os mais jovens. Trata-se de trazer novos sócios para o Clube para explicar que outra engenharia, outro modelo de inserção mundial do Brasil, outro modelo econômico e outro país são possíveis. Se o Clube abandonar a condição de ferramenta política de mudança da sociedade brasileira e passar a respaldar a alienação da classe, discutindo o perfunctório, quem sairá do Clube serei eu. Não abro mão do meu Clube.
Não se trata de trazer sócios a qualquer preço, oferecendo só uma série de palestras de aperfeiçoamento profissional (se bem que elas podem existir também). O Clube serve principalmente para se discutir planos de governo, discutir medidas específicas dos administradores públicos, projetos futuros de ensino de engenharia, de expansão industrial, de desenvolvimento de ciência e tecnologia etc. Outro ponto é que não se deve objetivar interferir, por mínimo que seja, só no pensamento dos engenheiros. E, sim, no de toda a sociedade. Mas, prioritariamente, no pensamento dos engenheiros.
A idéia de palestras para estudantes de engenharia, nas escolas, de ex-professores universitários, que foram ou são dirigentes do Clube, é excelente. Somente acrescentaria que podem ser incluídas também palestras de colegas especialistas em temas específicos. Por exemplo, o Guilherme Estrella falando sobre o Pré-Sal.
Esta é a minha contribuição ao tema, impossível de ser exposta em dois minutos do pinga-fogo, por mais que o presidente seja benevolente, concedendo dois minutos dos grandes.

novembro de 2015


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