23 março 2018

A mídia do capital prejudica a sociedade

Paulo Metri

O julgamento, em 22/3 último, da admissibilidade do habeas corpus impetrado pelos advogados do presidente Lula ao STF, foi esclarecedor para quem ainda tinha alguma dúvida sobre a assunção de posição política pela “mídia do capital”. Esta é composta pelos canais de TV abertos e alguns pagos, as rádios associadas, os principais jornalões e a quase totalidade das revistas semanais.

A repórter de determinado canal interrompia a programação à medida que cada juiz do Supremo acabava de proferir seu voto. Ao interromper, ela desfechava, de passagem, o veredito do canal, mais ou menos, da seguinte forma: “interrompemos para noticiar o julgamento do STF, que trata da possibilidade do presidente Lula já ser preso no próximo dia 26, quando os recursos apresentados por seus advogados serão julgados no TRF4”.

Eu diria que a repórter, por sinal, muito bonita, bem representava a esperança do canal que era a de poder transmitir o presidente Lula sendo preso. Isto é revelador, porque deixa claro que o canal não considera como valioso o princípio da “presunção da inocência”. Não seria de estranhar, se a repórter dissesse algo como: “O presidente Lula está querendo postergar a data da sua prisão, ao máximo, na tentativa que ocorra algum fato político, como um levante popular, que leve a justiça à situação em que, de alguma forma, ela permita a sua candidatura.

O princípio da “presunção da inocência” nos engradece como espécie, porque só iremos imputar a culpa a alguém depois da investigação ter terminado e não houver mais dúvida sobre a culpabilidade do réu. Se assim não for, estaremos usando a justiça para atingir objetivos políticos ou pessoais, o que é, em ambos os casos, deplorável. Pode ser argumentado que, no nosso código penal, existe a possibilidade de colocação de muitos recursos, o que posterga em demasia o “trânsito em julgado”. Então, que se atualize este código, mas, não se faça um by-pass no processo, para apressar o veredito final, estuprando o princípio da “presunção da inocência” e, por conseguinte, a Constituição.

Passado algum tempo, mudo de canal e paro em um no qual está falando um comentarista, que diz algo como: “A prisão logo após o término da segunda instância demorou muito mais anos sendo utilizada que a prisão só após o ‘trânsito em julgado’. Este só durou de 1988 até 2016.” Claramente, o canal em que ele trabalha está fazendo malabarismos para criticar a decisão do Supremo. Se o conceito expresso pelo comentarista fosse o definidor da atratividade da lei, a lei áurea deveria ser revista porque passamos mais tempo no Brasil tendo a escravidão que o período em que ela foi abolida.

Canais de mídia no Brasil têm opinião política, o que pode ser feito, desde que assumam sua posição e não busquem dizer que são isentos. Eles pensam que enganam seus leitores, ouvintes e espectadores, mas muitos deles entendem as artimanhas que são feitas. Está de parabéns a “Carta Capital” que tem partido e o declara abertamente. De qualquer forma, algumas pessoas com baixo nível de conscientização política embarcam, infelizmente, na ficção que a mídia do capital conta.

0 Comments:

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home