31 março 2016

Temer, o temerário

(Veiculado pelo Correio da Cidadania a partir de 31/03/16)

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia e colunista do Correio da Cidadania

É sabido que arroubos, plenos de coragem, são atalhos que elevam seus atores à máxima gloria ou à triste derrota. Para prever o resultado mais provável de determinado arroubo, há a necessidade de avaliações, como das forças atuantes, dos interesses em jogo, das possíveis ações dos atores, das transmissões do que ocorre, incluindo as versões criadas para conturbar a compreensão, das repercussões dos fatos e das versões, enfim, trata-se de tarefa árdua.

Com a saída do PMDB do governo, Temer tem alguma chance de chegar ao poder por período efêmero. Aparentemente, a avaliação que seu grupo e ele próprio fizeram parou exatamente no fim do atual período governamental. Isto porque seu maior aliado nesta empreitada golpista é o PSDB que conta com ganhar a eleição de 2018. Provavelmente, nesta época, o PMDB continuará se oferecendo para ser o garantidor da governabilidade, à custa de muitos cargos públicos e não sei mais o quê. Um alerta ao PSDB: em 2018, não aceite formar chapa com o PMDB, sendo Temer o candidato a vice-presidente. Não dá certo.

Na última eleição para presidente, dos mais de 54 milhões de votos que a chapa Dilma e Temer tiveram só uma dúzia foram conquistados por Temer. Ninguém vota em uma chapa por causa do vice. Assim, ele está, no fundo, se apoderando dos votos de Dilma. O fato é que ele nunca será presidente por eleição direta, em que a cédula o tenha na cabeça de chapa. Então, sua escolha é: ou os 15 minutos de glória agora ou nada. Excetuando o Requião, não há no PMDB uma figura presidenciável de respeito. Trata-se do partido vocacionado para dar a garantia da governabilidade, a um custo social alto.

No entanto, a sociedade brasileira de hoje é mais consciente do que aquela do período que antecedeu ao golpe militar de 1964 ou ao golpe midiático de 1989. Por isso, não se pode dizer que terá sucesso o atual golpe jurídico, parlamentar e midiático para depor a presidente Dilma. Os golpistas sabem que a neurolinguística recomenda que eles não sejam reconhecidos pela sociedade como tal, pois ela repudia golpes com razão. Eles são maus-caracteres que procuram iludir pessoas sem muito discernimento para poderem dar os golpes. Então, se alguém falar que não é golpista, pois o impeachment é previsto na Constituição, entenda que só estão querendo se livrar da pecha.

Na realidade, são golpistas, porque é verdade que o impeachment está na Constituição, mas ele não se enquadra no caso da presidente Dilma. Assim, o golpe consiste em querer convencer a sociedade de que os atos dela permitem enquadrá-la no caso de impeachment, quando não é o caso.

A época atual é de grande acirramento de ânimos, lembrando momentos precursores de levantes, golpes, revoluções e guerras civis. Poderia ser explicado pelo fato de os golpistas estarem sentindo que a mídia convencional não consegue mais criar uma convergência absoluta de opiniões e posições. Com o fracasso do golpe em curso, podem até pensar em pedir o apoio das Forças Armadas, porque, no passado, em momentos como este, a direita pediu o apoio delas. Na época da Constituição, convivia-se com antagonismos muito maiores e chegou-se a bom termo, à Constituição de 1988.

Em minha opinião, o acirramento atual deve-se ao fato de que na cabeça da oligarquia dominante, dos representantes estrangeiros, dos políticos corruptos e da mídia convencional, 13 anos de governos com prioridade social e nacional são demais. Isto é uma tendência socializante e nacionalista que repercute na lucratividade das empresas, na diminuição do domínio das massas e na perda do acesso estrangeiro às nossas riquezas, caracterizando uma ousadia perigosa. Os donos de capital e poder devem estar se perguntando: “até quando vamos perder nossos ativos?

O senador Lindbergh Farias bem resumiu, em discurso no Senado, como seria um hipotético governo Temer, a partir da análise dos principais pontos do programa do PMDB "Uma ponte para o futuro". Segundo ele, “o programa do PMDB prevê orçamento zero, com desvinculação das receitas de saúde, educação e transferência de renda; reforma tributária em benefício dos muito ricos; juros altos; fim da política de reajuste anual do salário mínimo, entre outros pontos”. Isto me faz lembrar que é admirável o senso de humor de algumas pessoas, mesmo em momentos de aflição, pois o programa do PMDB foi chamado de “Uma ponte para o futuro a temer”.

Acrescentaria à lista do senador, a retirada de recursos do programa Minha Casa, Minha Vida, a volta do modelo das concessões para a área do Pré-Sal, a diminuição dos gastos com defesa, a renúncia do Brasil ao grupo dos BRICS, a diminuição da participação no Mercosul e da atuação junto a países do hemisfério sul, e a aceitação cega ao Império norte americano.

Desta forma, parece-me que Temer age temerariamente ao construir uma biografia que poderá ser a de um destruidor dos direitos sociais, um entreguista, um neoliberal, um algoz do povo e até a de um indutor de um golpe militar.

Um recado óbvio para os partidos de esquerda. O que se está defendendo, agora, é a democracia, a continuidade de um governo eleito pelo povo e que não cometeu nenhum crime de responsabilidade. Não se está defendendo todas as ações que o governo Dilma tomou. Derrubada a pretensão golpista do impeachment, volta-se a criticá-lo naquilo que ele é passível de críticas.

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