09 abril 2018

Dissertação sobre roubos

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia

Muitas pessoas ficam estarrecidas, com razão, com o roubo no setor público. No entanto, existem roubos, tão ou mais estarrecedores, nunca denunciados pela mídia e, como consequência, não conscientizados pelo público. Tratam-se dos “roubos legalizados”, por serem instituídos por lei.
Um primeiro exemplo dos “roubos legalizados” é o ato de um governante não tomar as providências para poder cortar os juros da dívida e, em compensação, fazer cortes na educação e na saúde, significando um roubo no bem-estar social. Mas, este governante não está fazendo nenhuma ilegalidade. Chega-se, assim, à triste conclusão que o nosso arcabouço legal permite a tomada de decisões antissociais. A população mais carente é a que mais sofre com estes cortes.
Outro exemplo dos “roubos legalizados” é o fato que a classe rica paga menos tributos, percentualmente, que a classe pobre, caracterizando um roubo aos menos afortunados.
O Congresso Nacional aprovou, recentemente, o perdão da dívida dos ruralistas. Se estas fossem pagas, mais recursos estariam disponíveis para educação e saúde. Enfim, este perdão de dívida representou um “roubo legalizado” de verbas que beneficiariam os mais carentes.
Ainda na linha de poderes que renunciam a receitas garantidas da sociedade, o presidente da República concedeu isenções tributárias para as petrolíferas estrangeiras totalizando um trilhão de reais em 25 anos. Certamente, o produto deste “roubo legalizado” fará muita falta para os programas sociais.
Desta forma, a mídia só divulga os “roubos fichinhas”, basicamente de servidores do Estado de não tão alta hierarquia, ligados a políticos. Estes roubos são também recrimináveis, mas de grau de importância inferior. Os “roubos superiores” são ligados a fortes grupos econômicos e políticos, controladores da nossa mídia tradicional e, por isso, a sociedade nunca é informada sobre eles.
Roubos como o que ocorreu na Petrobras sempre existiram e existirão com maior ou menor intensidade, quer seja um governo de direita ou de esquerda. Os governos devem tomar medidas de prevenção para estes roubos menores, que diminuirão a sua intensidade, mas nunca serão extintos por completo. Por outro lado, deve-se buscar combater os “roubos superiores”, com o máximo rigor, apesar da grande blindagem deles, pois os prejuízos para a sociedade são imensos.
Grupos econômicos e políticos, a mídia e uma ala corrompida do Estado, em cínica ironia, aproveitam o forte apelo emocional do combate à corrupção para eleger seus candidatos com discursos anticorrupção, sendo, a maioria deles, corruptos. Em 1954, Getúlio era o presidente. Estas forças, encabeçadas por Carlos Lacerda, o acusavam de forma impiedosa de inundar a administração pública com um “mar de lama”. Quando, na realidade, Getúlio combatia os grandes roubos à nossa sociedade, descritos por ele próprio, em sua carta testamento, na citação às “aves de rapina”.
Em 1960, foi eleito como presidente Jânio Quadros com a promessa de “varrer a corrupção” da política nacional. Em 1989, Collor elegeu-se presidente com o discurso da “caça aos marajás”, quando, tempos depois, ele veio a perder seu mandato por corrupção. Este tema recorrente serve, agora, para afastar Lula da política nacional, sem nenhuma prova que o vincule a algum roubo.
Enquanto isso, estas forças se preparam para lançar candidatos a presidente que irão permitir os grandes roubos acontecerem, como as privatizações da Eletrobras, Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica, a venda de blocos do Pré-Sal por preços irrisórios e vendas de fatias do patrimônio da Petrobras na bacia das almas, o que compõe também algumas das ações atuais do “roubo legalizado”.
Finalizando, notar que todos os que, para chegar ao poder, prometem limpar o “varejo da corrupção”, na realidade, irão apoiar o “atacado da corrupção” e, além disso, eles não têm um projeto de nação soberana para o Brasil e não querem a inclusão social.