25 março 2017

Terceirização a todo vapor

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia

O poder econômico conseguiu mais uma vitória neste Congresso de figuras tristes, desvinculado da sociedade e completamente subserviente ao capital. Um Congresso, que é contra seu próprio povo, só é explicado pela baixa conscientização política deste povo, consequência da atuação de um cartel de mídia, tentáculo do capital. Este Congresso, que pode ser legal, mas é ilegítimo, aprovou, sem delonga alguma, uma lei que permite a terceirização de inúmeras atividades antes preservadas à boa execução. A partir deste caos, com o intuito de acordar a população, sugiro algumas outras maldades que este Congresso e o Executivo não menos nefasto podem decidir, aperfeiçoando o desastre.
Para que as Forças Armadas tradicionais? Vamos terceirizá-las. Têm tantos mercenários baratos no mundo, psicopatas ávidos por confrontos. Vai ser uma boa economia para os cofres públicos. Além do mais, não existe mais patrimônio nacional genuíno para ser guardado. Os congressistas, com raras exceções, e Executivos neoliberais, incluindo o atual, já o transferiram. Há muito patrimônio, geograficamente localizado no Brasil, que, hoje, pertence a empresas estrangeiras. As nossas Forças, depois de tantos orçamentos ridículos, ano a ano, não podem ser mais consideradas como “forças”, mas, também não precisam mais defender o povo. Dentre o povo brasileiro, hoje, só existem os escravos e os prepostos dos dominadores, que nunca sofrerão agressões externas, pois são fatores de produção dos alienígenas.
Neste ponto, lembro-me do poema “No caminho com Maiakovski” do brasileiro Eduardo Alves da Costa. As Forças Armadas, que ficaram tão caladas quando o petróleo nacional foi escancarado, a Vale foi vendida por migalhas, a vigilância da Amazônia foi entregue a empresa estrangeira, a presidente da República foi grampeada e o nosso Pré-Sal foi doado, hoje não têm mais a possibilidade de ser guardiães da inexistente soberania nacional. Ficaram presas a interpretações erradas do conceito de “Ordem e Progresso”, como, por exemplo, que manifestações contra o “entreguismo” era a sublevação da “Ordem” e que multinacionais instaladas no país representavam o “Progresso”. Deviam ter se espelhado no general Horta Barbosa, no Almirante Álvaro Alberto e no Brigadeiro Francisco Teixeira.
Sugiro que a Quarta Frota, que já tem a incumbência de garantir a navegação no Atlântico Sul para os interesses dos Estados Unidos, seja acionada para garantir a segurança do Pré-Sal. Afinal de contas, com a nova política para esta área, ocorrerá um número cada vez maior de petrolíferas estrangeiras na área. Como se trata da segurança de empresas e patrimônios estrangeiros, chamar uma terceirização gratuita é uma enorme economia.
Como a soberania nacional não é mais relevante e o serviço diplomático é caro, as atividades do Itamaraty poderiam ser terceirizadas também. Como o governo brasileiro tem, atualmente, relações carnais com o governo dos Estados Unidos, os embaixadores deste generoso país cuidariam dos poucos interesses do Brasil.
Como o destino pode ser irônico, o inteligente empresariado nacional, com sua visão de curto alcance, não se deu conta que, com a terceirização extremada, restará menos recursos para o consumo das famílias, o que repercutirá na demanda agregada e, consequentemente, no PIB. Podem, então, descobrir que a rentabilidade das empresas seria maior se tivessem permanecido com os empregados mais caros e competentes.
Uma questão de menor valor para ser citada, chegando a ser um desperdício de espaço neste artigo, é a questão ética. As tristes figuras do Congresso usaram a artimanha de reviver um projeto de lei de autoria do governo de FHC, cujas posições políticas foram refutadas quatro vezes nas urnas. Em uma compreensão abrangente do termo corrupto, os atuais congressistas governistas, se já não são denunciados como corruptos, são porque se opuseram ao desejo do povo. Simplesmente, esqueceram de arquivar o projeto, mas os algozes do povo, sempre prontos para inovar em suas maldades, o aproveitaram.
Têm horas que fico pensando como deve funcionar a cabeça destes nefastos seres. Eles sabem que este governo, aliás, com mandato roubado, só será lembrado por ter sido um dos piores da história da subserviência do país ao capital, em detrimento da sociedade. Pergunte a um brasileiro, que não seja um professor de História, mas tenha algum conhecimento: “O que você já ouviu falar do governo Dutra?” Muitos deles responderão: “Ele importou ioiô.” Assim, após a decantação providenciada pelo tempo, do governo Temer só se saberá que foi composto de carrascos do povo.
Será que ele acha que foi bastante inteligente ao conseguir articular um golpe contra quem representava legitimamente o povo? Será que ele não notou que muitos devem ter sido sondados para golpes de outros tipos e não se dispuseram a fazer papel tão indigno? Será que ele não sabe que está sendo usado para fazer tudo que o capital e interesses estrangeiros querem e, logo depois que findar o mandato, será esquecido por todos, inclusive pelos atuais participes do butim? Será que ele não imagina que seu filho ao crescer ouvirá constrangedoras verdades sobre o seu pai?
 Como a vida continua, apesar destes miseráveis e de suas ações deletérias, sugiro à sociedade continuar lutando. Para os identificadores de comunistas, esclareço que sugiro a luta não física, mas toda ação permitida pela lei, como greve, redação de panfletos, jornais e outros, manifestações, discursos, acesso à população por canais alternativos, tipo internet. Tem um aspecto doloroso, mas que traz esperança: os maus tratos dos “coisas ruins” são tão grandes que ajudam a conscientizar.

13 março 2017

Resgate da Petrobras e do Pré-Sal para a sociedade

(Publicado no Jornal dos Economistas de Março de 2017)

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia e do CREA-RJ

A Petrobras foi criada, em 1953, em atendimento a grande mobilização popular, ocorrida nos seis anos anteriores, reivindicando que a riqueza do petróleo, se descoberto, pois era desconhecido à época, deveria ser usufruída por brasileiros. Ou seja, visionários foram às ruas, dizendo na verdade que “o petróleo seria nosso”!
Atualmente, existem inúmeras evidências sugerindo que lideranças políticas e a grande mídia abraçam a campanha “O petróleo não precisa ser nosso”, tal o grau de entrega que fazem no setor e, hoje, diferentemente do passado, sabe-se que existe muito petróleo no país. Ele, se bem aproveitado, irá resultar em invejável índice de desenvolvimento humano para a sociedade brasileira. Somando as descobertas recentes declaradas pela Petrobras, porem ainda não certificadas, chega-se a uma cifra entre 30 e 40 bilhões de barris. No entanto, se interesses políticos não a proibirem de concorrer para arrematar novos blocos, ela passará a ter mais de 100 bilhões de barris.
Mas, a mídia e políticos conservadores transmitem que o melhor para o país é ter a exploração e produção de petróleo concentrada em empresas privadas reguladas por uma agência que imporia os interesses do Estado, do que em uma estatal, pois mais investimentos estarão disponíveis e uma melhor eficiência será obtida. Começa que o setor privado não é necessariamente mais eficiente que o setor estatal. Além disso, só se pensa em eficiência financeira e, não, em eficiência social, que é mais importante e uma estatal atende melhor.
A escolha dos investimentos no setor deve considerar os impactos sociais a serem obtidos, como acarretar o máximo de compras locais, empregar o máximo de brasileiros, desenvolver o máximo de tecnologia no país. Neste sentido, a retirada da Petrobras da condição de operadora única do Pré-Sal foi uma decisão contrária aos interesses da sociedade brasileira. Argumentou-se à época que havia pressa para a exploração do Pré-Sal, quando os investimentos lá aplicados devem seguir a velocidade que traz o máximo usufruto social.
A atuação planejada da Petrobras no Pré-Sal pode induzir um novo ciclo de desenvolvimento para o país. Por outro lado, muitas agências reguladoras estão “capturadas” pelos entes a serem regulados. Então, aqueles que desejam ver uma sociedade mais justa no Brasil devem buscar outro modelo sem agência para o setor do petróleo, lembrando que o país precisa ser soberano para poder garantir impactos sociais relevantes, e sabendo que a Doutrina Monroe, com suas atualizações, nunca foi abandonada.
Uma discussão escondida da população é em quais atividades o Estado satisfaz melhor os interesses da sociedade. Além das típicas do Estado, devem ficar com ele também os empreendimentos de infraestrutura com grande prazo de maturação e baixa rentabilidade, atividades que requerem alto grau de segurança, as que resultam no aumento da soberania nacional e as que geram lucros estratosféricos. O setor de petróleo se enquadra em mais de uma destas categorias. No entanto, a cartilha neoliberal se prende a um único objetivo, a maximização do lucro, supostamente atingido pelas petrolíferas privadas e que, aliás, a sociedade pouco usufrui.
Hoje, infelizmente, a nossa sociedade, acreditando nas informações destorcidas pela mídia, pensa que a Petrobras deve muito acima da sua capacidade de pagamento. Assim, a tese que a Petrobras precisa vender ativos para pagar sua dívida é aceita pela população. Contudo, ela não é verdadeira, como pode ser observado em “A construção da ignorância sobre a Petrobras” de Felipe Coutinho, presidente da Associação de Engenheiros da Petrobras (AEPET).
É importante conhecer as atuações passadas, em outros países, das petrolíferas estrangeiras, pois pela intenção de Temer e Parente, elas atuarão em novos empreendimentos no Brasil. Encontra-se na literatura que barreiras éticas não foram respeitadas por estas empresas nas ações para atingir seus objetivos. Foram protagonistas de tomadas de poder, financiamentos de guerras, assassinatos, corrupções e outras tramas. Mesmo sabendo que as posições no mundo mudam, será difícil confiar nas medições delas da produção de petróleo, das quais dependem os valores dos tributos. Como confiar nos gastos declarados em segurança das operações e em proteção ao meio ambiente? Uma estatal, não visando exacerbadamente o lucro, tende a não fazer estes absurdos.
A atual atuação das petrolíferas estrangeiras é escamoteada, pois inclui a compra de políticos para a aprovação de uma legislação que dissimula a maximização do lucro, e a divulgação, através da mídia cooptada, de inverdades ou a não divulgação de assunto relevante. Assim, conclui-se que as petrolíferas estrangeiras, diferentemente da estatal, não objetivam grande contribuição social.
Ocorre no Brasil, hoje, uma investida das petrolíferas e outras empresas estrangeiras ao patrimônio da Petrobras. Existe também a investida dos “espertos” acionistas da Petrobras no exterior. Eles aproveitam o momento vulnerável da empresa, a falta de apoio do governo e a colaboração inexplicável de nossas autoridades para apresentar reivindicações possivelmente injustas. Parente aplicou o “impairment” de necessidade duvidosa para calculo do valor de vários patrimônios da empresa, acarretando preços vis. Parente buscou acabar com a empresa integrada que possui todas as áreas que maximizam o retorno da produção de petróleo, aquelas com alta agregação de valor.
No entanto, a Petrobras reage a estes descalabros aumentando a produção do Pré-Sal, o que compensa a diminuição da produção da bacia de Campos e diminuindo a necessidade de importação de petróleo. Tudo isto dificulta Parente de providenciar uma privatização maior.
Ele buscou definir como objetivo da Petrobras a descoberta e produção de petróleo, o que ela faz muito bem. No entanto, vender petróleo in natura, com pouco valor agregado, para petrolíferas estrangeiras, que são integradas, significa transferir lucro para os competidores. Temer e Parente fazem hoje um desrespeito para com todas as gerações de administradores e funcionários da empresa, presidentes e ministros da República, e políticos diversos que, durante 63 anos, sustentaram o desenvolvimento desta empresa e a tornaram um orgulho nacional. Ou seja, ela é a prova que os brasileiros não são atavicamente subdesenvolvidos. É por esta razão que se conclui que eles estão tentando destruir não a empresa, mas o orgulho nacional.
Para o término das obras da COMPERJ e outros empreendimentos, Parente pretendeu chamar só empresas estrangeiras. Ele buscou transferir uma parcela do campo de Carcará para a Statoil e outros campos para a Total, todos a preços vis. A Noruega e a França aceitaram de bom grado o neocolonialismo. Ele se opôs à exigência de conteúdo local, junto com as petrolíferas estrangeiras. Ele tentou vender a Liquigás, distribuidora de GLP, e uma participação na BR Distribuidora, com a possibilidade de compartilhamento do controle da companhia. Ele buscou transferir a propriedade de 90% da Nova Transportadora do Sudeste, responsável pelo transporte de gás natural nesta região, para a empresa Brookfield Incorporações S/A. Ele foi a favor das parcerias, em que a Petrobras nada ganha, só perde.
Assim, todas as empresas que firmaram contratos leoninos com o Estado brasileiro, são coparticipes de um crime. Parente está atropelando a lei na sua ânsia pelo desmonte. É bom que ele aja assim, porque está criando um passivo judicial, que pode resultar na revisão das decisões. Inclusive, descrevi, neste texto, as suas atitudes como sendo pretensões, porque para mim tudo feito é passível de ser revertido na Justiça.
O engenheiro Ricardo Maranhão, conselheiro da AEPET, apresentou ao TCU uma lista de irregularidades e ilegalidades no plano de desinvestimentos da Petrobras. Desta forma, não existe um “ato jurídico perfeito”, não só pelo atropelamento da lei, como também pela fragilidade política do presidente atual. Fernando Henrique, que também representou o pensamento neoliberal no poder, não ousou fazer o que Temer, através de Parente, tenta fazer. Inclusive, depois de 2018, um novo governante virá e ele pode querer desfazer o que foi feito, quando ocorrerão embates jurídicos.
Por tudo isto é louvável que muitos Sindicatos e Federações de Petroleiros têm entrado na Justiça contra a selvageria desmedida que Parente busca impor à Petrobras e ao petróleo brasileiro. São alvissareiras as notícias dos deferimentos dos juízes às ações impostas. Entidades da sociedade civil, como Clube de Engenharia, OAB, CNBB e outras deveriam também entrar com ações na Justiça, pois o teatro de guerra é imenso e há espaço para todos.
E se o preço do barril de petróleo subir substancialmente e a destruição de Parente for permanente, quão prejudicada será a sociedade brasileira?
 

30 janeiro 2017

Uma névoa povoa meus olhos

Paulo Metri 

Não é catarata, pois esta já foi retirada. Não se trata da “névoa da guerra”, pois não sou o Robert McNamara, nem meu país vive em guerra, a menos daquela caseira. Também não é o “espectro que ronda a Europa”, primeiro, porque a névoa nos leva a ver espectros, mas eles não são sinônimos. De qualquer forma, aquilo que rondava a Europa foi denunciado por Marx em 1848 no seu Manifesto. O fog londrino já foi dissipado, além de que não me encontro em Londres. Aliás, dissipação esta lamentada por toda sorte de bandidos que evaporavam no meio do fog, inclusive o Jack, que adorava estripar. Em resumo, não é também por causa do fog londrino.
Então o que não me deixa ver a realidade? O que turva o real? Devo usar uns óculos de distorção das imagens, que não consigo retirá-los. Será coisa do Grande Irmão? Mas a teoria da conspiração já foi oficialmente negada! Quem conspiraria, então? Forças retrógradas e contrárias ao povo? Forças formadas através do conluio do Congresso, Judiciário, mídia, rentistas, empresas estrangeiras e demais integrantes da turma do 1%! Como reles representante dos 99%, consegui a proeza de identificar o que há por trás dos óculos imateriais, mesmo com a visão turva!
Há a verdade absoluta, que traz nexo para as ações. Se o cidadão conseguir enxergar nitidamente, ele nunca votará em candidatos que irão prejudicá-lo, não irá a passeatas contra os que lhe ajudam, não acreditará piamente no que ouve na TV e no radio, nem no que lê nos jornais e revistas conservadoras. Ele não terá mais o perturbador da visão lhe bloqueando o entendimento.
Porém, como se desvencilhar destes óculos de objetivo invertido? Tem-se que começar a receber outras versões para os fatos já veiculados com os interesses da mídia do capital. Há que se entender que se vive em um mundo, pelo menos a parte ocidental deste mundo, em que o capital domina. É mais fácil se ouvir a versão dos empresários do que a dos trabalhadores.
Aberrações diversas são constatadas nela, como o elogio dirigido por William Waack a Obama, por ter promovido a paz no mundo. Nunca há divergência entre os analistas políticos. Eles sempre concordam. Mentira contada em vários lugares e a toda hora: “O orçamento de um país é igual ao orçamento de uma família: não se pode gastar mais do que se ganha.”
Como se desvencilhar das versões erradas? Não vai se livrar. Elas estarão sempre aí. A pergunta certa é: como chegar às outras versões dos fatos? Com pesquisa, luta, leitura, debate, inteligência e perseverança.
Contudo, há uma definição prévia a ser feita pelos candidatos. Você quer ser considerado por uma grande parcela da classe média como um ser problemático, quase um traidor da classe? E sem ser reconhecido pela classe mais pobre, que é a maior beneficiária da sua postura, como uma pessoa meritória? Você quer lutar por uma sociedade mais justa, em que qualquer criança nela nascida terá maior chance de crescer saudável, se desenvolver como pessoa e integrante da sociedade, onde terá uma velhice digna?
Não esqueça que não há grupo mais conservador que a classe média, que pouco usufrui do conservadorismo. Seria por esperança de, um dia, ser rico?

Janeiro de 2017

20 janeiro 2017

Tratamento dado aos nossos heróis nacionais - Capítulo 5

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia

Falar sobre um herói desconhecido é, a primeira vista, irracional. Mas, se for explicado que é um herói almejado, já planejado em detalhes, e que faria muito bem para a sociedade se existisse, começa a fazer sentido. Por outro lado, talvez ele já exista e eu não se sei sobre a sua existência.
Este herói nacional é o militar perfeito. Escrevi, em artigos passados, que a postura do militar deveria ser a de não tomar posição a favor de nenhum lado político e não se envolver com este debate. Enfim, cumprir a risca o que a Constituição diz. Mudei de opinião ao me conscientizar que o texto constitucional não retrata o que é melhor para a sociedade.
Em uma entrevista ao Estadão, em 11/12/16, o Comandante do Exército, General Villas Boas, após dizer que a chance de uma intervenção militar hoje era zero, disse: “Eu avisei (ao presidente e ao ministro) que é preciso cuidado, porque essas coisas são como uma panela de pressão. Às vezes, basta um tresloucado desses tomar uma atitude insana para desencadear uma reação em cadeia.” “Atitude insana” seria o pedido de um golpe militar? E, se o pedido for este, “reação em cadeia” seria o fato do pedido se agigantar? E, se ele se agigantar, qual a reação dos militares da ativa? Seria extremamente importante o General não deixar nenhuma dúvida no ar.
Ao falar sobre os militares da reserva, o General disse que a reserva é sempre mais arisca, mais audaciosa, mas "até o momento está bem, sob controle". Ele não me tranquilizou sobre o que é possível acontecer no futuro. Existe a possibilidade dos militares da reserva ficarem fora de controle? E, aí, o que acontecerá?
O artigo 142 da Constituição Federal de 1988 diz que: “As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem.
Promulgada três anos depois dos 21 anos de ditadura civil-militar, ainda assim a Constituição contém a obsessão das Forças Armadas serem as garantidoras da lei e da ordem. Não há a preocupação que estas Forças garantam a inclusão social ou que se oponham à entrega de um patrimônio nacional a estrangeiros. A obsessão exclusiva pela lei e pela ordem pode ser interpretada como sendo um excelente pretexto para a usurpação do poder de políticos escolhidos pelo povo e que não são da preferência de grupos econômicos e de políticos perdedores da eleição. A ordem assim conseguida é na base da repressão. A população é dominada por medo. Esta ordem lembra muito a “paz de cemitério”.
Desta forma, o militar perfeito não deve ter ânsia de poder e não deve satisfazer os anseios de nenhum grupo, que queira se apossar do poder, pela força ou por imposição midiática, inclusive com golpe parlamentar e do judiciário, alegando argumentos fictícios. A única transmissão de poder deve se dar nas épocas combinadas previamente e em respeito ao voto popular.
Eu tive um sonho. Todo o Alto Comando das Forças Armadas estava em um amplo salão. Estavam lá oficiais do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, e também os que servem no Estado Maior das Forças Armadas. Creio que, como uma deferência ao Exército, era o Comandante desta Força que ia falar. Logo no início da sua fala, disse que, para as afirmações que faria, tinha a concordância de todas as patentes e os comandos daquela sala, que “são os atuais representantes das Forças Armadas”.
Ele disse que estava ali para comunicar uma mensagem, que seria transmitida uma única vez, que os militares continuavam sem querer se envolver em política partidária, que não querem também opinar sobre as diversas leis que tramitam no Congresso ou as políticas de governo, excetuando aquelas relacionadas à Defesa Nacional. Que os militares continuavam reconhecendo o Presidente da República como Comandante-em-Chefe das Forças Armadas.
Deu uma pausa e disse: “No entanto, os militares não podem se calar, sem serem cúmplices, da entrega que está sendo feita do patrimônio nacional. Este patrimônio não pertence aos políticos que estão em cargos públicos no momento, nem a grupos empresariais ou a uma geração. Ele pertence a todas as gerações, a atual e as futuras, da sociedade brasileira. Trata-se de verdadeiro crime de lesa-pátria querer explorá-lo rapidamente e trazendo pouco benefício para a sociedade.
Continuou, dizendo: “A Constituição de 1988 era um excelente ponto de partida para a sociedade. No entanto, políticos representantes de grupos econômicos vêm a modificando a cada mandato, sem terem sido eleitos como constituintes, e hoje, ela é uma colcha de retalhos, que se distanciou da proteção à sociedade. As Forças Armadas existem para defender a Pátria, que não é só os acidentes geográficos existentes em nossa região do planeta. Pátria inclui seus habitantes e nossas Forças não podem ficar alheias ao fato que grupos os estão explorando.
Finalizou da seguinte forma: “No presente governo, existiram várias transações, quase doações, e todas seguiram o que os instrumentos jurídicos mandam. Contudo, estes instrumentos foram criados ou administrados por inimigos do povo. Por exemplo, parte do campo de Carcará, grande parte da malha de gasodutos, campos do Pré-Sal, empreendimentos na Petroquímica e muitos outros, compõem o assalto recente no setor de petróleo ao bem público e em benefício de petrolíferas estrangeiras. Essas transações devem ser desfeitas. Não há ‘ato jurídico perfeito’ quando um dos lados teve preços e condições aviltados nos contratos.
Após esta comunicação, fiquei pensando: “Isto é um ultimato. Não há a chance de não ser obedecido sem ser deposto, mesmo o Comandante-em-Chefe. E, se este quiser substituir a liderança militar, pelo que foi dito, não existirá substituto, ou seja, não há oficial que aceite o cargo. Se o Comandante-em-Chefe não cumprir o determinado, possivelmente o poder será passado de imediato para o seguinte na linha sucessória. Este é um golpe? Sim, o ‘golpe do bem’” Acordei feliz, pois tinha conhecido a versão atual do militar perfeito. Estes já existiram no passado. Cometerei o erro de citar só três, pois excluirei vários outros: General Horta Barbosa, Almirante Álvaro Alberto e Brigadeiro Sergio Ferolla. Certamente, eles existem hoje, mas algo os proíbe de aflorar.
E o tratamento que é dado a eles pela sociedade? Esta não sabe que eles podem existir e, muito menos, como eles poderiam nos beneficiar. Aliás, não vamos longe, a sociedade se manifesta pouco ou quase nada sobre as Forças Armadas que quer. Quando, na verdade, elas podem ser um fator de indução de bem-estar.

11 janeiro 2017

Tratamento dado aos nossos heróis nacionais - Capítulo 4

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia

São vários os critérios de julgamento de qualquer candidato à inclusão na galeria dos heróis nacionais. Amar o povo brasileiro, de onde emergiu, é o primeiro critério e, também, o único eliminatório. Se passar nele, pode continuar sendo julgado pelos demais, que ajudam a classificar o candidato. Só quem ama sua sociedade pode vir a ser um verdadeiro herói nacional.
O herói deve priorizar o atendimento aos mais fracos da sociedade. Precisa ser justo e não pode proteger seu pequeno grupo em detrimento do conjunto da sociedade. Nunca o herói participaria de qualquer uma das bancadas econômicas existentes no Congresso, se lá estivesse, esquecendo-se de quem lhe deu os votos.
Um herói não é corporativista, se bem que é preciso entender que as associações de classe, tanto sindicais quando patronais, são corporativistas, mas necessárias. Elas desempenham papéis fundamentais dentro da luta democrática.
De forma espontânea, o herói é “politicamente correto”. Ele não precisa se esforçar para bloquear a aparição do seu verdadeiro eu. No seu caso, o que vem à tona é um ser sensível às causas sociais, disposto a lutar para melhorar as condições de vida dos mais necessitados. O herói é um autêntico.
O herói precisa ser corajoso. Na maioria das vezes, para proteger os mais fracos, ele terá que enfrentar poderosos. E não pode esmorecer, pois o acumulador de riqueza e poder, que é o vilão opositor do herói, nunca dará trégua. O vilão, que pode ser nacional ou estrangeiro, dispondo de sua vilanagem, usará os métodos mais sujos para desmerecer a imagem do herói perante a opinião pública. Neste momento, o herói deve mostrar sua fibra.
Não seria preciso dizer, por ser corolário de afirmação anterior, que o herói tratará com maior zelo tudo que é público, inclusive o recurso público. Não precisa ser um requisito obrigatório, mas ajuda muito o herói ser criativo, porque o poder dos inimigos da igualdade social e dos direitos das minorias, os vilões, é imenso.
O herói não visa o reconhecimento e a glória. É humano querer se sentir aceito, mas o herói compreende que, em uma população carente, inclusive de informações fidedignas, a falta de aprovação pode ser somente devido à não compreensão da situação.
Trazendo nova linha de argumentação, com a Lava Jato, a Justiça entrou em uma frenética caçada às bruxas. Em primeiro lugar, segundo esta operação, o único critério de julgamento dos investigados se relaciona com a corrupção, o que é compreensível. No entanto, o que não faz sentido é o uso desta caçada de forma sensacionalista, tendenciosa e despudoradamente política. Por outro lado, a própria definição de corrupção não é fácil de ser obtida consensualmente, pois abrange desde trazer um grampeador do trabalho para casa até, sendo agente público, aceitar suborno de empresa privada, passando por corromper um guarda ou esconder informações da Receita Federal. Donde se conclui que 99% dos humanos, em algum momento da vida, foram corruptos.
O que tem acontecido é o cidadão ir para esta fogueira da Inquisição moderna, recebendo um julgamento parcial, pois depende, dentre outras coisas, do partido ao qual o suspeito pertence. O fato de nada mais importar para o juiz Moro e os procuradores do Ministério Público, além da corrupção, lembra muito o guarda da esquina, que objetiva somente melhorar o tráfego de veículos na sua esquina, enquanto o objetivo desejado é a otimização do tráfego na cidade inteira. E, para melhorar este tráfego global, pode ocorrer que a esquina do guarda em questão deve ficar engarrafada. Assim, Moro e os referidos procuradores não são heróis, até porque dão subsídios para campanhas midiáticas que são desserviços para a democracia brasileira. Esta é a visão amena do juiz Moro e dos procuradores, porque foram excluídas as acusações de serem agentes de governo estrangeiro visando o domínio político do país e o consequente roubo das nossas riquezas.
Uma vez dito quem não é herói, o herói nacional homenageado neste artigo é o servidor público brasileiro. É aquele que está na Embrapa e ajuda o Brasil a aumentar continuadamente sua produção agrícola. Está certo que ajuda também ao agrobusiness a ter lucros fabulosos, mas tem sido primordial para o Brasil acumular divisas. É aquele que está em hospitais e postos públicos de atendimento médico, inclusive com poucos recursos materiais, minorando o sofrimento da classe mais pobre da sociedade.
É aquele que está em plataformas de petróleo lutando para o Brasil continuar sendo autossuficiente em petróleo. Antes que comecem a argumentar que ainda não somos autossuficientes, peço que se lembrem de que, em 1979, o Brasil só produzia 15% do petróleo que consumia. Considerei funcionário de estatal como um servidor público também. Continuando com os exemplos que explicam porque os servidores são heróis, é lembrado o professor de escola ou universidade pública que, por amor à sociedade e à profissão, pois a remuneração é pífia, busca transmitir conhecimentos e visões do mundo para os jovens brasileiros.
É também o projetista e construtor de aviões da Embraer que coloca o produto brasileiro em quase todos os céus do mundo. São os pesquisadores da Fiocruz e de outros centros de pesquisa brasileiros que se preocupam em buscar a cura das doenças de países pobres, que as multinacionais farmacêuticas se recusam a pesquisar.
São todos os cientistas e pesquisadores nacionais, que, em alguns casos, rejeitam ofertas de emprego no exterior, com fartos recursos, para pesquisarem na sua terra natal. É aquele militar que coloca a sua própria vida à disposição da defesa da Pátria. Cabe comentar que querer chegar ao poder pelo menor vislumbre de dano à ordem pública não faz parte de nenhuma cartilha do verdadeiro herói. O militar herói não cede ao canto de sereias que pedem uma ruptura democrática, em geral de sereias de direita.
É também aquele que se dedica a viabilizar projetos culturais no país. São todos homens e mulheres públicos, que se colocam realmente à disposição da sociedade para ajuda-la. Enfim, se trata deste exército de seres humanos anônimos, todos servidores públicos e muitos dos quais se realizam ao trazer benefícios para outros brasileiros, principalmente os menos afortunados da sociedade.
Tem um ponto que é gratificante para alguns servidores públicos. Imaginem dois trabalhadores, que se aposentam na mesma época, um no serviço público e o outro de uma empresa privada. Ambos tiraram dos seus empregos os seus sustentos, durante suas vidas. Contudo, além disso, o do setor privado, apesar do produto ou serviço da empresa em que trabalhava ter alguma utilidade social, vê como consequência do seu esforço, despendido durante anos, uma contribuição para o acúmulo de riqueza do dono da empresa. O empregado do setor público vê os seus anos de trabalho como uma contribuição para o aumento do bem-estar da sociedade.
E o tratamento dado pela sociedade ao herói servidor público? Creio que dá um reconhecimento quase nulo.

30 dezembro 2016

Tratamento dado aos nossos heróis nacionais - Capítulo 3

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia

Gasômetro explodiu”, “Mais de 10.000 mortos com a explosão do Gasômetro”, “Destruição por explosão no Centro do Rio” e “Ataque comunista explode o Gasômetro” foram algumas das manchetes de jornais e das chamadas de telejornais em um dia de junho de 1968. O corpo das noticias foram: “Quem sobreviveu à explosão do Gasômetro nunca a esquecerá”, “A um quilômetro do centro da explosão, ainda eram encontrados sinais do impacto da onda de choque criada por ela”, “Cenário lembra Hiroshima após a detonação da bomba atômica”, “Gasômetro explodiu na hora de maior congestionamento na área da rodoviária Novo Rio” e “Guerrilheiros comunistas foram os autores do maior atentado já ocorrido no Brasil”.
Isto tudo ocorreu em um mundo paralelo no qual o Capitão Sergio Macaco aceitou a ordem de seu superior da Aeronáutica. Para a felicidade dos que residiam ou vinham frequentemente ao Rio de Janeiro, em junho de 1968, no nosso mundo, este capitão da Aeronáutica teve o discernimento, a sensibilidade e a coragem de colocar o respeito à humanidade acima do respeito à hierarquia militar. O Capitão Sergio Macaco salvou mais de 10.000 vidas, que seriam impactadas no primeiro momento, e um número incalculável de vidas dos descendentes.
Sergio Ribeiro Miranda de Carvalho era militar de carreira da Aeronáutica, com o posto de Capitão em 1968 e era chamado de Capitão Sergio Macaco, sem que esta alcunha o desagradasse. Na época, comandava o Para-Sar, batalhão de elite de paraquedistas da Aeronáutica, especializado em resgate e salvamento. Era considerado um dos mais obstinados e admirados oficiais da Força. Certo dia, foi chamado pelo Brigadeiro João Paulo Burnier, então Chefe de Gabinete do Ministro da Aeronáutica Marcio de Souza e Mello durante o governo Costa e Silva. O Brigadeiro Burnier planejava a ação típica de guerrilha de explosão do Gasômetro para ser atribuída a militantes de esquerda e, com isso, a sociedade aceitar o endurecimento da ditadura.
Na época, no Gasômetro, era produzido o gás que era injetado na rede de gás canalizado da cidade. Nesta época, havia a necessidade de estocagem deste gás que, com o uso crescente do gás natural, ela diminuiu. Pelo nível da estocagem à época, admitindo-se que seria uma explosão planejada para causar o máximo dano e considerando o número provável de pessoas que estariam na região, estimou-se que ocorreriam dezenas de milhares de óbitos.
Quando o nosso herói, Capitão Sergio Ribeiro Miranda de Carvalho recebeu a ordem de explodir o Gasômetro, mesmo estando consciente da repercussão que a negativa a esta ordem representaria, ou seja, ele colocaria no lixo a sua carreira, até então brilhante na Aeronáutica, respondeu que não atenderia a ordem. Foi uma opção consciente, pois preferiu não ser o assassino de um número expressivo de pessoas, abrindo mão de algo extremamente valioso para ele, a continuidade da sua carreira.
Notícia de tamanha expressão foi transmitida pelo jornal Correio da Manhã. Ao saber do ocorrido, o Brigadeiro Eduardo Gomes apoiou o Capitão Sérgio Macaco. No entanto, o apoio pouco adiantou, pois a história do Capitão foi negada pela Aeronáutica, que buscou caracterizá-lo como um insubordinado. O herói acabou sendo reformado pelo AI-5, em 1969, perdendo a patente e o soldo.
Depois de penosa tramitação pela Justiça, em 1992, o Supremo Tribunal Federal reconheceu os direitos do Capitão, estabelecendo que ele deveria ser promovido a Brigadeiro, posto que teria alcançado se tivesse permanecido na ativa. O então ministro da Aeronáutica, o Brigadeiro Lélio Lobo, ignorou a decisão da corte, sendo o STF obrigado a mandar um ofício exigindo o cumprimento da lei. O Brigadeiro Lobo novamente se recusou a cumprir, transferindo o problema para o Presidente da República, à época Itamar Franco, que por sua vez protelou a decisão até que o Capitão Sérgio Macaco morreu de câncer em 1994, sem ver sua reintegração à Aeronáutica e a simultânea promoção a que tinha direito. Em 1997, a família do Capitão Sérgio Macaco foi indenizada pelo governo com o valor relativo às vantagens e soldos que ele deixou de receber entre os anos de 1969 e 1994.
Chegou a ser reconhecido como um herói nacional por algumas entidades. O Clube de Engenharia foi uma das que o homenageou em vida. O partido político PDT o acolheu, dando inclusive a legenda para ele se candidatar. Ele chegou a ser o primeiro suplente de deputado federal pelo PDT, tendo assumido o mandato algumas vezes. Em 1985, recebeu a primeira homenagem pública de vulto, tendo recebido o título de "Cidadão Benemérito do Rio de Janeiro" concedido pela Assembleia Legislativa do Estado.
Excetuando políticos, que, com suas decisões econômicas e sociais, podem postergar ou antecipar a morte de milhões de brasileiros, o Capitão Sergio Ribeiro Miranda de Carvalho foi o cidadão que mais salvou vidas no Brasil. Se você vivia ou transitava pelo Rio de Janeiro em junho de 1968 deve agradecer ao Capitão Sergio Macaco por ter, talvez, salvado a sua vida e, como consequência, as de seus descendentes ainda não nascidos, nesta época.
O Governo brasileiro deveria, em ato bastante simbólico, conceder, post mortem, ao Capitão Sergio Ribeiro Miranda de Carvalho o posto de Brigadeiro da Aeronáutica. Implicitamente, estaria reconhecendo que a ditadura chegou a planejar a explosão do Gasômetro.

Fonte: muitos dos dados e informações foram obtidos no Wikipédia.

23 dezembro 2016

Tratamento dado aos nossos heróis nacionais - Capítulo 2

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia

Othon Luiz Pinheiro da Silva era um jovem oficial da Marinha brasileira, já formado em Engenharia Naval pela USP, quando recebeu a missão de ir aos Estados Unidos, para uma das melhores universidades da área tecnológica, o Massachusetts Institute of Technology (MIT), com a incumbência de, ao voltar ao Brasil, desenvolver uma tecnologia importante para a defesa nacional: o enriquecimento isotópico de urânio, cujo produto resultante é utilizado nos elementos combustíveis do submarino de propulsão nuclear.
O completo entendimento do que isto significa não é tão óbvio. Segundo especialistas, os navios de guerra convencionais, não incluindo o porta-aviões, não têm o potencial defensivo de um submarino nuclear. Por isso, este submarino é uma arma imprescindível para o Brasil poder impor a soberania em seus mares costeiros. E o litoral brasileiro é extenso. São cerca de 7.500 km.
A dura realidade é que a nossa atual Marinha não dispõe de grande poder de dissuasão de indesejáveis agressões de Marinhas estrangeiras. Cabe lembrar também que, há algum tempo, as mais prováveis hipóteses de guerra, que determinam todo o reequipamento e treinamento necessários para as nossas Forças Armadas, não são mais o combate a guerrilheiros comunistas e a invasão do Rio Grande do Sul pela Argentina. Uma das atuais hipóteses de guerra são forças estrangeiras querendo se apossar de campos do Pré-Sal. Com a descoberta desta província petrolífera e dependendo da situação política internacional, a invasão militar da costa marítima brasileira pode se tornar uma realidade.
País algum do mundo vende um submarino nuclear ou urânio enriquecido em torno de 20%, que é o enriquecimento usado nos elementos combustíveis do reator do submarino. O país que quiser ter esta arma de defesa precisa desenvolvê-la. Ou pode escolher ser uma colônia de um país bem armado, opção não recomendada.
Notar que existiam, no Brasil, na época em que o jovem oficial Othon foi mandado para os Estados Unidos, mestres e doutores, inclusive formados no MIT, mas ele recebeu esta incumbência, porque se precisava de alguém de extrema confiança que iria receber uma espécie de “mensagem a Garcia”. O mensageiro que recebe uma tarefa deste tipo tem que estar disposto a dar a vida, se necessário for, para a mensagem chegar ao destino.
O jovem oficial foi ao MIT, conquistou os graus de mestre e doutor e voltou ao Brasil. Não decepcionou, pois, de forma resumida, com o auxilio da equipe que formou e do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN) da USP desenvolveu a ultracentrífuga para o enriquecimento de urânio, colocando o Brasil em um fechado clube de seis países que dispõem desta tecnologia.
Esta tecnologia é considerada sensível, pois, por sucessivas “passadas” pelas cascatas do enriquecimento, pode-se chegar a um urânio com o grau de enriquecimento necessário para produção de uma bomba. Não é por outra razão que, segundo a Wikipédia (portanto, ainda passível de confirmação), o Almirante Othon era vigiado por um agente da CIA, chamado Ray H. Allar, que alugou o apartamento ao lado do dele, em São Paulo.
Para desenvolver a ultracentrífuga são necessários materiais e equipamentos que estão na lista de bens e serviços proibidos pelo governo dos Estados Unidos de serem comercializados livremente. Eles foram certamente adquiridos pelo grupo do Almirante Othon, significando, para mim, que este grupo era composto por excelentes “mensageiros para Garcia”. As opções prováveis que eles se defrontaram foram: ou o Brasil fica sem a tecnologia da ultracentrifugação ou estes bens são comprados no mercado negro, enquanto uma empresa genuinamente brasileira não os produzir. E, como já foi dito, hoje, nossa Marinha detém esta tecnologia.
Assim, um juiz estrito aplicador da lei poderia concluir que este grupo cometeu um erro porque fez pagamentos não contabilizados. Os juízes sabem que as leis são criadas por seres humanos, portanto seres falíveis. Estes, até involuntariamente, podem não ter considerado situações importantes para a sociedade, ao redigirem a lei. Neste caso, cabe ao juiz perfeito identificar alguma interpretação criativa que corrija o erro congênito da lei. Cabe ao servidor público, no interesse maior da sociedade, incorrer nesta suposta infração. E, se o juiz, por deficiência cognitiva, o que é improvável, porque o concurso público já barrou quem a possuía, ou por estar movido por outros interesses, que não são os da sociedade, quiser penalizar o militar heroico, este aceita resignadamente a sentença, sem envolver a Força à qual pertence. Este gesto de intenso amor à Pátria é algo que o cidadão comum, normalmente, tem dificuldade para entender.
Por tudo isso, o Almirante Othon é certamente um herói nacional. Não preciso de mais nenhuma informação adicional, por mais relevante que digam que ela é. Já está suficientemente embasado. Ele merece ser um herói nacional.

17 dezembro 2016

Tratamento dado no Brasil aos nossos heróis nacionais - Capítulo 1

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia

A história de Guilherme Estrella lembra a do também geólogo Farmam Salmanov, um cidadão azeri, que procurou petróleo em Surgut, na Sibéria, ao longo das margens do Rio Ob. Ele buscava petróleo sobre a tundra siberiana.
Moscou o havia proibido de procurar petróleo na região por achar impossível encontrá-lo neste local. Ele cortou todas as comunicações para não ter que desobedecer às ordens e, acreditando em suas concepções geológicas, continuou a prospectar.
Em determinado momento em 1961, jorrou petróleo e ele mandou um telegrama para Krushchev dizendo: "Encontrei petróleo. Farmam Salmanov." No meio da Guerra Fria, este telegrama lacônico influenciaria o jogo de poder mundial a favor da URSS.
Nikita Krushchev festejou a descoberta e, por este feito, Salmanov veio a receber o título de herói do trabalho soviético e o premio Lenine. Este petróleo ajudou muito a manutenção do poder da União Soviética.
A constância de apoio ao que acreditava, qual seja a existência de petróleo na camada do Pré-Sal brasileiro, levou ao sucesso o grupo da Petrobras comandado por Estrella.
Infelizmente, bem desigual é o tratamento que Estrella recebeu e ainda recebe no Brasil, hoje, da parte do governo. O Jornal Nacional (JN) chegou ao ponto inacreditável de relacioná-lo aos desvios ocorridos na Petrobras. Logo ele, um técnico íntegro e nacionalista. Pelo menos, neste caso, o JN teve a grandeza de reconhecer seu erro, o que ocorreu na edição de 09/02/2015.
Contudo, a reverência do nosso governo ao ilustre brasileiro, até hoje, não ocorreu. Entidades dos engenheiros e da Engenharia, a Academia, Mídias alternativas, Sindicatos e demais representações conscientes da sociedade já o reverenciaram. Certamente, este governo que, indevida e fatidicamente, está instalado no Executivo não irá homenageá-lo, inclusive porque gostaria que o Pré-Sal tivesse sido descoberto por uma petrolífera estrangeira.
Mas ninguém irá tirar o mérito de Guilherme Estrella, o cidadão que coordenou a equipe da Petrobras que descobriu o Pré-Sal. É um herói nacional. A grande diferença é que a União Soviética era um Estado soberano e o Brasil atual não é e está tomado por proxenetas do capital internacional.

11 dezembro 2016

Entre gritos e sussurros

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia

A política brasileira nos últimos tempos tem trazido enorme angústia à minha pessoa. O acirramento do debate é visto a olho nu. Ninguém ouve a opinião alheia, pois rotulam o interlocutor como inconfiável, alguém de onde nenhuma opinião correta pode brotar. Quando se começa a argumentar e o ouvinte é de opinião contraria ao que ele imagina que se está querendo dizer, na prática, a conversa acaba. É cansativo, pois o objetivo não é o de se avançar no conhecimento do problema, ouvindo argumentos plausíveis que eventualmente embasariam outros posicionamentos. O objetivo é doutrinar o “adversário” e fazê-lo mudar de opinião.
A grande mídia (jornalões, TV aberta, rádios e revistas com raras exceções) precisa moldar o Brasil para ser o mais propício à atuação do capital, inclusive precisa forjar o governante do Brasil que assumirá em 2018. Esta mídia manipula o mundo real para enganar a população. Contudo, como Lula é o campeão nas pesquisas de opinião, ela tem criado versões que o incriminam como ladrão. Ela só não esperava que 19 delatores o inocentassem, o que é pouquíssimo divulgado. Mas, ela não para de conceber novos ataques. Esta comunicação de massa no nosso país é bandida, tendenciosa no mais alto nível e produz, como consequência, um contingente humano de pensamento uniforme e errado. Assim, seus componentes passam a ser estações repetidoras desta mídia. Eles têm o mérito de decorar todos os argumentos da “infalível” mídia.
Também, esta mídia pertence ao capital e é um instrumento de dominação da população por ele, o capital. Esta mídia busca parecer imparcial e a serviço da sociedade, quando não é. Fabrica “realidades” e a inocente população conclui a partir da ficção criada. Com a mídia que aí está, não é possível politizar a sociedade, o que obviamente seria benéfico para todos. Seria interessante, para cada questão, existirem analises mostrando diferentes vieses. Mas, há o interesse que isto nunca mude, pois é importante para os dominadores que a sociedade seja despolitizada, a ponto de votar em candidatos que irão prejudicá-la.
Assim, pode-se dizer que quem tem a mídia venal do seu lado pode estar redondamente errado, mas está do lado de alto falantes mais possantes. Está do lado do grito. E quem só tem sites do bem, tipo Brasil247, Conversa Afiada, Tijolaço, Viomundo, Correio da Cidadania e outros, as revistas Carta Capital e Caros Amigos, o jornal Brasil de Fato e nenhuma televisão aberta ou a cabo, sussurra. Este é o embate desbalanceado, detalhadamente planejado, que poderosos no Brasil vivem impondo há anos.
Notar que quem está do lado dos que gritam, uma vez que está com a maioria, chega até a tripudiar sobre os minoritários, os sussurrantes. Por exemplo, quando um sussurrante diz: “Lula tirou 32 milhões de pessoas da mendicância”, de pronto ouve-se: “Quem gerou este dado? O PT?” E, se é respondido: “Não, o IBGE”, na mesma hora, ouve-se algo como: “Mas estão todos retornando rapidamente para a mendicância”. Não citam que estão voltando em um governo temerário. Ou seja, não se está agindo honestamente na discussão, quer-se somente “ganhá-la”.
A manipulação da mídia chega a ser acintosa. Ela mente descaradamente como, contrariando o que ela diz, a Previdência só está acumulando déficit porque tributos, que foram criados para financiá-la, foram repassados para outras finalidades. Não é verdade que o jovem brasileiro só conseguirá se aposentar se existir a reforma da Previdência proposta pelo malfeitor colocado no executivo, bastando, por exemplo, que sejam pagos menos juros da dívida. E a Petrobrás não precisa vender ativos para pagar sua dívida, como já foi provado pela Associação dos Engenheiros da Petrobras (AEPET), que a triste mídia nunca divulga suas opiniões.
Esta mídia, com auxílio dos deploráveis atuais poderes da República, que ela ajudou a se fixarem na estrutura, faz sua mais infame e vergonhosa investida contra nossa sociedade. Eles querem retirar a mínima proteção social existente no nosso arcabouço institucional. Mais brasileiros terão que pagar plano de aposentadoria, plano de saúde, colégio privado para os filhos e, assim, por diante. A vida ficará mais dura para a classe média e os indivíduos componentes da classe pobre morrerão mais cedo, terão filhos sem instrução e seus jovens morrerão sem se aposentar.
Analisando a manifestação de 4/12 passado, a Globo convocava as pessoas para dar apoio à Lava Jato. Esta é, na verdade, uma operação tendenciosa, pois, por exemplo, depois da enésima delação em que o Aécio é acusado, ele não é chamado nem para prestar esclarecimentos. Durante a manifestação, houve uma cobertura completa buscando inflá-la. Suponha que estiveram “salvando” a Lava Jato, em todo o país, 400.000 pessoas, um número exagerado. Estes são apenas 2% da população brasileira, o que não permite o canal dizer que “a sociedade brasileira se posicionou em peso contra a paralisação da Lava Jato”. Uma curiosidade é que eu também não gostaria que a Lava Jato fosse paralisada. Gostaria que ela deixasse de ser tendenciosa. Creio que, após ter causado baixas no PT e de causar baixas no PMDB e em partidos menores, e apesar das últimas notícias que envolvem o PSDB, ela não andará mais. Não sei que desculpa será dada, mas ela tenderá, no máximo, a ser suave com os políticos do PSDB, como pode ser deduzido pelos sorrisos trocados por Aécio Neves e o juiz Sergio Moro na foto recente dos dois.
Olhando com lupa a manifestação de 4/12 do Rio de Janeiro, o grupo com integrantes mais abastados convocou os que se posicionam a favor da Lava Jato para irem a Copacabana, um bairro da classe média e alta, em um domingo, começando às 10 horas. Quem apareceu foi uma multidão de brancos, com a boca cheia de dentes, se jovens, com os músculos bem definidos, e se idosos, com pesos acima do recomendável, com roupas brancas, amarelas e verdes bem lavadas e passadas. Enfim, não era uma amostra representativa da população brasileira. As manifestações da esquerda são convocadas, em geral, para o centro da cidade e, na maioria das vezes, para a Candelária, começando às 17 horas, para atrair o maior número de trabalhadores do centro ou de outras regiões que passam por este ponto central.
Como já foi dito, ninguém do lado gritante quer ouvir a argumentação dos sussurrantes. Desconfio que se trata de uma agressividade enraizada em ódio. Vem à minha cabeça a certeza que há algo da luta de classes nesta discussão, o que explica o ódio exacerbado. A aversão da classe dominante a posições inclusivas e socializantes é gritante. No entanto, a classe média não precisaria endossar os interesses dos dominantes. Elementos da visão do mundo e da compreensão dos outros seres humanos estão nas escolhas das posições políticas, que são reveladoras do seu postulante. Mas, com esta mídia, o crescimento político da sociedade está comprometido. A racionalidade não está sendo utilizada, além da educação também não ser muito exercida. Enfim, é triste viver no meio da radicalização.

16 novembro 2016

Reunião na CIA em novembro de 2016 [1]

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia

Em torno de imensa mesa, no escritório central desta agência, em Langley, estão acomodadas cerca de vinte pessoas. Em uma cabeceira, está o anfitrião que inicia a reunião:

- Faz um ano e dez meses que nos reunimos nesta mesma sala. Tivemos enorme sucesso com a nossa trama, elaborada a partir daquela reunião. Muitos dos que aqui estavam no passado voltaram hoje. Devemos analisar a situação do Brasil, novamente, e discutirmos ações para não perdermos o controle. Contudo, é interessante recapitular o que conseguimos realizar no período entre as duas reuniões, inclusive para situar novos integrantes. Por favor, tenha a palavra, Greg.

- Pois não. A nossa grande vitória, no período, foi a expulsão da presidente eleita e a colocação em seu lugar de um colaborador antigo nosso. A trama arquitetada funcionou esplendidamente. Os representantes do Judiciário, do Ministério Público, da Polícia e da classe política, por nós cooptados e treinados representaram seus papéis magistralmente. A mídia, dominada há anos por nós, atuou também com extrema perfeição, conseguindo convencer a maioria da população que a honesta presidente tinha participado de deslizes éticos. É conhecido que a mídia dominada faz o povo do país agir contra seus próprios interesses. Além disso, a dominação através da mídia é mais barata do que a militar e tem a vantagem de deixar a população satisfeita, dentro do mundo irreal criado por ela, o que não acontece com a dominação através da força bruta.

- Seria interessante, agora, você nos expor o que acontece atualmente no Brasil.

- Sim. Infelizmente, o vice na chapa da presidente eleita, que tomou posse após nossa trama, não é das mentes mais brilhantes e não seria a nossa preferência, se fosse possível escolher. Apesar dos esforços que nossa mídia fez para melhorar a sua imagem, a maioria da população o rejeita e a seu governo. Sabíamos sobre as suas limitações, tanto que mandamos mensagem a ele que quem iria governar de fato seria o Ministro da Fazenda, mas como uma “eminência parda”. Não tínhamos outra opção, a menos que o golpe pudesse ficar bem mais caracterizado.

- Não se esqueça de explicar o que nos surpreendeu.

- Certo. Em parte por causa do mau ator que está na Presidência, mas também devido a uma resposta rápida de sindicalistas, movimentos sociais, associações de classe, artistas, intelectuais, partidos e militantes de esquerda ou nacionalistas, através da mídia alternativa, nossa trama começou a ser desmascarada.

- Não houve controle da mídia alternativa?

- Está-se tentando este controle, tanto que muitas delas estão pedindo suporte financeiro aos leitores. Consta que a única revista semanal de esquerda, Carta Capital, e uma das mais antigas revistas mensais de esquerda, Caros Amigos, correm o risco de sair do mercado. Vejam bem, essas mídias têm motivação ideológica, pois são capazes de quebrar a serem cooptados. Por outro lado, havíamos abandonado nossa mídia, porque eles, sentindo-se muito importantes, estavam reivindicando mais retorno. Nosso mau ator ou alguém que trabalha com ele estava criando dificuldades. Mas isso já foi corrigido e, como exemplo, a Globo e a Abril acabaram de receber quantias vultosas.

- Podemos ficar tranquilos que o pior já passou e a dominação continuará?

- Não. Por uma razão simples. A esquerda realmente tem o interesse de satisfazer a sociedade. Alguns de seus representantes andaram metendo os pés pelas mãos, para felicidade nossa. Assim, se são dadas explicações verdadeiras à sociedade, ela vai querer o que é melhor para ela. Nós precisamos de grande dose de criatividade para declarar objetivos, que não são os nossos verdadeiros, e conseguir ludibriar a população. No nosso caso, qualquer mínimo tropeço pode ser fatal. Por exemplo, o cidadão que colocamos na Presidência pensou em nos satisfazer e está propondo virar o Brasil de cabeça para baixo do dia para noite. Ele pensa que não existirá a solidariedade entre os desafortunados? Que não ficará óbvia a nossa trama? O pessoal que será prejudicado com os cortes na saúde se solidarizará com os que terão seus salários, pensões e aposentadorias comprimidas, ambos se solidarizarão com os estudantes que perderão uma boa educação, todos marcharão junto aos petroleiros em protesto contra a dilaceração da Petrobras e, por aí, vai. Está sendo provado que as esquerdas não se solidarizam só na cadeia. Solidarizam-se também em momentos de grande opressão, como o que está sendo providenciado, hoje, pelo mau ator e, também, pelo Ministro da Fazenda.

- Como assim?

- Vamos analisar, em detalhe, o momento atual. Foram mandados para o Congresso, simultaneamente, propostas de emenda à Constituição (PEC), projetos de lei (PL) e medidas provisórias (MP), sobre uma variedade de temas. Há a PEC que reduz os gastos públicos nos próximos 20 anos, permitindo cortes em orçamentos deste período, na educação, saúde, mobilidade urbana e outras áreas. Existe a MP que reformula o ensino médio. Acabou de ser aprovado o PL que “flexibiliza” a exploração do Pré-Sal. Fala-se muito da reforma da previdência, que certamente é o tema mais sensível de todos. Está-se providenciando também a reforma política, de enorme interesse dos próprios votantes desta reforma. Está na lista de espera também a reforma trabalhista, quase tão explosiva quanto a previdenciária, onde se ouve falar que o acordado irá prevalecer sobre o legislado. Para aumentar a confusão, o presidente do Senado ameaça colocar em pauta o projeto de lei relativo ao abuso de autoridade.

- E o povo o que acha?

- O brasileiro, que é um povo bastante dócil, não deve aguentar tanto massacre! Estas reformas são comunicadas, à exaustão, como sendo necessárias para a retomada do crescimento. Porem, esta retomada nunca virá por estas providências. Todas elas visam garantir os recursos para o pagamento de uma dívida, que talvez seja inexistente. Servem também para aumentar os lucros dos empresários à custa da pauperização dos trabalhadores. Como já foi dito, Meirelles é um homem de confiança nosso e ele acha possível a implantação deste plano tão excludente com essa rapidez. Houve discussão entre nós, pois uma corrente achava que este massacre iria acordar as massas brasileiras. Outros apostavam em que a nossa mídia iria camuflar tudo e o povo aceitaria o sofrimento na esperança de chegar algo, que verdadeiramente nunca ocorrerá. O comando resolveu aceitar a posição do Ministro. Enquanto isso, piorando o clima político, o ator desastrado fez mais, pois nomeou seu ministério sem nenhuma mulher e nenhum negro, deu aumentos polpudos para juízes e outras classes privilegiadas, enquanto o aumento do salário do povo era mínimo, nomeou ministros polêmicos, como o da Educação, que prega a “Escola sem partido”, dentre outras medidas.

- Mas, nos digam o que vai resultar de tudo isso?

- Esta pergunta é difícil de responder exatamente porque optamos pelo caminho mais rápido, com maiores incertezas. Tudo vai depender da conscientização do povo, que é função da capacidade de enganar da mídia tradicional, principalmente dos telejornais, grande influenciador da opinião das massas, da interferência da mídia alternativa na mesma formação de opinião das massas, do comportamento de grandes lideranças etc. Estamos tendo desavenças entre grupos de nossos apoiadores, todos com interesses nas eleições de 2018. Não podemos, com grande antecipação, apoiar qualquer grupo que deseja chegar à Presidência. Já apoiamos o PSDB no passado. Aliás, fomos responsáveis por sua chegada à Presidência com o perfeito plano de conquista do poder proporcionado pelo real. E, nesta época, o PSDB cumpriu todas as promessas que fez conosco. Agora, o PMDB passou a ter também um projeto de poder para 2018, possivelmente com o atual presidente. Este quer chegar em 2018 com todas as reformas que indicamos implantadas e exigir reciprocidade. Por isso ele tem pressa em fazê-las passar, para demonstrar competência.

- Mas, ele não é corrupto também?

- É o que um delator da Lava Jato diz! No Brasil, há muito tempo, tem corrupção na política com raras exceções. Em quase todos os partidos, há corruptos, sim! Nosso plano de chamar a atenção para os casos do PT deu certo. Não queremos mais o PT, nem Lula e nem Dilma no poder. E, sobre este tópico, existe uma versão errada: não queremos mais eles à frente do Brasil, não pela inclusão social que eles promoveram desde que ela não comprometesse as retiradas dos nossos investidores no Brasil. Não os queremos pelas iniciativas de soberania com desafio à nossa hegemonia. Paralisaram as privatizações. Elaboraram um Plano Nacional de Defesa, no qual os potenciais inimigos não eram mais os comunistas brasileiros, os narcotraficantes colombianos e o MST. Passaram a considerar como inimigas as Forças Armadas estrangeiras que buscariam se apropriar do Pré-Sal ou de área da Amazônia. Ousaram ter submarino nuclear, caças com o conhecimento da tecnologia e a ultracentrifugação de urânio. Participaram da criação dos BRICS. Aventaram a possibilidade de fazerem comércio só com as cinco moedas do bloco e, não, com o dólar. Criaram o Banco e o Fundo Monetário dos BRICS. Incrementaram o comércio com a África e com os países árabes. Participaram ativamente do MERCOSUL. Criaram a UNASUL e a CELAC. Colocaram-se como mediador entre o Irã e os Estados Unidos, quando deveriam nos apoiar. As empresas de engenharia brasileiras passaram a receber financiamento para os serviços vendidos no exterior, deslocando empresas norte-americanas. Criaram um novo marco regulatório para o Pré-Sal, quando deveria continuar valendo a Lei das Concessões. Enfim, o Brasil estava tomando posições de um nascente hegemon. E futuros competidores devem ser frustrados ao nascer, enquanto ainda são frágeis.

- E o tal juiz Moro e os procuradores de Curitiba? Onde ficam neste contexto?

- Eles fazem parte do sistema implantado. Está certo que eles tiveram e têm papéis fundamentais, que estão sendo bem desempenhados. Mas são só peças no tabuleiro.

- Uma pergunta que todos devem estar formulando. Com a nova administração Trump, tudo muda?

- Como representante do governo norte-americano, eu não sei lhe responder. Pensamos, inclusive, em cancelar esta reunião. Mas, como a havíamos convocado, há muito tempo, não quisemos mudar.

- Vocês pensaram que a Hillary iria ganhar! Mas o que vai acontecer agora?

- A partir de agora, abstraindo-se das eventuais novas diretrizes, dois caminhos poderão ser trilhados e eles se diferenciam pela percepção ou não da sociedade brasileira do que está ocorrendo. Se ela perceber, muito do que conseguimos até agora poderá ser perdido. No entanto, se continuarmos a ludibriar a sociedade, teremos a vitória total. E o Brasil será uma simples colônia.

[1] Não é indispensável, a leitura do artigo anterior “Reunião na CIA em janeiro de 2015”, disponível em: http://paulometri.blogspot.com.br/2016/08/reuniao-na-cia-em-janeiro-de-2015.html

02 novembro 2016

Escolha racional do modelo de exploração do Pré-Sal

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia

O mercado internacional do petróleo sofre com o desaquecimento da economia mundial. É influenciado por grupos relacionados a novas tecnologias, interessados em capturar fatias deste mercado. A magnitude das reservas descobertas no planeta impacta o mercado. O cartel dos países exportadores (a OPEP) e as grandes petrolíferas de países que não estão na OPEP são atores ativos neste mercado. Grandes petrolíferas internacionais disputam as reservas dos países socialmente desorganizados, militarmente fracos e politicamente dominados. Como consequência, há forte disputa geopolítica, relacionada à garantia do suprimento deste energético essencial no médio prazo. Assim, quem diz que o petróleo é uma simples commodity está querendo enganar.
Daniel Yergin [1], no livro “O petróleo, uma história de ganância, dinheiro e poder”, resume magistralmente a importância estratégica do petróleo: “A energia é a base da sociedade industrializada. E, entre todas as fontes de energia, o petróleo vem se mostrando a maior e a mais problemática devido ao seu papel central, ao seu caráter estratégico, à sua distribuição geográfica, ao padrão recorrente de crise em seu fornecimento – e à inevitável e irresistível tentação de tomar posse de suas recompensas (...) Ele vem tornando possível nossa vida cotidiana e, literalmente, nosso pão de cada dia, através de produtos químicos, agrícolas e dos transportes. Ele tem abastecido, ainda, as lutas globais por supremacia política e econômica. Muito sangue tem sido derramado em seu nome. A feroz e, muitas vezes, violenta busca pelo petróleo – e pela riqueza e poder inerentes a ele – irão continuar com certeza enquanto ele ocupar essa posição central. Pois o nosso é um século no qual cada faceta de nossa civilização vem sendo transformada pela moderna e hipnotizante alquimia do petróleo.
Atribui-se a John D. Rockfeller [2] uma citação do seguinte teor: "o melhor negócio do mundo é uma companhia de petróleo bem administrada, o segundo melhor negócio do mundo é uma companhia de petróleo medianamente administrada e o terceiro melhor é uma companhia de petróleo mal administrada". Ou seja, o setor de petróleo tende a render, em um horizonte de avaliação de médio prazo, lucros extraordinários. O problema das sociedades dos países onde reservas consideráveis de petróleo ocorrem é fazer fluir para a sociedade os lucros do petróleo e as oportunidades criadas pela sua existência.
Na História, pode-se constatar que alguns países com reservas de petróleo perderam a oportunidade de se desenvolver devido inclusive a modelos de exploração que não garantiam o fluxo do lucro e das oportunidades para a sociedade. Caso típico foi a exploração de petróleo durante anos na Venezuela, logo após a descoberta de petróleo neste país em 1928. As majors [3] pagavam subornos para o ditador Gomez e seus asseclas, que permitiam a exploração e a produção de petróleo, enquanto o Estado venezuelano nada recebia e, assim, a sociedade em nada se beneficiava. Infelizmente, este modelo de subtração de benefícios da sociedade não se restringiu à Venezuela, tendo ocorrido também com a Nigéria, o Sudão, a Argélia, a Indonésia, o Irã, o Iraque, a Líbia, dentre outros.
Não só pelo lucro proporcionado pela exploração do petróleo, mas também pelo poderio que ele acarreta, governos foram depostos, ditadores impostos, lideranças assassinadas ou exiladas, o ambientalista Ken Saro-Wiwa foi enforcado, guerras sangrentas ocorreram, etnias foram perseguidas, além de inúmeras outras atrocidades. [4] Há pouco tempo, o Iraque foi invadido por possuir, segundo Bush filho afirmava, arma de destruição em massa e financiar o terrorismo, o que se comprovou não ser verdade, mas a sua reserva de pelo menos 115 bilhões de barris foi entregue às empresas ocidentais de países financiadores da invasão.
Desta forma, é justo dizer que o lucro excepcional do petróleo do Pré-Sal pertence aos nascidos no Brasil, assim como, os demais benefícios derivados de sua existência devem gerar o máximo usufruto para os brasileiros. No entanto, “aves de rapina”, como bem disse Getúlio Vargas na sua Carta Testamento, trabalham incessantemente para ficar com a maior parte do lucro e dos benefícios. É da mesma carta o seguinte trecho: “Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma.” Proponho, como forma de se contrapor a esta usurpação, basicamente o uso da racionalidade.
A natureza “colocou”, no mínimo, 100 bilhões de barris de petróleo de boa qualidade, dentro do nosso território, na área do Pré-Sal, podendo chegar a mais de 170 bilhões de barris. O que se deveria discutir em relação ao modelo de exploração do Pré-Sal é, em primeiro lugar, como deve ser repartido o excedente petrolífero ou lucro líquido desta atividade. Mas devia-se discutir também se a atividade petrolífera deve ser usada para que metas de políticas públicas sejam atingidas. Os conservadores buscam encerrar a discussão proveitosa, manipulando o debate ao dizer somente que a abertura de mercado proposta por eles irá aumentar a produção de petróleo do país e o número de empresas atuando no país, sem provar que esta proposta é a melhor opção para a sociedade.
Existe um diálogo interessante em “Alice no país das maravilhas”, [5]entre Alice e o gato. Ela pergunta: “Para onde vai essa estrada?” O gato responde: “Para onde você quer ir?” Alice volta a dizer: “Eu não sei, estou perdida.” E o gato responde: “Para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve.” Trazendo este conceito para a disputa, atualmente cheia de camuflagem, sobre o melhor modelo de funcionamento para o setor de petróleo, pode-se dizer que, se não são conhecidos os objetivos deste setor, qualquer modelo serve. Assim, passo a sugerir os objetivos sociais, mostrados a seguir, como sendo os principais a serem alcançados pelo setor de petróleo, podendo ser chamados de objetivos do interesse nacional, e que servirão para avaliar os modelos de exploração das reservas de petróleo do país:
a)      Abastecer a demanda nacional de derivados e petroquímicos.
b)     Garantir um fluxo constante de recursos financeiros de vulto para o Estado, retirado do excedente petrolífero (lucro líquido).
c)      Exportar os excedentes da produção de petróleo, se eles estiverem com o maior valor agregado possível (derivados, produtos petroquímicos etc). Em situações especiais, a exportação de petróleo in natura pode ser aceita. Além disso, a qualquer momento, as reservas remanescentes devem ter a capacidade de abastecer o país por, no mínimo, os próximos 20 anos.
d)     Ativar a economia, através da maximização das compras locais.
e)      Aumentar a geração de empregos no país.
f)       Maximizar a encomenda de desenvolvimentos tecnológicos no país.
g)      Minimizar a saída de divisas do país, por exemplo, através da remessa de lucros.
h)     Nunca produzir petróleo de forma predatória.
i)        Garantir ao máximo a segurança operacional.
j)        Tomar todas as precauções para evitar danos ambientais.
k)      Permitir ao Estado brasileiro ter controle sobre a produção de petróleo do país, adequando-a a seus interesses.
l)        Possibilitar ao Estado ter efetivo conhecimento sobre o volume e os custos da produção, sem precisar montar apurado sistema de controle.
m)   Possibilitar ao Brasil a adoção de ações geopolíticas e estratégicas, o que só ocorre se o Estado brasileiro detiver a posse de parte do petróleo produzido.
Para exemplificar o uso desta metodologia, vai-se utilizar um caso real. Trata-se de comparar os dois modelos de contratos de partilha que estavam em discussão até bem pouco tempo: o contrato de partilha original, conforme a lei 12.351 de 2010, e este mesmo contrato modificado pelo projeto de lei 4.567 recém-aprovado. Então, as alternativas a serem comparadas são: (1) contrato de partilha com a Petrobras sendo a operadora de cada consórcio do Pré-Sal e participando, no mínimo, com 30% dos investimentos de cada consórcio e (2) contrato de partilha sem a obrigatoriedade de a Petrobras ser a operadora única do Pré-Sal e sem um limite mínimo de participação desta empresa nos consórcios.
Sob o ponto de vista do critério de julgamento do atendimento à demanda nacional (item a) pode-se dizer que tanto a alternativa (1) quanto a (2) podem atender igualmente à demanda nacional, apesar de que, em uma situação de escassez, a Petrobras terá maior compromisso com o abastecimento nacional. Também, as petrolíferas estrangeiras são incapazes de participar da constituição de um estoque estratégico para o país, que o abasteceria em caso de emergência, se uma escassez prolongada ocorresse. No entanto, a Petrobras participaria, ganhando, assim, a alternativa (1). Quanto ao critério da garantia de fluxo financeiro para o Estado (item b), as duas alternativas se diferenciam bem. Como a Petrobras não subfatura suas exportações de petróleo e não superfatura as importações de máquinas, equipamentos e materiais, como a Petrobras não usa providências expeditas para minimizar o pagamento de tributos, o que ela paga de tributos ao Estado é maior do que as petrolíferas estrangeiras pagariam, se estivessem no mesmo campo. Desta forma, a alternativa (1) é melhor neste critério.
Quanto às restrições à exportação de petróleo (item c), a alternativa (1) é certamente melhor, pois as empresas estrangeiras só querem retirar o máximo de petróleo do subsolo e exportá-lo in natura, à medida que precisam abastecer suas refinarias no exterior ou querem auferir lucro no curto prazo. Quanto à maximização das compras locais (item d), basta observar o passado para concluir que a empresa que mais compra no país é a Petrobras. Aliás, desde a quebra do monopólio e a entrada das multinacionais do petróleo no país, há 19 anos, só a Petrobras contratou plataformas no país. Esta é a razão porque é importante a Petrobras ser a operadora única do Pré-Sal, uma vez que a operadora é quem decide, dentre outras questões, as compras e, sendo a Petrobras a operadora, as compras serão realizadas no país. [6] Assim, quanto ao critério da maximização das compras locais, a alternativa (1), mais uma vez, é a melhor. Sobre esse item, argumentam sempre que os produtos e serviços locais são mais caros que os comprados no exterior. Em primeiro lugar, em todos os países, indústrias nascentes têm preços mais caros e são sempre protegidas pelo Estado. Depois, o setor do petróleo, assim como qualquer outro da economia, não pode ser visto de forma isolada. Todos eles têm influência nos demais e o que se deseja é o desenvolvimento da economia como um todo e, não, o desenvolvimento de um setor isolado. Assim, a compra pela Petrobras de determinado produto ou serviço um pouco mais caro pode ser muito melhor que comprá-lo no exterior, devido ao impacto causado na cadeia produtiva e na economia.
Quanto ao critério de julgamento das alternativas que fala da maximização da geração de empregos no país (item e), é preciso explicar que a fase de grande geração de emprego neste setor é a do desenvolvimento do campo, especificamente durante a construção da plataforma. A geração de empregos durante a prospecção e a produção é insignificante. Desta forma, quem compra plataformas no país é também quem mais gera empregos, sendo necessário, portanto, que a Petrobras seja a operadora de todos os consórcios do Pré-Sal para poder atender a este critério, o que significa que a melhor alternativa é novamente a (1). Quanto ao critério de julgamento da maximização da encomenda no país de desenvolvimentos tecnológicos (item f), mais uma vez, quem os contrata no país é somente a Petrobras. Então, se esta empresa for a operadora de todos os consórcios, que é o caso da alternativa (1), esta maximização estará garantida.
Quanto ao critério de julgamento da minimização da saída de divisas (item g), é preciso estar ciente que, se não for a Petrobras, o operador do campo será uma petrolífera estrangeira e todas elas irão remeter a sua parcela do lucro do empreendimento para a matriz no exterior, utilizando divisas na remessa. A parcela do lucro que fica com a Petrobras, retirados os dividendos aos acionistas e outros pagamentos, é reinvestido basicamente no Brasil, sem remeter divisas. Desta forma, a alternativa (1) novamente satisfaz melhor este critério. Quanto ao critério da proibição da produção predatória de petróleo (item h), é fácil compreender que a única empresa das atuantes no Pré-Sal que não é motivada a produzir predatoriamente é a Petrobras. As petrolíferas estrangeiras querem rapidamente realizar o lucro do negócio, pois este fato maximiza a rentabilidade. Só uma empresa do Estado pode colocar acima da rentabilidade, a recuperação máxima de petróleo do campo. Assim, a Petrobras precisa ser a operadora de todos os campos do Pré-Sal, que é a alternativa (1), para em todos eles não ocorrer produção predatória.
Quanto aos dois critérios de julgamento de maximizar a segurança operacional (item i) e de minimizar os impactos ao meio ambiente (item j), só uma empresa do Estado, que prioriza estes critérios acima da lucratividade do empreendimento, é que pode os satisfazer plenamente. Portanto, a alternativa (1) ganha em ambos os critérios.
O seguinte critério de julgamento refere-se a uma adequação da produção do país ao interesse nacional (item k). Suponha que, em determinado momento, só há petróleo conhecido para mais cinco anos de produção, pois as descobertas dos últimos anos não compensaram a produção destes anos. Se o modelo de organização do setor contemplar basicamente petrolíferas estrangeiras, elas seguirão o cronograma que traz a máxima rentabilidade, que inclui exportar petróleo, enquanto o modelo com a Petrobras irá se prender prioritariamente a objetivos nacionais, significando que a alternativa (1) vence. Com a Petrobras, na situação descrita, se houver produção visando exportação, dentro dos limites técnicos, ela será diminuída. Desenvolvimentos de campos visando exportação serão postergados e muitos recursos serão destinados à exploração. Por outro lado, o Estado ter controle sobre o volume produzido e os custos da produção é importante porque tributos e a parcela do óleo produzido pertencente ao Estado dependem deles (item l). Como a motivação principal das empresas privadas é a maximização do lucro, é normal que parâmetros que influenciam o lucro possam ser manipulados. A Petrobras não tem a mesma motivação para esta manipulação, significando a vitória da alternativa (1).
O último critério de julgamento avalia cada alternativa de organização do setor para verificar se o Estado brasileiro consegue adotar ações geopolíticas e estratégicas (item m). Se o Estado brasileiro entregar o petróleo para petrolíferas estrangeiras e, assim, não tiver a sua posse, ele não consegue realizar estas ações. Então, a alternativa (1) com a Petrobras à frente é melhor também neste critério. Neste ponto, os que buscam introduzir temas em discussões só para confundir, dizem de forma categórica que geopolítica não é algo que se deve considerar em questões objetivas, como a definição de um modelo de organização do setor de petróleo. Donde se conclui que o interesse pela manipulação leva a arrogâncias incríveis. É a hora de se perguntar, por exemplo, por que Hitler foi obrigado a invadir a União Soviética, quando ainda não estava bem preparado? Ou por que, como consequência desta invasão, Stalin discursou para as suas tropas, dizendo: "Lutar pelo nosso petróleo é lutar pela nossa liberdade"?
Pelo que foi analisado, sob todos estes critérios de julgamento, a alternativa (1) é melhor que a (2). Apesar deste fato, o projeto de lei 4.567 passou no Congresso porque outros interesses políticos de grupos o aprovaram. Ele é péssimo para a sociedade brasileira, como já vimos através da aplicação desta metodologia de análise de alternativas de organização do setor. Esta metodologia foi apresentada por mim na Audiência Pública da Comissão Especial de Julgamento do Projeto de Lei no 4.567, na Câmara dos Deputados, em 17/05/2016.
Em vez de participarem de um debate racional, os neoliberais e entreguistas, como sempre, com a intenção de roubar a riqueza alheia e se manterem no poder, e utilizando a desonesta mídia tradicional, não informam, além de mentirem para a população, que desta forma permanece omissa, permitindo a usurpação de seu futuro promissor. Mas os canais alternativos de mídia começam a iluminar as mentes, permitindo que haja esperança de conscientização.




[1] Presidente do Cambridge Energy Research Associates (CERA).
[2] Magnata norte-americano (1839-1937), fundador da Standard Oil e pioneiro da indústria do petróleo.
[3] São as grandes petrolíferas, basicamente privadas, que atuam internacionalmente. Muitas vezes, ocorrem fusões ou petrolíferas menores crescem, atingindo o status de majors. No momento, elas são a Exxon, a Chevron, a Shell, a BP, a Total, além de outras.
[4] Sugiro a leitura do artigo “’Caráter’ das petrolíferas estrangeiras”, sobre este tema, em: http://paulometri.blogspot.com.br/2015/08/carater-das-petroliferas-estrangeiras.html. Ele foi baseado no documentário “O Segredo das Sete Irmãs: A Vergonhosa História do Petróleo”, disponível na internet.
[5] Obra infantil de Charles Lutwidge Dodgson, publicada em 1865.
[6] Refiro-me à posição histórica da Petrobras. Se ela, hoje, tem um administrador alinhado com as posições das petrolíferas estrangeiras, prefiro imaginar que, com o tempo, este erro de nomeação será corrigido.