05 maio 2016

Dureza do mundo

Paulo Metri

Escrevo este texto para você que fica refestelado na sua poltrona vendo a novela ou o seriado atual, ou um filminho. Veja bem: não há crítica a estas escolhas, até porque, mesmo sem serem todas elas minhas opções, reconheço que cada um deve ter inteira liberdade para definir suas preferências. Mas, que o excesso de contemplação da telinha amofina, anestesia e engorda, é uma verdade. Além de lhe introduzir em um mundo virtual.

Então, para você não ficar alheio ao mundo das ocorrências majoritárias, para saber os dramas que afligem boa parte da população, de maneira asséptica, sem ter que andar por bairros lamacentos, subir ladeiras íngremes e sentir odores fétidos, escrevo este texto. É importante para o crescimento social que a dureza do mundo seja conhecida por todos, nem que seja só sua descrição.

Moradores de áreas carentes têm muito desejo de possuir uma casa decente em área menos degradada e, por isso, se inscrevem em programas da casa própria de diversos governos. O órgão de habitação do governo ou a Caixa Econômica Federal têm formulários de pesquisa socioeconômica para identificar os mais necessitados que devem ser atendidos prioritariamente.

Os resultados destas pesquisas são, muitas vezes, comunicados aos pretendentes, criando mais que esperança e, sim, a certeza do recebimento do imóvel. Próximo da época da entrega das chaves, altos escalões do governo retiram os cadastrados, que estão no alto da lista, e colocam militantes políticos ou os que pagam mais aos milicianos. Não há aqui crítica ao “Minha casa, minha vida”, sobre o qual não sei de nada. Esta situação me foi contada anos atrás.

Muitas crianças vêm ao mundo em lares completamente desintegrados, onde o pai e a mãe são alcóolatras ou drogados. Às vezes, a mãe é uma pessoa correta, mas não consegue se contrapor ao poder dos bandidos e dos policiais. A irresponsabilidade paterna campeia na pobreza. Crianças de tenra idade, apesar dos pais receberem o Bolsa família, só tomam mingau de água com maisena, porque o dinheiro do leite é usado para comprar cola. As crianças mais taludas participam do consumo familiar de cola, pois esta mata a fome e, assim, há a possibilidade de comprar cola em vez de comida.

A pobreza extrema embrutece. Ninguém se indigna, em locais de necessidade agressiva, com as mortes, os cadáveres e os casos insolúveis. Desta forma, os bandidos se sentem livres para ostentar a bandidagem. Os carentes, além de terem que conviver com a vala negra mal cheirosa, o aedes aegypti e demais vetores de transmissão de doenças, e as encostas derrapantes, têm que se submeter aos pedágios de bandidos, ao estrupo das mulheres e crianças, às portas arrombadas no meio da noite, ao barulho dos helicópteros voando baixo, à artilharia pesada, quando facções brigam ou a polícia briga com eles. Têm que ser inteligentes, para não serem revoltados e morrerem, mas têm que manter um mínimo de dignidade, senão irão sucumbir.

A ação do poder público, através de entidades com verbas reduzidas, é impotente para resolver o drama. Não conseguem resolvê-lo, pois, para tanto, altas classes teriam que abrir mão de benesses do Estado já entranhadas na vida nacional. Em parte, estes órgãos de atendimento dos mais carentes, sem a mínima possibilidade de tirá-los da zona de desespero, contribuem para a perpetuação da exploração de classes e contêm a divulgação da realidade. Abnegados conseguem, às vezes, lutar dentro destes órgãos impotentes e salvar uma ou outra criança, que é levada para adoção. O nosso povo, com índole forjada pelo sofrimento desde priscas eras, não consegue nem compreender o que lhe subtraem. Não consegue saber da injustiça que lhe impõem. Pensa simplesmente que deu azar na vida, o que não deixa de ser uma verdade, pois nasceu em um país com uma elite mesquinha, insensível e medíocre.

Temer irá concentrar o Bolsa família em só 5% dos mais pobres, cuja tradução é: deixar de atender 36 milhões de pessoas que hoje são atendidas. Temer é um comunista! Quer apressar a revolução no Brasil!

1 Comments:

At 10:34 AM, Blogger Nonato Menezes said...

Bom dia, Paulo!

Muito bom seu texto. Você faz uma leitura interessante e aponta para um aspecto que é até filosófico: "Quem tem o que comer, raramente se conforma em perder a comida". Creio que um hipotético governo Temer, se quiser retirar os benefícios sociais, fará lentamente, para que "a revolução" que você sugere não ocorra. A elite brasileira é perversa sob todos os aspectos e impor mais sofrimento às camadas pobres, lentamente, é fichinha.
Sobre a bandidagem que envolve a distribuição dos benefícios, relato uma experiência.
Vou sempre a Salvador. Lá conheci uma senhora, servente do condomínio onde costumo ficar. Numa conversa, fiquei sabendo das muitas dificuldades dela, inclusive sobre a moradia. Me disse que, há bastante tempo, havia preenchido formulário de inscrição do programa "Minha Casa. Minha vida". Num dos momentos eleitorais, um dos candidatos do bairro colheu inscrições de centenas de pessoas, com a promessa de viabilizar a entrega da moradia pretendida. O candidato não foi eleito e deixou todos "na mão", como de costume. Ouvi toda esta história e como estava em contato com uma agência da Caixa, por força de um negócio, pedi a ela o documento de inscrição e prometi verificar junto ao gerente o que poderia ser feito.
O que ouvi do gerente, de fato, eu não sabia. "Que a distribuição é feita pelo poder local, no caso, a Prefeitura". Ainda, segundo ele, a Prefeitura é quem coordena o processo de distribuição das moradias que o programa disponibiliza. À Caixa cabe operacionalizar o financiamento, apenas." Retornei com esta informação à senhora e o que ouvi dela: "sem chance. Não tenho ninguém conhecido na Prefeitura". É o nosso Brasil, caro Paulo.

 

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