17 março 2019

Estratégias norte-americanas

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia e do CREA-RJ

A hegemonia dos Estados Unidos da América (EUA) em relação aos demais países, nas últimas três décadas, foi construída por ações que começaram em passado distante. Ênfase na soberania para a formação desta hegemonia é encontrada, inclusive, em afirmações dos próprios pais fundadores.
Como esta posição é conquistada através de iniciativas em diversas áreas, como a econômica, a educacional, a tecnológica, a política, a diplomática e a militar, além de firme posição política de busca da liderança, e como as iniciativas soberanas da Rússia e da China estão em ascensão, poderá ocorrer que a hegemonia estadunidense será ameaçada no futuro. Aliás, a hegemonia dos EUA foi conquistada com o deslocamento da hegemonia inglesa, que prevaleceu até a segunda grande guerra.
A Doutrina Monroe, lançada pelo presidente norte americano James Monroe em 1823, pregava que o continente americano não deveria aceitar mais nenhum tipo de intromissão europeia sobre quaisquer pretextos. Foi um ato contra o colonialismo, resumido na frase: “A América para os americanos”.
A Doutrina Carter, formulada pelo Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, durante o governo Jimmy Carter, Zbigniew Brzezinski, é descrita da seguinte forma pelo próprio Conselheiro: “Que a nossa posição seja absolutamente clara: Uma tentativa de qualquer força externa para controlar a região do Golfo Pérsico será interpretada como um assalto aos interesses vitais dos Estados Unidos da América, e tal assalto será repelido através de qualquer meio disponível, inclusive a força militar”. [1]
Um dos principais objetivos da estratégia militar do governo dos EUA, em 1991/1992, segundo o General Colin Powell, Secretário de Estado do governo George W. Bush era: “evitar o surgimento de potências regionais ou globais, que possam rivalizar com os EUA e se colocar contra a existência de uma ordem mundial unipolar, conquistada pela supremacia militar dos EUA.” [2]
Esta tese é ratificada e complementada pela cientista social Ana Esther Ceceña do Instituto de Investigaciones Económicas do México, que afirma, após pesquisar em documentos do Department of Defense (DoD) americano: “os interesses vitais dos Estados Unidos, em torno dos quais se organiza toda sua atividade militar, compreendem:
1.      Proteger a soberania, o território e a população dos Estados Unidos;
  1. Evitar a emergência de hegemones ou coalizões regionais hostis;
  2. Assegurar o acesso incondicional aos mercados decisivos, ao fornecimento de energia e aos recursos estratégicos;
  3. Dissuadir e, se necessário, derrotar qualquer agressão contra os Estados Unidos ou seus aliados;
  4. Garantir a liberdade dos mares, vias de tráfego aéreo e espacial e a segurança das linhas vitais de comunicação.” [3]
Existem os objetivos regionais da estratégia militar dos EUA: “Impedir a formação de qualquer força militar europeia fora da OTAN; impedir uma nova militarização do Japão e da Rússia; restringir a capacidade das forças militares na América Latina à sua autodefesa, à contenção do narcotráfico, à assistência a catástrofes e à manutenção da paz internacional.” [2] Além destes objetivos regionais, existem também os seguintes: “Controlar o acesso a fontes de recursos estratégicos, especialmente os energéticos, e suas rotas comerciais, principalmente as marítimas, com a finalidade de negar o acesso a rivais, revelados ou potenciais, e manter seu ‘poder de barganha’ sobre os aliados, ao assumir o papel de garantidor do seu abastecimento.” [2]
Desta forma, os Estados Unidos têm, como já foi dito, um projeto de poder mundial, que visa satisfazer os seus grupos econômicos, a sua sociedade e ao capitalismo internacional, com efeitos previsíveis nos demais países. Busca, entretanto, não afrontar aliados, nem a opinião pública mundial.
Não procuro provar a essencialidade do petróleo, pois este fato é, hoje, incontestável. Porém, quero citar Daniel Yergin, especialista em energia e autor consagrado, que escreveu sobre esta questão de forma quase poética: “E, entre todas as fontes de energia, o petróleo vem se mostrando a maior e a mais problemática devido ao seu papel central, ao seu caráter estratégico, à sua distribuição geográfica, ao padrão recorrente de crise em seu fornecimento – e à inevitável e irresistível tentação de tomar posse de suas recompensas (...). Ele tem abastecido, ainda, as lutas globais por supremacia política e econômica. Muito sangue tem sido derramado em seu nome. A feroz e, muitas vezes, violenta busca pelo petróleo – e pela riqueza e poder inerentes a ele – irão continuar com certeza enquanto ele ocupar essa posição central. [4]
A partir destes fatos, são bem compreendidas as ações do governo norte americano, quer seja uma administração democrata ou uma republicana. A estratégia citada anteriormente: Assegurar o acesso incondicional (...) ao fornecimento de energia (...)” explica as invasões do Iraque, da Líbia e outras, inclusive a recente tentativa de invadir a Venezuela. Assim, o Pré-Sal brasileiro coloca o nosso país na lista dos “fornecedores prioritários” dos Estados Unidos.
Os objetivos da estratégia militar dos Estados Unidos são claramente explicitados pelo General de Divisão Smedley Butler do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, altamente condecorado e autor do livro “Guerra é uma extorsão”, onde descreve o complexo militar-industrial existente nos EUA. Em 1933, Butler proferiu o discurso “Intervencionismo”, do qual seguem trechos (sem mudar o sentido das afirmações): “Guerra é exatamente uma extorsão. (...) Somente um pequeno grupo que está dentro sabe o que significa. Ela é conduzida para o benefício de muito poucos à custa das massas. (...) Eu não iria para a guerra de novo, como eu fui, para proteger algum investimento nojento dos banqueiros. (...) Eu passei trinta e três anos e quatro meses no serviço militar ativo. (...) E durante este período, eu passei a maior parte do meu tempo sendo um homem músculo de alta classe para o Grande Negócio, para Wall Street e para os banqueiros. Resumidamente, eu era um extorsionário, um gangster para o capitalismo. (...) O registro de extorsões é grande. (...) Olhando para trás neste ponto, eu sinto que eu poderia ter dado a Al Capone umas poucas sugestões. O melhor que ele pôde fazer foi operar as suas extorsões em três distritos. Eu operei em três continentes.” [5]
Padula descreve posições geopolíticas dos Estados Unidos, propostas por alguns estrategistas, e os principais conteúdos de documentos estratégicos oficiais deste país, de diferentes épocas. [1] Busco identificar os argumentos que embasam os objetivos estadunidenses depois deste país galgar a posição de hegemon, com o debacle da União Soviética. Para tal, análises são necessárias.
Os Estados Unidos continuam com forte influência em entidades multilaterais, como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, a Organização Mundial do Comércio e a própria ONU. Possuem a moeda que lhes permite o endividamento sem limite. Têm o controle da OTAN, que hoje pode atuar em qualquer lugar do planeta. Suas Forças Armadas são as mais letais e as mais bem equipadas. Seu sistema de pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico e inovação responde aos desafios de aumento de competitividade da sua economia para continuar atuando no mundo globalizado e de aumento da satisfação da sua sociedade.
Capitais ancorados basicamente nos Estados Unidos possuem influência em grupos midiáticos de diversos países. Todas as agências de notícias do mundo ocidental recebem influências do capital internacional. O poder da manipulação das informações é tão dominador quanto o das Forças Armadas.  Os Estados Unidos, ou o capital que nele reside, têm recursos suficientes para corromper, através dos órgãos de inteligência, políticos, juízes, servidores públicos, enfim, lideranças dos países a serem dominados. Suas empresas privadas atuam no mundo afora como recolhedoras de lucros dos mercados alheios e como dilapidadoras dos recursos naturais dos outros países.
Assim, as Forças Armadas dos Estados Unidos elegeram combater, neste novo mundo em que eles lideram isoladamente, o narcotráfico, a proliferação de armas nucleares, a degradação ambiental, o terrorismo, ditaduras, Estados violadores de direitos humanos e Estados fracos que permitem a ocorrência dos crimes citados. Não discordo do elenco de dramas existentes. Tenho dúvida que eles sejam as verdadeiras razões para diversas agressões. Além disso, existem contradições nestes objetivos, porque, por exemplo, há uma ditadura na Arábia Saudita, que nunca é lembrada. Com este conjunto de dramas a combater, é permitido aos Estados Unidos desembarcar suas Forças Armadas em qualquer ponto do planeta. Se existir alguma dificuldade para a justificativa, uma fake news, como “a produção de armas de destruição em massa”, pode ser providenciada.
Os Estados Unidos atingiram a perfeição no processo de dominação, porque não precisam mais invadir militarmente um país. Basta financiar nacionais dos países a serem espoliados, que passam a ser seus prepostos, vendilhões da pátria e traidores dos seus irmãos. Fornecer a eles apoio diplomático, mercadológico e midiático. Comprar políticos, juízes e demais lideranças da sociedade, que, ao fim e ao cabo, o butim ocorrerá.

[1] Padula, Raphael, capítulo “A geopolítica estadunidense e a Eurásia” do livro “Sobre a guerra”, organizado pelo Professor José Luís Fiori, Editora Vozes, página 343, 2018.
[2] Padula, Raphael, palestra “A Geopolítica do Petróleo e a Conjuntura Internacional”, proferida no Clube de Engenharia, 2018.
[3] Ceceña, Ana Esther, artigo “Estratégias de dominação e mapas de construção da hegemonia mundial”, II Fórum Social Mundial (FSM), 2002.
[4] Yergin, Daniel, livro “O petróleo, uma história de ganância, dinheiro e poder”, 2010.
[5] Jornal Hora do Povo, 12/01/2007,  http://www.horadopovo.com.br/2007/janeiro/12-01-07/pag5a.htm

19 fevereiro 2019

Militares brasileiros

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia e do CREA-RJ

No início do século passado, o Exercito brasileiro, visando a sua modernização, mandou tenentes e capitães fazerem estágio no Exército Imperial Alemão. Assim, foram enviadas três turmas de brasileiros, em 1905, 1908 e 1910. Estes jovens oficiais, ao voltarem, receberam a alcunha de “jovens turcos”, porque militares turcos, que tinham feito o mesmo estágio no Exército Alemão, ao chegarem ao seu país, fizeram um movimento de oposição ao sultanato, que acabou por resultar na proclamação da República em 1923. Nossos estagiários, ao retornarem, buscaram introduzir conceitos lá adquiridos. Todos carregavam o sentimento de brasilidade, pois queriam fazer algo pelo Brasil e pelo povo brasileiro. [1]
Três deles: Bertoldo Klinger, Estêvão Leitão de Carvalho e César Augusto Parga Rodrigues foram os idealizadores da revista “A Defesa Nacional” de teor técnico e militar, capaz de contribuir para a formação do oficialato brasileiro. Ela realmente influenciou gerações do nosso Exército, inclusive sob o ponto de vista político. O objetivo e a orientação dos fundadores desta revista era o de “lutar pelo soerguimento do Exército, pela defesa nacional, pelo desenvolvimento do país e pela formação de uma nação moderna e militarizada, nos moldes das nações europeias, em especial a Alemanha.” [1]
Na primeira metade do século passado, o Coronel Mario Travassos e o General Pedro Aurélio de Góis Monteiro se projetaram como formuladores de propostas para o Exército brasileiro. O Coronel Mario Travassos, aplicando ensinamentos geopolíticos em suas análises, conseguiu influenciar os seus pares. Ele foi colaborador da revista “A Defesa Nacional” desde a sua fundação, chegando ao posto de Redator–Secretário. [2]
O General Góis Monteiro formou uma visão racional sobre o sistema internacional e considerou essa visão como central para o entendimento da participação do Exército na política nacional. Para ele, a paz universal é um mito. A preocupação com a defesa e a preparação para a guerra dominam o modo como as nações conduzem a política exterior, o que, inclusive, orienta a diplomacia. A guerra e a preparação para ela não são resultado apenas das preocupações de defesa das potências, mas também do expansionismo inato delas[1]. [2]
Para o General Góis Monteiro, o intervalo entre os conflitos armados passou a ser dominado pelas lutas intestinas, que visam bloquear as iniciativas da nação com o objetivo de se organizar e se fortalecer e, assim, deixá-la à mercê do imperialismo. [2]
O General Júlio Caetano Horta Barbosa, Presidente do Conselho Nacional do Petróleo, em conferência no Clube Militar, no dia 30 de julho de 1947, disse: “Pesquisa, lavra e refinação (de petróleo), constituem as partes de um todo, cuja posse assegura poder econômico e poder político. Petróleo é bem de uso coletivo, criador de riqueza. Não é admissível conferir a terceiros o exercício de uma atividade que se confunde com a própria soberania nacional. Só o Estado tem qualidades para explorá-lo, em nome e no interesse dos mais altos ideais de um Povo.” [3]
O General Júlio Caetano Horta Barbosa, Presidente do Conselho Nacional do Petróleo, em conferência no Clube Militar, no dia 6 de agosto de 1947, disse: “A Política do petróleo adotada pelo Brasil orientou-se no sentido de satisfazer do melhor modo aos imperativos da defesa nacional – militar e econômica. A legislação correspondente foi reclamada, em fevereiro de 1938, pelo Estado Maior do Exército, chefiado pelo General Pedro Aurélio de Góes Monteiro, sob a alegação da necessidade de salvaguardar nossa soberania. Propôs o órgão militar a nacionalização da indústria do óleo cru, ou o seu monopólio pelo Estado.” [3]
O General Raimundo Sampaio, em artigo na publicação “Emancipação” de 2/2/1949, escreveu: “Nesta ordem de ideias, objetivando a proteção geral de nossos recursos naturais, parece oportuno, que ao lado da campanha em curso, da defesa do petróleo, seja empreendida, desde já, uma ação sistemática no sentido de preservar do perigo de exaustão não só as jazidas de minérios radioativos em geral, como, principalmente, as dos minérios uraníferos e toríferos, cuja exportação sem o mínimo controle técnico se vem realizando, com ampla liberdade, já há vários anos.” [3]
O General José Pessoa, Comandante da Escola Militar do Realengo, disse: “É crime de lesa-Pátria, um atentado e uma ameaça à existência nacional, diante dos exemplos desastrosos de outros países, entregar aos trustes[2] estrangeiros a exploração e o aproveitamento da riqueza petrolífera do Brasil.” [3]
O General Arthur Carnaúba, Presidente da Associação Brasileira de Defesa dos Direitos do Homem, em artigo intitulado “Em Defesa da Liberdade”, escreveu: “Defendamos os princípios liberais da nossa carta política, que são os mesmos que figuram na ‘Declaração Universal dos Direitos do Homem’, adotada e proclamada, em dez de dezembro de 1948, pela Assembleia Geral das Nações Unidas!” [4]
O General Felicíssimo Cardoso, Diretor de “Emancipação” e Presidente do Centro de Estudos e Defesa do Petróleo e da Economia Nacional (CEDPEN), escreveu no Prefácio do caderno “Emancipação” de 1952:  No conjunto dos esforços patrióticos pela independência econômica e política do Brasil constituem fator de primeira grandeza as lutas populares contra os trustes imperialistas. O desejo destes é de que nos perpetuemos na condição de semi-colônia, fornecedora de matérias primas a preços baixos e importadora de produtos manufaturados. A vontade do povo, ao contrário, é de que sejamos uma nação verdadeiramente livre, com seu completo parque de indústrias pesadas, seu amplo mercado interno e a terra em mãos dos que realmente nela trabalham.” [4]
O General Leônidas Cardoso, Presidente do Centro Paulista de Defesa do Petróleo, escreveu para a revista “Emancipação”: “Como se vê, a preservação de nossas riquezas estratégicas está intimamente ligada à conquista de nossa independência econômica e ao nosso progresso. Ora, a defesa nacional, a segurança nacional só são possíveis quando há independência econômica, quando há florescimento da economia do país – pois sem indústria nacional não há defesa nacional. (...) O problema das areias monazíticas e demais minerais radioativos e estratégicos é o problema da espoliação de nossas riquezas por alguns consórcios internacionais – os quais atentam contra nossa independência econômica, contra o nosso progresso e contra a defesa nacional, que é nossa missão sagrada de soldados defender.” [4]
Em meados do século passado, era sabido que o Brasil tinha reservas de urânio e tório. Assim, já gerava a cobiça de outros países, tanto que os Estados Unidos (EUA) propuseram à Organização das Nações Unidas (ONU) o Plano Baruch, que previa a internacionalização de minérios radioativos, que ficariam sob a guarda de um organismo da mesma ONU, sobre o qual os EUA tinham ascendência. O nosso representante na Comissão de Energia Atômica desta Organização, o Almirante Álvaro Alberto, ao se contrapor a esta proposta lançou em nome do Brasil a tese das “compensações específicas”, através da qual os minerais radioativos não seriam comercializados através de dinheiro e, sim, com a oferta de compensação, a qual poderia ser, por exemplo, a cessão de tecnologia pelo comprador. A proposta não foi aceita, mas o Plano Baruch também foi arquivado. [5]
O setor nuclear, em muitas situações, suscitou sentimentos de soberania dos nossos governantes. Em 1954, no pós-guerra, o mesmo Almirante Álvaro Alberto mandou fabricar na Alemanha, visando a importação, três centrífugas para enriquecimento de urânio. Este intento foi barrado pela inteligência estadunidense, mas ficou claro o esforço para o Brasil ter uma tecnologia primordial para poder ter navios e submarinos com a propulsão nuclear. [5]
O Brigadeiro Francisco Teixeira tinha as qualidades ideais que um militar deve ter, como compromisso com o desenvolvimento do país, o nacionalismo, a legalidade, a democracia e, dentro da agremiação militar, um comportamento exemplar. Seu compromisso com a legalidade e a democracia o levou a ser perseguido pelos membros do golpe militar de 1964.
Sobre o Marechal-do-Ar Casimiro Montenegro Filho, não é necessário escrever muito. Basta somente dizer que ele idealizou e criou o Instituto Tecnológico de Aeronáutica - ITA e o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial – DCTA. Chegou a idealizar também a Empresa Brasileira de Aeronáutica – Embraer. A importância destas realizações é suficiente para credenciá-lo como benfeitor da nossa sociedade. Entretanto, a sua competência e obstinação pela realização e a sua visão não acanhada, do tamanho esperado para o Brasil, o elevam à condição de grande estrategista e realizador.
Obviamente, existiram outros militares que lutaram pela melhoria do bem estar do nosso povo, pela democracia, por um Brasil soberano e demais causas nobres. Tenho em minha defesa o fato deste texto querer mostrar, em caráter de exemplo, que existiram grandes homens, verdadeiros heróis nacionais, dentre nossos militares, sem precisar ser exaustivo. Orgulho-me em poder dizer que tivemos estes militares no nosso país. 

Fontes:

[2] Vieira, Ricardo, dissertação de Mestrado “LEMBRAI-VOS DA GUERRA: Ameaça Geopolítica, Organização do Estado e Desenvolvimento Econômico no Pensamento Militar Brasileiro (1913 – 1964)”, apresentada ao Programa de Pós-graduação em Economia Política Internacional – PEPI da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, 2013.
[3] Miranda, Maria Augusta Tibiriçá, livro “O Petróleo é Nosso”, editora Ipsis, 2004.
[4] Cadernos de “Emancipação”, número 1, “Libertação Econômica”, 1952.
[5] Metri, Paulo, palestra “Vocação nuclear do Brasil, seus avanços e seus gargalos”, proferida em seminário do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento, em agosto de 2018.



[1] Esta afirmação é questionável, pois nega a possibilidade de um país ter Forças Armadas bem equipadas tecnologicamente e treinadas, sem ter intenções expansionistas.
[2] A palavra “truste”, pelo dicionário Priberam, equivale a “agrupamento de empresas para dominar o mercado e diminuir a concorrência”. Nos dias atuais, para este significado, é usada a palavra “cartel”.

06 fevereiro 2019

Caos

Paulo Metri

Subitamente, passei a sonhar com a Terra se desgarrando do sistema solar e caminhando para o espaço profundo do gigantesco universo. O frio devido ao distanciamento do sol atingia mais meu espírito do que meu corpo. Nenhum dos seres vivos, que povoam a Terra hoje, cujas existências são consequência de evoluções que demoraram milênios para chegar ao estágio atual, irá sobreviver. A sensação era de angustia e o desespero me levava a querer ficar com a família em volta.
A energia nuclear e os combustíveis fósseis, com suas enormes capacidades de gerar calor, não poderiam ajudar a salvar a humanidade, pois não só as reservas destas fontes são limitadas como também a prospecção e a mineração em condições extremamente inóspitas nunca foram nem pensadas. Nossa Terra, sem o calor de uma estrela, passaria a ser mais um corpo celeste inabitado no universo.
Acordava assustado ainda sem saber o que fazer, mas, da última vez, veio um clarão de lucidez, que me permitiu a volta da tranquilidade, pois lembrei: “graças a Deus e a Newton, isto não irá acontecer”. Mais uma vez, a humanidade e, neste caso, eu especificamente, éramos salvos pela ciência. A partir daí, nunca mais tive este sonho.
Nestes últimos dias, a conversa com um amigo era sobre a visão da escola de Chicago sobre a Economia, mas evoluiu para o fato de, nesta área de conhecimento, não existirem conceitos e interpretações determinísticas, havendo a influência de considerações políticas e sociais.  Portanto, existem diversas correntes racionais, deixando para o cidadão a escolha, no menu de teorias econômicas, a que melhor satisfaz o objetivo imaginado por ele, a ser atingido. Por isso, os decibéis quando se discute Economia são tão altos.
Neste ponto, meu amigo me premiou com esta frase. “Têm sistemas que pensamos serem determinísticos, mas, hoje, acredita-se que podem ocorrer neles, instabilidades. Na virada do século XIX para o XX, foi lançado na comunidade científica o desafio representado pela pergunta: ‘o sistema solar é estável?’ Sumarizando tudo que ocorreu até hoje, chegou-se à conclusão que, no período de um bilhão de anos, pode ocorrer, sim, uma instabilidade no sistema solar.” Perplexo, ainda perguntei: “Instabilidade? Como instabilidade?” Sua resposta não poderia acertar melhor a mosca: “Por exemplo, a Terra sair vagando pelo universo e não mais orbitar em torno do sol.
Ele atingiu o centro nefrálgico do medo. Vendo que o sangue tinha sumido da minha face, meu amigo disse: “Não se preocupe. Isto só vai acontecer em um intervalo gigantesco. Não vai acontecer agora.” Minha resposta, que o deixou calado, foi: “Agradeço muito seu interesse em me tranquilizar, mas o momento presente é parte do macro período de um bilhão de anos, então pode acontecer agora.
Sei que é paranoia minha, pois conheço o significado de probabilidade. Por isso, fui levado a pensar que estou muito assustado por evento de baixíssima probabilidade. Por que? Meu estado emocional mostra mais desequilíbrio que o sistema solar. Por que? Chego à conclusão que o fato principal é saber que valores e verdades mínimos para a espécie ser considerada humana, foram vilipendiados, sem constrangimentos. Se já não há mais resquícios de nobreza na espécie, viver só para ver o tempo passar? 

Conquistas da humanidade

Paulo Metri

O embrião da forma democrática de governo surgiu em Atenas no século V a. C. Não se tratava da democracia com o conceito de “um ser humano, um voto”, pois as mulheres e os escravos não podiam participar. Aliás, nos dias atuais, ainda há críticas a este conceito de democracia. Contudo, os gregos tiveram o mérito de tentar cercear o poder absoluto do líder, conquistado pela astúcia e força bruta, que se transformava, na maioria dos casos, em um déspota bárbaro. Outras instâncias de poder criadas moderavam o poder absoluto.
Os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade da Revolução Francesa vieram, a partir de 1789, para modificar a organização social e política do Ocidente. Começou com a sociedade francesa, que passou por uma transformação gigantesca, com a perda de privilégio dos aristocratas e religiosos, que foram despojados, em grande parte, do seu poder e riqueza, por ataques de grupos políticos, das massas nas cidades e de camponeses. Esta revolução talvez tenha proporcionado um dos maiores avanços da condição humana da nossa espécie.
Os Pais Fundadores dos Estados Unidos da América defenderam o direito de um povo ter a liberdade de constituir sua nação e de buscar o seu crescimento. Com isso, opuseram-se à dominação de povos por outros povos, ou seja, opuseram-se à colonização. Estes Fundadores, dos quais os mais conhecidos são Thomas Jefferson, Benjamin Franklin, George Washington e Alexander Hamilton, assinaram a Declaração de Independência em 1776 ou participaram da luta contra a dominação inglesa. Este movimento libertário de oposição à dominação colonial inspirou outras colônias a lutarem contra os impérios.
Joaquim José da Silva Xavier tirava dentes, mas implantava sementes de brasilidade no coração de brasileiros. Todo movimento libertário é contra a dominação que diminui a liberdade dos colonizados. Assim, a brasilidade pode ser entendida como o movimento pela reconquista do que pertence aos brasileiros e está sendo usurpado deles. Como é comum aos libertários que confrontam impérios, Tiradentes foi assassinado em 1792, pela forca.
Simon Bolívar foi o libertário que mais descravizou povos da América Latina do jugo da Coroa Espanhola. Entre 1816 e 1826, liderou os povos da Bolívia, da Colômbia, do Equador, do Panamá, do Peru e da Venezuela à independência, e ajudou a lançar nestes países estruturas governamentais de bases democráticas.
Durante a revolução industrial na Inglaterra, no século XVIII, trabalhadores das indústrias têxteis, iniciaram ações de amparo aos mais necessitados, inclusive aos desempregados, e aceitaram eleger lideranças para representá-los em negociações com os patrões. Foram iniciadas, assim, as atividades dos sindicatos, que, com toda a imperfeição do modelo de representatividade, já ajudou enormemente os trabalhadores na luta contra a ganância de alguns dos representantes do capital.
Marx e Engels lançaram em 1848 o “Manifesto comunista” e, em 1867, Marx lançou o primeiro livro de “O Capital”, que se trata da melhor crítica ao capitalismo escrita até hoje. A única luta por mais liberdade que é prejudicial à sociedade é aquela pela liberdade econômica, pois ela representa, na verdade, a expansão do direito do dono do capital de explorar a sociedade.
Mahatma Ghandi foi o idealizador e fundador do moderno Estado indiano e o maior defensor do princípio Satyagraha de não agressão ou uma forma não violenta de fazer revolução, baseada principalmente no uso da desobediência civil da massa. O primeiro uso deste princípio ocorreu em setembro de 1906. Enfim, através da sua liderança, Ghandi retirou a Índia da dominação colonial inglesa.
A Revolução Russa de 1917 mostrou que um novo modelo de organização política e social era possível. Teve imenso sucesso nos anos iniciais, mas os germes humanos da ganância por dinheiro e poder atuaram, comprometendo o projeto. Eventualmente, o ser humano ainda não está preparado para o socialismo.
Quando regimes fascistas afloraram na Europa nas décadas de 30 e 40 do século passado, forças antifascistas uniram-se para evitar a involução da sociedade. Foi, então, que ocorreu uma das maiores vitórias libertárias da humanidade, aquela protagonizada pelos Aliados ao derrotarem o nazismo. Infelizmente, o fascismo demorou bem mais tempo em Portugal e Espanha, fazendo sofrer seus povos.
O documento mais lindo da luta por igualdade, fraternidade e liberdade, no meu julgamento, é a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Aprovada em 1948, mostra muito daquilo que o fascismo, o autoritarismo, o capitalismo exacerbado, o liberalismo econômico, a experiência comunista do século passado e alguma eventual alternativa de organização política e social esquecida, não garantem aos humanos.
Várias outras foram e são as lutas libertárias, como a das sufragistas, a do movimento pelos direitos dos negros, a do combate à homofobia, a do movimento dos sem terra, a dos ambientalistas, entre inúmeras outras. Tantas são estas lutas que a história da humanidade pode ser descrita como a das suas lutas. Por outro lado, não é por falta de lutas que os humanos podem ficar enfadados de viver.
O homo sapiens está na face da Terra há cerca de 300.000 anos. Pode-se dizer que o “período de atividade generosa” de alguns membros de cada geração dura em média 25 anos. Obviamente, alguns passam bem mais que este tempo lutando contra arbitrariedades. Por outro lado, no início do desenvolvimento da espécie, não existiam questões político sociais a serem resolvidas. Também, fora do período inicial, existiam estas questões, mas nem todos os humanos buscavam resolvê-las. Por fim, tiro do bolso do colete o número médio de 100 pensadores dentro de cada geração, durante 300.000 anos, constantemente buscando resolver as questões político sociais.
Então, já ocorreram em torno de 1.200.000 períodos (de 25 anos cada) de contribuição dos nossos semelhantes para a “melhoria da humanidade”. Gigantesco patrimônio humanístico, conquistado com muita luta e sofrimento, recebido de heróis e povos heroicos de diversas épocas e localidades corre o risco de ser revertido, em um brusco movimento mundial obscurantista.

Na lama de Brumadinho

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia e do CREA-RJ

Mais uma vez, o debate sobre um acidente está ocorrendo confuso, com cada técnico, político, servidor público e cidadão buscando relatar suas teses e conclusões. Entretanto, os grandes interesses continuam camuflados e preservados até o próximo acidente, quando voltarão a correr o risco de serem descobertos.
Descrevendo um pouco da confusão, prendem-se técnicos, deixando a grande dúvida: se eles são corruptos, quem são os corruptores? Algumas informações técnicas explicam a irracionalidade de decisões do passado. Vem à tona a parcela expressiva da população que mora próximo de barragens inseguras. Descobre-se que a Vale ainda não pagou multas relativas ao crime de Mariana.
A esperança por sobreviventes é sempre depositada, em toda desgraça, nos bombeiros, os profissionais da solidariedade. Punir os responsáveis é justo e esperado pela sociedade, mas é preciso identificá-los corretamente, inclusive os poderosos. A mídia, como sempre, não está sendo isenta, pois esta pertence ao capital e os interesses inconfessáveis dele têm que ser preservados. Assim, a comunicação fica truncada. Bodes expiatórios, que podem até ter alguma responsabilidade, são noticiados com estardalhaço.
Tentando racionalizar a questão, a identificação do problema, com a visão da sociedade, é primordial e consiste no primeiro passo para a real solução. Desta forma, a pergunta inicial que se deve fazer para poder identificar o problema é: “o que se deve exigir de uma mineradora que explora determinada jazida concedida pelo Estado?” Estou querendo incluir na análise da questão, a identificação de um eventual erro genético do modelo utilizado, que, se não for sanado, os crimes desastrosos se repetirão.
Respondendo à pergunta feita, são geradas as seguintes exigências para as mineradoras poderem atuar:
(1)   A mineradora deve ter capacidade de investimento para poder alocar recursos no empreendimento.
(2)   A mineradora deve receber receitas, com a atividade econômica, que permita remunerar seus trabalhadores, pagar os demais custos, despesas e impostos, realizar os reinvestimentos e dar dividendos aos acionistas.
(3)   A mineradora deve utilizar projetos de engenharia e técnicos locais, assim como a mão de obra do país.
(4)   A mineradora deve fomentar o desenvolvimento tecnológico nacional.
(5)   A mineradora deve buscar exportar somente produtos com o máximo de valor agregado, assim como importar o mínimo de materiais e equipamentos do exterior, contribuindo para a melhoria da balança comercial brasileira.
(6)   A mineradora deve proteger ao máximo o meio ambiente e minorias étnicas próximas do seu local de atuação.
(7)   A mineradora deve recuperar ao máximo o dano ambiental mínimo e inevitável da sua atividade.
(8)   A mineradora deve cuidar da segurança de todos os seus funcionários e moradores da sua cercania.
(9)   A mineradora deve retribuir a aceitação da comunidade local, através de apoios de ordens diversas.
(10)           A mineradora tem um dever para com a sociedade brasileira, que não é compensado só com o pagamento de impostos, mas também, com o atendimento a todas essas exigências.
Evidentemente, as empresas privadas e as estatais têm formas de atuação diferentes em cada uma das “exigências para a mineradora”, por partirem de filosofias de atuação deferentes.
Entrando na esfera da subjetividade, alguns desempenhos dos agentes econômicos em determinadas exigências podem ser considerados como mais relevantes que os desempenhos em outras exigências. Dou, a seguir, a visão, que creio ser a da maioria: os desempenhos no “cuidado com o meio ambiente e minorias étnicas” e no “cuidado com os funcionários da empresa e vizinhos” são considerados mais relevantes que o desempenho na “capacidade de gerar receitas”.  Mesmo que argumentem que, com receitas insuficientes, os diversos usos destas estarão comprometidos.
Proponho que, em determinada exigência para a mineradora, se ocorre baixo desempenho do grupo empresarial detentor da concessão e se esta exigência for vital para a sociedade, o grupo terá a concessão subtraída pelo Estado. Exigências para as mineradoras com esta característica formam o conjunto de “exigências eliminatórias”. As exigências restantes formam o conjunto das “exigências classificatórias”, nas quais um baixo desempenho da empresa não a elimina, mas ela recebe um baixo grau, que serve para classificá-las.
Quanto à subjetividade, que é sempre colocada como um empecilho para a escolha das exigências eliminatórias, pode-se dizer que a aparente dificuldade é vencida quando há a aceitação das escolhas por grande parte da sociedade.
Neste ponto, coloco duas propostas de teses:
(1)   O “cuidado com o meio ambiente e minorias étnicas” e o “cuidado com os seus funcionários e vizinhos” são exigências eliminatórias para qualquer mineradora.
(2)   Entre uma empresa privada e uma estatal, ambas atuando na mineração, a estatal tende a cuidar melhor do meio ambiente, das minorias étnicas, dos funcionários e dos seus vizinhos que a empresa privada.
A razão óbvia que explica a segunda tese é que os citados cuidados requerem recursos que resultam, necessariamente, em menor lucro. Sabe-se que o grau de segurança das medidas de prevenção de danos ambientais e demais danos é variável e proporcional aos investimentos destinados à prevenção. Então, quando uma empresa diz que atende à exigência de minimização do impacto ao meio ambiente e dos demais impactos, ela está dizendo que atende a este objetivo no grau de segurança julgado por ela satisfatório.
Estatais, como não priorizam a obtenção de lucro acima de qualquer outro objetivo, têm maior possibilidade de gastar em prevenção dos acidentes ambientais.  Neste ponto, os neoliberais presentes sempre argumentam que as agências reguladoras e os órgãos de meio ambiente foram criados exatamente para garantir a segurança ambiental. Em governos progressistas, isto pode ser verdade. Mas, em governos conservadores, as agências e os órgãos ambientais têm a incumbência de aparentar proteger a sociedade, quando protegem, na verdade, os lucros. Por isso que o “mercado” busca influenciar, com o seu peso político, a escolha dos titulares da direção das agências reguladoras e dos órgãos ambientais.
Devido ao diferencial de cuidados com o que é nobre, a vida, entre a solução privada e a estatal, as duas teses mencionadas são verdadeiras. Também, as citadas exigências eliminatórias para as mineradoras existem em qualquer sociedade civilizada. Desta forma, a privatização da Vale não deveria ter ocorrido. Aliás, ela não deveria ter ocorrido por outras razões, também. Ela passou 55 anos como estatal e não provocou nenhum grande dano ambiental, como estes dois gigantescos do período em que é empresa privada. Notar que querer obter lucros altos não é proibido, nem errado. O erro ocorre quando o maior lucro é obtido com um mar de lama, onde estão sepultados seres humanos, animais, a esperança dos que se salvaram e onde reside a tristeza nacional.

19 setembro 2018

Por quê?

Paulo Metri

Por que nascem filhos sem pais?
Tristes os que dão vida por um fugaz, furtivo e esquecível momento.
Por que há fome, miséria e privação?
Tristes os que consomem e acumulam a mais valia usurpada de outros.
Por que alguém faz amor por dinheiro?
Tristes aqueles que doam o sexo ao não escolhido.
Mas, mais tristes os que compram o sexo alheio.
Por que o culto ao belo, se é desumano alguém nascer pouco dotado fisicamente?
Felizes aqueles que encontram o belo no invisível.
Por que alguns nascem mais inteligentes e espertos?
Deus ou a Natureza ou o Acaso queriam ver o fracasso e o sucesso?
Já que o conceito de beleza física é uma realidade gerada no ser ou transmitida, por que, novamente, Deus ou a Natureza ou o Acaso quiseram premiar uns e castigar outros?
Por que alguns são muito aquinhoados com dons e outros muito massacrados com defeitos?
Por que chamar as poucas opções que servem a uma pessoa de livre arbítrio?
Por que a ganância e a falsidade, se é tão mais simples ser fraterno e sincero?
Por que a insegurança e a carência fazem tantos sofrerem?
Por que “ganhar” sem a força de um ideal? Ou seja, por que emocionar para ludibriar?
Por que a luta pela sobrevivência, para muitos, é uma verdadeira grande guerra?
Nada temem os que nada têm, pois destes só a vida poderá ser suprimida e,
Se esta lhes for retirada, eles só deixarão de sofrer.
Por que os seres humanos tendem a não fazer outros sofrerem, só quando já sofreram também?
Bem aventurados os que, sem terem sofrido tanto, não geram sofrimento aos semelhantes.
Por que o acréscimo de produção devido a desenvolvimento tecnológico não é colocado à disposição dos mais carentes?
Por que a sociedade permite que o acréscimo de riqueza devido às descobertas tecnológicas seja destinado ao acúmulo capitalista?
E por que os pesquisadores que são responsáveis pelas descobertas não se rebelam?
Por que classes e, quanto mais, luta entre classes?
Por que o capitalismo, que gratifica com maior desenvolvimento material, fracassa ao carregar no seu código genético o egoísmo, a avareza e a impiedade?
Por que o socialismo traz também consigo o germe da busca do poder? E o do desprezo por acréscimos de produções materiais?
Por que a propalada “igualdade de oportunidades” é lembrada para seres que nascem com estruturas mentais e físicas diferentes? Não seria melhor “geração de oportunidades compatíveis com a estrutura de cada ser”?
Por que “não se produz segundo as próprias possibilidades e se consome segundo as suas necessidades”?
Por que a necessidade desta organização da sociedade, quando a elite econômica, que deveria ter uma das maiores responsabilidades, é tão irresponsável?
Por que um número razoável dos políticos não tem o mínimo grau de consciência social?
Porque foram eleitos por pessoas planejadamente despolitizadas e, portanto, manipuláveis.
Por que há a necessidade de lideranças, que frequentemente traem os liderados? Porque o sistema de governo anárquico, para o estágio atual de desenvolvimento da humanidade, não é viável. Um movimento contra lideranças, à medida que teria que ser liderado por alguém, seria um movimento natimorto.
Por que a morte de semelhante pertencente a outro povo, principalmente se este povo for considerado inimigo, não causa tanta comoção?
Por que existem diferentes nações, podendo algumas serem inimigas?
Por que a hegemonia de nações sobre nações?
Por que o desenvolvimento tecnológico bélico? Por que a produção de armamentos?
Por que a existência? Por que não o vácuo, a escuridão e o nada?
Por que tantas indagações?

Dezembro de 1996

05 setembro 2018

Tragédia anunciada ou planejada?

Paulo Metri - conselheiro do Clube de Engenharia e vice-presidente do CREA-RJ 

Nos dias atuais, ouve-se com frequência que o incêndio do Museu Nacional é uma “tragédia anunciada”. Pretendo mostrar que é mais que isso. Há requintes de sadismo.
Ignacio Ramonet, ex-editor do “Le Monde Diplomatique”, escreveu o memorável artigo intitulado "Angleterre, crise totale", na edição de abril de 2001 do jornal. Nele, Ramonet dizia que a epidemia de febre aftosa que se espalhava, naquela época, pelos campos britânicos, como toda epidemia, era consequência de um momento histórico preciso e não era por coincidência que estava acontecendo dentro de uma Inglaterra que foi utilizada, durante mais de vinte anos, como laboratório do ultraliberalismo.
Ele dizia, também, que as decisões que permitiram, além de febre aftosa, a doença da vaca louca, inundações, regiões bloqueadas sobre a neve sem eletricidade, catástrofes ferroviárias e outros acidentes ou eventos funestos foram tomadas conscientemente e se basearam em dogmas neoliberais precisos, como a desregulamentação. Segundo ele, nos anos 80, em governos da Sra. Margaret Thatcher, deu-se as costas ao princípio da precaução, aniquilando-se, por exemplo, a rede nacional de atendimentos veterinários.
Além disso, no dia 9/1/2018, o jornal “The Guardian”, um dos mais respeitados jornais da Inglaterra, publicou artigo sobre a atual opinião dos britânicos sobre privatizações e mostrando como a opção estatal está na moda novamente. “Transferir os ativos públicos da Grã-Bretanha para a propriedade privada e confiar apenas na regulação para garantir que eles fossem gerenciados para oferecer um interesse público mais amplo foi sempre uma aposta arriscada. Essa aposta não valeu a pena”, explica o artigo de Will Hutton, diretor do Hertford College, em Oxford, e presidente do Big Innovation Centre.
No artigo, o autor explica que não são apenas os números das pesquisas que representam uma queda geral na confiança dos serviços privatizados, mas há uma visão generalizada de que os exigentes objetivos de lucro anularam as obrigações de serviço público. O Estado mínimo se mostrou uma bomba-relógio social e os números da pesquisa na Inglaterra confirmam isso: 83% dos entrevistados são a favor da estatização da água, 77% a favor da estatização da eletricidade e gás e 76% a favor da estatização das linhas férreas.
Na edição de 18/01/2018 do jornal “O Globo”, pode-se ler na manchete principal: “Pais reduziu em 33% verba para prevenir epidemias”. Claramente, há uma relação causal entre os cortes de verba nos projetos culturais, científicos e sociais do governo neoliberal atual e o retorno da fome no país, da febre amarela, de doenças que há tempo não acometiam os brasileiros, a redução do ritmo das pesquisas científicas e tecnológicas, além do incêndio do Museu Nacional.
Não vamos nos comportar como a nossa mídia, que busca culpado pelo incêndio do Museu Nacional nos bombeiros, nos próprios administradores do Museu, na burocracia do BNDES, contudo, sem identificar o principal culpado. O culpado nunca identificado pela mídia, por esta ser desonesta, é quem assumiu o modelo neoliberal de gestão do país, no caso específico, os integrantes do governo neoliberal encabeçado por Temer. Este modelo prega desregulamentações, privatizações, o Estado mínimo, o término das compras locais, ou seja, um mundo ideal para empresas, principalmente estrangeiras, terem o máximo lucro e os indivíduos terem atendimentos de baixa qualidade, patrimônio coletivo usurpado ou incendiado etc.
Assim, pode não ter sido explicitado que o Museu iria pegar fogo, mas providências para que desgraças acontecessem foram tomadas. As próximas poderão ser o aumento da incidência de Aids, a queda de uma ponte, um surto de doença animal etc. Basta analisar onde os cortes orçamentários mais incidiram. Mas, estas desgraças foram providenciadas para poder sobrar recursos para pagar juros aos rentistas, o que é confortante. Finalizando, o que mais me estarrece é que, hoje, dos treze candidatos a presidente, seis são conhecidos neoliberais ou seus ministros da Fazendo, já escolhidos, são e algumas pessoas do povo os acham bons candidatos.

22 agosto 2018

Defesa para a sociedade estar protegida de quê?

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia e vice-presidente do CREA-RJ

O Comandante do Exército brasileiro, general Eduardo Villas Bôas, escreveu o artigo “Defesa para quê?”, publicado no jornal “O Estado de São Paulo” de 18 de agosto de 2018. Ao ler este artigo, constatei que existem compreensões diferentes para um mesmo termo quando observado por pessoas com diferentes visões de mundo. O conceito de “defesa” existente em todo o artigo do general Villas Bôas corresponde à estrita compreensão militar do termo. Entretanto, a defesa de uma sociedade requer outras providências tão ou mais importantes.
Cada defesa nos protege com relação a uma potencial insegurança. Assim, o primeiro passo será perguntar quais as inseguranças ameaçam os brasileiros e como passar a ser “seguro” nestas áreas. Infelizmente, a listagem das inseguranças dos brasileiros é imensa, podendo ser citadas as inseguranças alimentar, da saúde, educacional etc.
 Parcela razoável dos brasileiros, hoje, voltou a passar fome, não tendo, assim, segurança alimentar. Há uns 30 anos, se os Estados Unidos quisessem causar enorme dano à nossa sociedade, bastava promover um boicote à exportação de fármacos para o Brasil. A nossa soberania com relação à produção de fármacos era péssima. Melhorou muito até hoje e, em grande parte, graças à Fiocruz.
Foi descoberto o Pré-Sal na zona econômica exclusiva brasileira. Apesar de o presidente Lula ter conseguido passar no Congresso a lei da partilha, que beneficiava enormemente nossa sociedade, esta lei foi completamente desvirtuada pelos congressistas do mandato seguinte. Hoje, o petróleo é produzido no Brasil, mas a sociedade brasileira pouco usufrui dele. Quem mais lucra com ele são as petrolíferas estrangeiras. Assim, hoje, existe o “roubo legal” do nosso petróleo, demonstrando nossa sociedade estar indefesa.
Com a melhor das intenções, a nossa Marinha desenvolve o submarino de propulsão nuclear para dar segurança, também, às atividades offshore. No entanto, as petrolíferas estrangeiras nunca irão querer assaltar os campos do Pré-Sal, pois muitos destes já pertencem a elas com algumas exceções.
Concordo com a frase do general Villas Bôas, que diz: “o Brasil é um país onde não existe percepção clara de ameaças à sua soberania e aos seus interesses”. No entanto, minha compreensão da frase é outra, diferente daquela do general e que o levou a escrevê-la. Na minha visão, a grande mídia esconde do povo muitas das perdas em curso na nossa sociedade, ou seja, esconde as nossas áreas inseguras, nas quais precisamos de defesa.
Contudo, concordo que, pela grandeza dos nossos recursos naturais, precisamos de Forças Armadas que persuadam os inimigos, sem sombra de dúvida. Entretanto, não é correto planejar Forças Armadas eficientes sem planejar a erradicação da fome, a melhoria do atendimento de saúde etc. Outras eventuais funções das Forças Armadas são acessórias e não são aqui debatidas.
Mas, peço uma reflexão ao general Villas Bôas. Por que colegas seus de farda, mais de 70 anos atrás, os generais Horta Barbosa, Leônidas Cardoso, Felicíssimo Cardoso, Estilac Leal, José Pessoa, Estevão Leitão de Carvalho e muitos outros participaram com empenho da campanha “O Petróleo é nosso”? Nesta época, o Brasil não possuía uma gota de petróleo, enquanto, hoje, tem uma reserva de mais de 100 bilhões de barris. O que levou os generais do passado, além de visionários, a serem nacionalistas ferrenhos, sem serem xenófobos? Estes, se vivos estivessem, estariam indignados ou acomodados com a atual retirada do petróleo nacional?
Antes, aos generais da época de “O Petróleo é nosso”, teriam que ser explicadas as condições atuais desta retirada. Uma petrolífera estrangeira, depois de arrematar um bloco do Pré-Sal, procura petróleo e, como é de se esperar no caso desta área, o encontra. Ela contrata a engenharia, desenvolvimentos tecnológicos e a plataforma de empresas e institutos de pesquisa no exterior. Com isso, ela emprega muito poucos engenheiros, geólogos e trabalhadores em geral no Brasil. Como se pode perceber, compra-se quase nada no país.
Inclusive, atualmente, o conteúdo local não é mais exigido das petrolíferas. Se paga pouco tributo porque as petrolíferas receberam do governo Temer isenções por um período de 25 anos. O petróleo é levado bruto para o exterior. Não refinam o petróleo no Brasil. Qual seria o posicionamento dos generais da época de “O Petróleo é nosso”?

16 julho 2018

Inexorabilidade da contribuição nuclear

Paulo Metri

A British Petroleum (BP), petrolífera que atua no setor há 67 anos, publica anualmente o “BP Statistical Review of World Energy”. Este estudo contém dados sobre fontes e formas de energia, ao longo do tempo e por regiões. Esse esforço de levantamento de dados é meritório e contestações sobre a seriedade do levantamento não são ouvidas.

Estes dados permitem a elaboração da seguinte análise e o registro da uma tendência.

1)      As três fontes de energia, que mais contribuíram para a satisfação da demanda mundial de energia em 2017 foram petróleo, suprindo 34% da demanda global, gás natural, que supre 23% desta demanda, e carvão mineral, com 28% da demanda. As três fontes suprem 85% da demanda global. E estas três são combustíveis fósseis, que liberam, durante a queima, os gases do efeito estufa (CO2, CO, N2O, CH4 e outros) na atmosfera.
2)      O acordo de Paris sobre o clima estabelece que a liberação destes gases na atmosfera deve trazer o acréscimo máximo de 2 graus Celsius no aquecimento global em 2100, partindo-se dos níveis da era pré-industrial. Isto irá requerer um enorme esforço para a diminuição do consumo dos combustíveis fósseis que, na prática, ainda não começou a acontecer, bastando observar as taxas médias anuais de crescimento do consumo no período de 2006 até 2016 de petróleo, gás natural e carvão mineral, que foram 1,2%, 2,3% e 1,3%, respectivamente. Notar que, neste período, ocorreu o baque da economia mundial de 2008.
3)      No entanto, a taxa média anual de crescimento do uso da energia nuclear, no período de 2006 até 2016, foi de -0,7%, significando um decréscimo de sua participação. Lembrar que, no período em pauta, ocorreu o acidente de Fukushima, que impactou o setor. Contudo, mesmo sob o critério da “segurança da fonte geradora”, a tecnologia nuclear não deve ser excluída da competição por causa de Fukushima. Por outro lado, a geração nucleoelétrica não lança gases do efeito estufa na atmosfera, contribuindo para a solução do problema do aquecimento global.
4)      No período de 2006 até 2016, a energia hidráulica cresceu em nível razoável, ao valor médio de 2,9% por ano. A hidráulica lança pouca quantidade de gases do efeito estufa na atmosfera. Entretanto, esta fonte tem um teto máximo de disponibilidade.
5)      As demais fontes renováveis, retirada a hidráulica, são basicamente a solar e a eólica. Elas têm crescimento do seu consumo com a taxa média para o período em questão de 16,2% ao ano. Trata-se de crescimento promissor, restando lamentar a participação diminuta inicial no suprimento do consumo total. Também, estas duas estão em fase inicial de seus desenvolvimentos tecnológicos e ainda têm custos pouco competitivos. Obviamente, elas podem vir a contribuir muito.
6)      Outras fontes renováveis e a fusão nuclear ainda estão distantes de serem comercialmente aproveitáveis e, durante um período, não deverão contribuir. Outras ações, que não são substituições de combustíveis fósseis, podem também resultar na diminuição da emissão de gases do efeito estufa na atmosfera. Este é o caso da redução das “queimadas” que ocorrem no Brasil. Mas o maior impacto na atmosfera, a nível mundial, é devido à queima de combustíveis fósseis.
7)      Com este quadro e considerando os custos, desenvolvimentos tecnológicos ainda necessários, limites físicos para as expansões, que é o caso da hidráulica, restrições ambientais, questões de segurança operacional, aspectos geopolíticos, o que deverá acontecer no futuro é difícil de ser imaginado.
8)      É possível que a solução seja um conjunto de fontes, excetuando as fósseis, em que muitas das opções citadas estarão presentes. O pior que pode acontecer é não se dar a devida importância à questão e deixar o tempo passar, permanecendo-se imóvel. No entanto, uma “aposta com alta probabilidade de ocorrência” pode ser dita, se a decisão for séria: não há a possibilidade de não se considerar a contribuição nuclear.

Fonte: https://www.bp.com/content/dam/bp/en/corporate/pdf/energy-economics/statistical-review/bp-stats-review-2018-full-report.pdf

Julho/2018