13 abril 2016

Petrobrás: esconder o lucro serve a que propósito?

(Veiculado Pelo Correio da Cidadania a partir de 14/04/16)

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia e colunista do Correio da Cidadania

A Petrobrás apresentou seu balanço de 2015, há pouco tempo. Trata-se de um documento de 125 páginas com inúmeras informações, escrito, é claro, com linguagem específica de contabilidade. Entidades empresariais, como fundos de investimentos e bancos, se utilizam das suas áreas de análise de balanços. Entidades sindicais, infelizmente com menos recursos, ficam sem conhecer a fundo os balanços.

Com coragem, pois não sou contador, faço alguns comentários sobre este balanço. Disponho a meu favor, para me encorajar, o fato que a cobertura da imprensa foi tendenciosa, passível de ser constatada até por um principiante em análise de balanços.

Os grandes jornais do Rio e de São Paulo noticiaram em primeira página o prejuízo mostrado no balanço de 2015 da Petrobrás. Os jornais televisivos que assisti também ressaltaram esta notícia. Assim, a população ficou com a impressão que o ano de 2015 foi péssimo para a empresa. Pessoas, que assistem frequentemente aos jornais televisivos, onde são transmitidas notícias diárias sobre os roubos na empresa, devem ter concluído erradamente: “estes ladrões da Petrobrás causaram enorme prejuízo a ela!

No entanto, se for lido o introito dos resultados consolidados do quarto trimestre de 2015 da Petrobrás, documento publicado junto com o balanço anual da empresa, os dados mostrados a seguir podem ser observados.
(1)      Houve uma redução de R$ 8.931 milhões no prejuízo operacional em 2015, pois ele foi de R$ 21.322 milhões em 2014 e, em 2015, foi de R$ 12.391 milhões.
(2)      O “earnings before interest, taxes, depreciation and amortization” (EBITDA) de R$ 73.859 milhões em 2015 é 25% superior ao de 2014.
(3)      O fluxo de caixa livre positivo de R$ 15.626 milhões em 2015 é superior ao fluxo de caixa livre negativo de R$ 19.554 milhões em 2014.
(4)      O endividamento líquido foi de US$ 100.379 milhões em 31.12.2015, tendo diminuído 5% em relação ao de 31.12.2014.
(5)      Houve aumento do prazo médio da dívida de 6,10 anos em 31.12.2014 para 7,14 anos em 31.12.2015.
(6)      Os investimentos em 2015 são de R$ 76.315 milhões, 12% inferiores aos de 2014, significando que se conseguiu postergar investimentos.
(7)      Houve um acréscimo de 4% na produção de petróleo e gás natural da Petrobrás (no Brasil e no exterior) em 2015 quando comparado com 2014.
(8)      Houve menores gastos com a importação de petróleo e derivados.
(9)      Como o valor da produção diminuiu, o pagamento de participações governamentais diminuiu também.
(10)  Com o desempenho fraco da economia, houve uma redução de 9% na demanda de derivados no mercado doméstico, liberando mais petróleo para ser exportado.

Todas estas notícias são positivas, mas não foram divulgadas e, provavelmente, poucas pessoas as conhecem. As justificativas do por que tais índices não foram ainda melhores também foram escondidas pela mídia. Primeiramente, o valor do barril caiu muito no último ano, o que levou a direção da empresa a considerar, após avaliações, alguns ativos e investimentos como não mais atrativos, o que teve como consequência a baixa dos mesmos no balanço, contribuindo para a formação do prejuízo.

O Brasil e a Petrobrás foram rebaixados nos seus graus de investimento pelas agências de classificação de risco, o que resultou em maior pagamento de juros pela Petrobrás, na rolagem das dívidas. Aliás, empresas petrolíferas terem suas notas de crédito rebaixadas virou moda, pois a Moody’s rebaixou as da Shell, Total e Chevron. Também, a valorização do dólar em relação ao real, resultou no acréscimo da dívida da Petrobrás em moeda estrangeira, quando expressa em reais.

Assim, a mídia só soube repetir à exaustão que o prejuízo da Petrobrás em 2015 foi de R$ 34.836 milhões. Esta afirmação, além de ser compreendida pelo leigo como relacionada à corrupção na empresa, leva muitos, incluindo não só leigos, a concluir que há necessidade de vender ativos para poder salvar a empresa.

Acho meritório o interesse da diretoria da empresa em fazer o balanço ser o mais correto possível, sem esconder nada. Entretanto, discordo da diretoria com relação ao método utilizado para fazer a avaliação do que ainda é atrativo para a empresa. Foram feitos novos Estudos de Viabilidade Técnica e Econômica (EVTE), utilizando para o preço do barril valor recente, que é bem baixo. Sabe-se que o fluxo de caixa do EVTE é construído a valores constantes, o que significa, em outras palavras, que a atuação da inflação será a mesma para todos os itens que compõem o EVTE.

Para um empreendimento de petróleo, que ainda tem uma vida útil de 15, 20 ou 25 anos, não pode ser tomado como preço do barril em todo o período o baixo valor atual corrigido pela inflação média do país, pois necessariamente este preço subirá mais que a inflação. Portanto, não é de se espantar que, por esta metodologia, muitos empreendimentos resultaram em ser não atrativos. Dever-se-ia estimar um valor médio futuro do barril ou considerar valores diferentes ao longo do tempo e colocar estes valores no fluxo de caixa.

Como última observação, a Petrobrás tem 40 bilhões de barris descobertos por ela e na totalidade seus, que ainda não foram contabilizados. É certo que precisam estar certificados, inclusive por certificadora estrangeira, para poderem fazer parte do patrimônio da empresa. Se estes 40 bilhões de barris fossem contabilizados, o balanço de 2015 daria um lucro espetacular. Por isso, esta demora na certificação é conveniente para se atingir objetivos antinacionais.

Assim, esconder o lucro serve à diretoria da empresa que quer vender ativos no momento atual, ou seja, a preço de banana. Serve a quem quer gravar na cabeça dos brasileiros que a esquerda só trouxe prejuízos para a Petrobrás. Serve, também, para as petrolíferas estrangeiras entrarem no Pré-Sal com o argumento de que a Petrobrás está sem caixa e dando prejuízos. Assim, elas concluem: “há a necessidade de ser aceito nosso oferecimento de apoio de capital”.

4 Comments:

At 7:44 AM, Anonymous Rogério said...

Caro Paulo, sua análise é muito importante. Contudo, o que é noticiado pela imprensa é feito com base num hábito que existe há muito tempo. Nos anos em que o lucro foi extraordinariamente alto, só a informação do lucro aparecia e esses detalhes que você apresentou também ficavam de lado. Por exemplo, o fluxo de caixa positivo, que foi ressaltado agora apesar do prejuízo líquido. Nos anos de lucro gordo, o fluxo de caixa estava negativo (desde 2008), mas isso não aparecia. Provavelmente porque todos estavam focados no grande lucro. Quem estuda um pouco de contabilidade entende que o lucro líquido é uma entidade contábil e não representa muito a vida real. Entretanto, na cabeça das pessoas é feita uma analogia com o orçamento doméstico, onde o "lucro líquido" é o que sobra no final do mês após pagar todas as despesas. E se a conta for negativa, as dívidas começam a crescer. Para uma empresa a coisa não funciona exatamente assim, mas só atua na área ou estuda um pouco entende isso. O meu ponto é que não devemos usar dois pesos e duas medidas: nos anos de lucro alto esse número ser espalhado aos quatro ventos como medida de sucesso no ano, e nos anos de lucro magro ou prejuízo, adotar o discurso de que o resultado líquido não foi bom, mas os outros indicadores mostram solidez. Nos anos em que o lucro estava bombando, o fluxo de caixa seguia negativo, o endividamento aumentava, mas todos estavam empolgados com pagamentos de dividendos e participação nos lucros, ignorando os detalhes do balanço.

 
At 8:49 AM, Blogger Luiz Carlos R. Cruz said...

Excelente Artigo Paulo Metri!
Desde o título, como a formatação do texto - Adorei a brevidade, a objetividade, a ironia inteligente e o raciocínio nebuloso( lógica Fuzzy)...
Já o comentário dobalanço citado pelo Rogério está confuso.Antecipo q o Balanço do Bendine é falacioso e mal intencionado - Há controvérsias.Em tempo: Ente o Faloso eo Verdadeiro existe o talvez, assim como o 0 e 1 que a algebra booleana, nos acalenta...
Valeu paulo Metri!!!

 
At 8:50 AM, Blogger Luiz Carlos R. Cruz said...

Paulo MEtri:
Coloque seu blog nas outras mídias( Face/twitter), ok?
Abs do Luiz Carlos

 
At 1:14 PM, Blogger Leo said...

Caro Metri,

Fiquei muito feliz em vê-lo em ação, neste momento tão sombrio para todos nós... Apresso-me em me apresentar, pois guardo boas lembranças do tempo em que convivemos como colegas no grupo Nuclebras. Lá me chamavam de Leporace, lembra-se? Pois é, a vida nos separa duramente de muitas pessoas que nos fazem bem e, no sentido contrário, nos empurra para conviver com tantos que nada nos acrescentam. Mas a vida é assim e estamos aqui para vivê-la. Espero que esteja bem e que mantenha sempre sua atividade guerreira. Saiba que estamos no mesmo campo de batalha e, como você, não há como aumentar a indignação por tudo que está ocorrendo e que vem sendo, isso é evidente, maquiavelicamente elaborado há anos. Pararam o país para que pudessem subir ao poder! Enfim, deixo aqui um grande abraço e meu email, caso queira entrar em contato, pois será um grande prazer tê-lo mais ao "alcance", pois você, além de um grande interlocutor, sempre foi um bom amigo, atento e sempre disposto a ouvir e aconselhar os mais aflitos.

Sebastião Leporace
leporace@gmail.com

 

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