21 novembro 2018

Explicação

Sinto-me não atraído para escrever textos. Não sei por quanto tempo estarei neste estado.

Peço desculpas se, devido a esse fato, causo algum contratempo a alguém. Creio que não causo. De qualquer forma, este não é meu desejo. Simplesmente, não consigo.

Manterei este blog por causa dos textos antigos.

Até algum dia. Quem sabe?

Paulo Metri

19 setembro 2018

Por quê?

Paulo Metri

Por que nascem filhos sem pais?
Tristes os que dão vida por um fugaz, furtivo e esquecível momento.
Por que há fome, miséria e privação?
Tristes os que consomem e acumulam a mais valia usurpada de outros.
Por que alguém faz amor por dinheiro?
Tristes aqueles que doam o sexo ao não escolhido.
Mas, mais tristes os que compram o sexo alheio.
Por que o culto ao belo, se é desumano alguém nascer pouco dotado fisicamente?
Felizes aqueles que encontram o belo no invisível.
Por que alguns nascem mais inteligentes e espertos?
Deus ou a Natureza ou o Acaso queriam ver o fracasso e o sucesso?
Já que o conceito de beleza física é uma realidade gerada no ser ou transmitida, por que, novamente, Deus ou a Natureza ou o Acaso quiseram premiar uns e castigar outros?
Por que alguns são muito aquinhoados com dons e outros muito massacrados com defeitos?
Por que chamar as poucas opções que servem a uma pessoa de livre arbítrio?
Por que a ganância e a falsidade, se é tão mais simples ser fraterno e sincero?
Por que a insegurança e a carência fazem tantos sofrerem?
Por que “ganhar” sem a força de um ideal? Ou seja, por que emocionar para ludibriar?
Por que a luta pela sobrevivência, para muitos, é uma verdadeira grande guerra?
Nada temem os que nada têm, pois destes só a vida poderá ser suprimida e,
Se esta lhes for retirada, eles só deixarão de sofrer.
Por que os seres humanos tendem a não fazer outros sofrerem, só quando já sofreram também?
Bem aventurados os que, sem terem sofrido tanto, não geram sofrimento aos semelhantes.
Por que o acréscimo de produção devido a desenvolvimento tecnológico não é colocado à disposição dos mais carentes?
Por que a sociedade permite que o acréscimo de riqueza devido às descobertas tecnológicas seja destinado ao acúmulo capitalista?
E por que os pesquisadores que são responsáveis pelas descobertas não se rebelam?
Por que classes e, quanto mais, luta entre classes?
Por que o capitalismo, que gratifica com maior desenvolvimento material, fracassa ao carregar no seu código genético o egoísmo, a avareza e a impiedade?
Por que o socialismo traz também consigo o germe da busca do poder? E o do desprezo por acréscimos de produções materiais?
Por que a propalada “igualdade de oportunidades” é lembrada para seres que nascem com estruturas mentais e físicas diferentes? Não seria melhor “geração de oportunidades compatíveis com a estrutura de cada ser”?
Por que “não se produz segundo as próprias possibilidades e se consome segundo as suas necessidades”?
Por que a necessidade desta organização da sociedade, quando a elite econômica, que deveria ter uma das maiores responsabilidades, é tão irresponsável?
Por que um número razoável dos políticos não tem o mínimo grau de consciência social?
Porque foram eleitos por pessoas planejadamente despolitizadas e, portanto, manipuláveis.
Por que há a necessidade de lideranças, que frequentemente traem os liderados? Porque o sistema de governo anárquico, para o estágio atual de desenvolvimento da humanidade, não é viável. Um movimento contra lideranças, à medida que teria que ser liderado por alguém, seria um movimento natimorto.
Por que a morte de semelhante pertencente a outro povo, principalmente se este povo for considerado inimigo, não causa tanta comoção?
Por que existem diferentes nações, podendo algumas serem inimigas?
Por que a hegemonia de nações sobre nações?
Por que o desenvolvimento tecnológico bélico? Por que a produção de armamentos?
Por que a existência? Por que não o vácuo, a escuridão e o nada?
Por que tantas indagações?

Dezembro de 1996

05 setembro 2018

Tragédia anunciada ou planejada?

Paulo Metri - conselheiro do Clube de Engenharia e vice-presidente do CREA-RJ 

Nos dias atuais, ouve-se com frequência que o incêndio do Museu Nacional é uma “tragédia anunciada”. Pretendo mostrar que é mais que isso. Há requintes de sadismo.
Ignacio Ramonet, ex-editor do “Le Monde Diplomatique”, escreveu o memorável artigo intitulado "Angleterre, crise totale", na edição de abril de 2001 do jornal. Nele, Ramonet dizia que a epidemia de febre aftosa que se espalhava, naquela época, pelos campos britânicos, como toda epidemia, era consequência de um momento histórico preciso e não era por coincidência que estava acontecendo dentro de uma Inglaterra que foi utilizada, durante mais de vinte anos, como laboratório do ultraliberalismo.
Ele dizia, também, que as decisões que permitiram, além de febre aftosa, a doença da vaca louca, inundações, regiões bloqueadas sobre a neve sem eletricidade, catástrofes ferroviárias e outros acidentes ou eventos funestos foram tomadas conscientemente e se basearam em dogmas neoliberais precisos, como a desregulamentação. Segundo ele, nos anos 80, em governos da Sra. Margaret Thatcher, deu-se as costas ao princípio da precaução, aniquilando-se, por exemplo, a rede nacional de atendimentos veterinários.
Além disso, no dia 9/1/2018, o jornal “The Guardian”, um dos mais respeitados jornais da Inglaterra, publicou artigo sobre a atual opinião dos britânicos sobre privatizações e mostrando como a opção estatal está na moda novamente. “Transferir os ativos públicos da Grã-Bretanha para a propriedade privada e confiar apenas na regulação para garantir que eles fossem gerenciados para oferecer um interesse público mais amplo foi sempre uma aposta arriscada. Essa aposta não valeu a pena”, explica o artigo de Will Hutton, diretor do Hertford College, em Oxford, e presidente do Big Innovation Centre.
No artigo, o autor explica que não são apenas os números das pesquisas que representam uma queda geral na confiança dos serviços privatizados, mas há uma visão generalizada de que os exigentes objetivos de lucro anularam as obrigações de serviço público. O Estado mínimo se mostrou uma bomba-relógio social e os números da pesquisa na Inglaterra confirmam isso: 83% dos entrevistados são a favor da estatização da água, 77% a favor da estatização da eletricidade e gás e 76% a favor da estatização das linhas férreas.
Na edição de 18/01/2018 do jornal “O Globo”, pode-se ler na manchete principal: “Pais reduziu em 33% verba para prevenir epidemias”. Claramente, há uma relação causal entre os cortes de verba nos projetos culturais, científicos e sociais do governo neoliberal atual e o retorno da fome no país, da febre amarela, de doenças que há tempo não acometiam os brasileiros, a redução do ritmo das pesquisas científicas e tecnológicas, além do incêndio do Museu Nacional.
Não vamos nos comportar como a nossa mídia, que busca culpado pelo incêndio do Museu Nacional nos bombeiros, nos próprios administradores do Museu, na burocracia do BNDES, contudo, sem identificar o principal culpado. O culpado nunca identificado pela mídia, por esta ser desonesta, é quem assumiu o modelo neoliberal de gestão do país, no caso específico, os integrantes do governo neoliberal encabeçado por Temer. Este modelo prega desregulamentações, privatizações, o Estado mínimo, o término das compras locais, ou seja, um mundo ideal para empresas, principalmente estrangeiras, terem o máximo lucro e os indivíduos terem atendimentos de baixa qualidade, patrimônio coletivo usurpado ou incendiado etc.
Assim, pode não ter sido explicitado que o Museu iria pegar fogo, mas providências para que desgraças acontecessem foram tomadas. As próximas poderão ser o aumento da incidência de Aids, a queda de uma ponte, um surto de doença animal etc. Basta analisar onde os cortes orçamentários mais incidiram. Mas, estas desgraças foram providenciadas para poder sobrar recursos para pagar juros aos rentistas, o que é confortante. Finalizando, o que mais me estarrece é que, hoje, dos treze candidatos a presidente, seis são conhecidos neoliberais ou seus ministros da Fazendo, já escolhidos, são e algumas pessoas do povo os acham bons candidatos.

22 agosto 2018

Defesa para a sociedade estar protegida de quê?

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia e vice-presidente do CREA-RJ

O Comandante do Exército brasileiro, general Eduardo Villas Bôas, escreveu o artigo “Defesa para quê?”, publicado no jornal “O Estado de São Paulo” de 18 de agosto de 2018. Ao ler este artigo, constatei que existem compreensões diferentes para um mesmo termo quando observado por pessoas com diferentes visões de mundo. O conceito de “defesa” existente em todo o artigo do general Villas Bôas corresponde à estrita compreensão militar do termo. Entretanto, a defesa de uma sociedade requer outras providências tão ou mais importantes.
Cada defesa nos protege com relação a uma potencial insegurança. Assim, o primeiro passo será perguntar quais as inseguranças ameaçam os brasileiros e como passar a ser “seguro” nestas áreas. Infelizmente, a listagem das inseguranças dos brasileiros é imensa, podendo ser citadas as inseguranças alimentar, da saúde, educacional etc.
 Parcela razoável dos brasileiros, hoje, voltou a passar fome, não tendo, assim, segurança alimentar. Há uns 30 anos, se os Estados Unidos quisessem causar enorme dano à nossa sociedade, bastava promover um boicote à exportação de fármacos para o Brasil. A nossa soberania com relação à produção de fármacos era péssima. Melhorou muito até hoje e, em grande parte, graças à Fiocruz.
Foi descoberto o Pré-Sal na zona econômica exclusiva brasileira. Apesar de o presidente Lula ter conseguido passar no Congresso a lei da partilha, que beneficiava enormemente nossa sociedade, esta lei foi completamente desvirtuada pelos congressistas do mandato seguinte. Hoje, o petróleo é produzido no Brasil, mas a sociedade brasileira pouco usufrui dele. Quem mais lucra com ele são as petrolíferas estrangeiras. Assim, hoje, existe o “roubo legal” do nosso petróleo, demonstrando nossa sociedade estar indefesa.
Com a melhor das intenções, a nossa Marinha desenvolve o submarino de propulsão nuclear para dar segurança, também, às atividades offshore. No entanto, as petrolíferas estrangeiras nunca irão querer assaltar os campos do Pré-Sal, pois muitos destes já pertencem a elas com algumas exceções.
Concordo com a frase do general Villas Bôas, que diz: “o Brasil é um país onde não existe percepção clara de ameaças à sua soberania e aos seus interesses”. No entanto, minha compreensão da frase é outra, diferente daquela do general e que o levou a escrevê-la. Na minha visão, a grande mídia esconde do povo muitas das perdas em curso na nossa sociedade, ou seja, esconde as nossas áreas inseguras, nas quais precisamos de defesa.
Contudo, concordo que, pela grandeza dos nossos recursos naturais, precisamos de Forças Armadas que persuadam os inimigos, sem sombra de dúvida. Entretanto, não é correto planejar Forças Armadas eficientes sem planejar a erradicação da fome, a melhoria do atendimento de saúde etc. Outras eventuais funções das Forças Armadas são acessórias e não são aqui debatidas.
Mas, peço uma reflexão ao general Villas Bôas. Por que colegas seus de farda, mais de 70 anos atrás, os generais Horta Barbosa, Leônidas Cardoso, Felicíssimo Cardoso, Estilac Leal, José Pessoa, Estevão Leitão de Carvalho e muitos outros participaram com empenho da campanha “O Petróleo é nosso”? Nesta época, o Brasil não possuía uma gota de petróleo, enquanto, hoje, tem uma reserva de mais de 100 bilhões de barris. O que levou os generais do passado, além de visionários, a serem nacionalistas ferrenhos, sem serem xenófobos? Estes, se vivos estivessem, estariam indignados ou acomodados com a atual retirada do petróleo nacional?
Antes, aos generais da época de “O Petróleo é nosso”, teriam que ser explicadas as condições atuais desta retirada. Uma petrolífera estrangeira, depois de arrematar um bloco do Pré-Sal, procura petróleo e, como é de se esperar no caso desta área, o encontra. Ela contrata a engenharia, desenvolvimentos tecnológicos e a plataforma de empresas e institutos de pesquisa no exterior. Com isso, ela emprega muito poucos engenheiros, geólogos e trabalhadores em geral no Brasil. Como se pode perceber, compra-se quase nada no país.
Inclusive, atualmente, o conteúdo local não é mais exigido das petrolíferas. Se paga pouco tributo porque as petrolíferas receberam do governo Temer isenções por um período de 25 anos. O petróleo é levado bruto para o exterior. Não refinam o petróleo no Brasil. Qual seria o posicionamento dos generais da época de “O Petróleo é nosso”?

16 julho 2018

Inexorabilidade da contribuição nuclear

Paulo Metri

A British Petroleum (BP), petrolífera que atua no setor há 67 anos, publica anualmente o “BP Statistical Review of World Energy”. Este estudo contém dados sobre fontes e formas de energia, ao longo do tempo e por regiões. Esse esforço de levantamento de dados é meritório e contestações sobre a seriedade do levantamento não são ouvidas.

Estes dados permitem a elaboração da seguinte análise e o registro da uma tendência.

1)      As três fontes de energia, que mais contribuíram para a satisfação da demanda mundial de energia em 2017 foram petróleo, suprindo 34% da demanda global, gás natural, que supre 23% desta demanda, e carvão mineral, com 28% da demanda. As três fontes suprem 85% da demanda global. E estas três são combustíveis fósseis, que liberam, durante a queima, os gases do efeito estufa (CO2, CO, N2O, CH4 e outros) na atmosfera.
2)      O acordo de Paris sobre o clima estabelece que a liberação destes gases na atmosfera deve trazer o acréscimo máximo de 2 graus Celsius no aquecimento global em 2100, partindo-se dos níveis da era pré-industrial. Isto irá requerer um enorme esforço para a diminuição do consumo dos combustíveis fósseis que, na prática, ainda não começou a acontecer, bastando observar as taxas médias anuais de crescimento do consumo no período de 2006 até 2016 de petróleo, gás natural e carvão mineral, que foram 1,2%, 2,3% e 1,3%, respectivamente. Notar que, neste período, ocorreu o baque da economia mundial de 2008.
3)      No entanto, a taxa média anual de crescimento do uso da energia nuclear, no período de 2006 até 2016, foi de -0,7%, significando um decréscimo de sua participação. Lembrar que, no período em pauta, ocorreu o acidente de Fukushima, que impactou o setor. Contudo, mesmo sob o critério da “segurança da fonte geradora”, a tecnologia nuclear não deve ser excluída da competição por causa de Fukushima. Por outro lado, a geração nucleoelétrica não lança gases do efeito estufa na atmosfera, contribuindo para a solução do problema do aquecimento global.
4)      No período de 2006 até 2016, a energia hidráulica cresceu em nível razoável, ao valor médio de 2,9% por ano. A hidráulica lança pouca quantidade de gases do efeito estufa na atmosfera. Entretanto, esta fonte tem um teto máximo de disponibilidade.
5)      As demais fontes renováveis, retirada a hidráulica, são basicamente a solar e a eólica. Elas têm crescimento do seu consumo com a taxa média para o período em questão de 16,2% ao ano. Trata-se de crescimento promissor, restando lamentar a participação diminuta inicial no suprimento do consumo total. Também, estas duas estão em fase inicial de seus desenvolvimentos tecnológicos e ainda têm custos pouco competitivos. Obviamente, elas podem vir a contribuir muito.
6)      Outras fontes renováveis e a fusão nuclear ainda estão distantes de serem comercialmente aproveitáveis e, durante um período, não deverão contribuir. Outras ações, que não são substituições de combustíveis fósseis, podem também resultar na diminuição da emissão de gases do efeito estufa na atmosfera. Este é o caso da redução das “queimadas” que ocorrem no Brasil. Mas o maior impacto na atmosfera, a nível mundial, é devido à queima de combustíveis fósseis.
7)      Com este quadro e considerando os custos, desenvolvimentos tecnológicos ainda necessários, limites físicos para as expansões, que é o caso da hidráulica, restrições ambientais, questões de segurança operacional, aspectos geopolíticos, o que deverá acontecer no futuro é difícil de ser imaginado.
8)      É possível que a solução seja um conjunto de fontes, excetuando as fósseis, em que muitas das opções citadas estarão presentes. O pior que pode acontecer é não se dar a devida importância à questão e deixar o tempo passar, permanecendo-se imóvel. No entanto, uma “aposta com alta probabilidade de ocorrência” pode ser dita, se a decisão for séria: não há a possibilidade de não se considerar a contribuição nuclear.

Fonte: https://www.bp.com/content/dam/bp/en/corporate/pdf/energy-economics/statistical-review/bp-stats-review-2018-full-report.pdf

Julho/2018

01 julho 2018

Samba do branco doido

Paulo Metri

Nota preliminar: Nestes dias da Copa da Rússia, o governo Temer já publicou uma dezena de portarias sobre o horário dos servidores públicos. Elas, além de divergirem entre si, são também irracionais e incompreensíveis. Os próprios dirigentes de órgãos públicos, muitas vezes, não sabem o que exigir do funcionalismo. Sobre este assunto, recebi um whatsapp contendo o interessante texto a seguir. Quem me mandou garantiu que não sabia quem era o autor.

Bananal é um país, mas também um grande canteiro de bananas. Seus atuais governantes são uma mescla de representantes de interesses estrangeiros, coronéis do nordeste, coroinhas diabólicos do sudeste e sul, assaltantes do dinheiro público de todas as latitudes e poucos verdadeiros representantes do povo. Uma reunião ministerial acontece para tratar do ponto das repartições públicas nos dias de jogos da seleção.
O carrasco mor inicia a reunião:
- Como vai ficar o ponto destes insubordinados, carnes de pescoço, nos dias de jogos?
O carrasco da área de planejamento propõe:
- A proposta é fechar as repartições na hora dos jogos e, depois, os trastes compensam as horas não trabalhadas.
O único não carrasco, um fraco segundo os demais, colocado no grupo para efeito de propaganda, retruca:
- Eles vão ter capacidade de pagar estas horas não trabalhadas?
Um dos outros carrascos presentes:
- Daqui a pouco, você vai fazer o discurso que muitos estudam de noite, outros têm bicos para aumentar a receita, as mulheres têm a jornada caseira e ninguém pode compensar. Eles que se danem. Só querem mamar nas tetas do Estado.
O fraco pensa: “Quem não larga estas tetas são os empresários.” Depois, fala:
- Não seria possível deixar a repartição aberta para aqueles que querem trabalhar? Quem quiser ver jogo, falta e, depois, compensa.
- E os que vão assistir aos jogos no monitor do computador, fingindo que estão trabalhando? Temos que ser duros. Estes camaradas são uns exploradores.
O malvado mor decide:
- A redação será a proposta pelo planejamento.

*             *             *

Um dia depois da publicação da tal norma do ponto nas repartições, o carrasco do planejamento entra na sala do chefe, o mor, e diz:
- Começaram a pipocar decisões judiciais mandando abrir as repartições para quem necessita trabalhar para atendimento não interrompível do público, além de que alguns dirigentes de órgãos públicos deram uma interpretação para a norma dizendo que não precisa compensar a hora faltada para assistir aos jogos.
- Esses juízes de primeira instância, com honrosas exceções, são todos esquerdinhas. Não reconhecem que estamos colocando ordem nesta bagunça. Quanto aos dirigentes públicos que não nos apoiam, tome nota do nome deles. Vamos endurecer, faça um comunicado dizendo que a norma é esta mesma, mas poderão existir exceções dependendo da necessidade do serviço.

*             *             *

Nada como um dia após o outro para curar ressaca e arbitrariedades. O mor, o pior de todos, abri uma reunião, convocada às pressas:
- Fui aconselhado a fazer mudança na norma do horário dos servidores durante a Copa, porque, apesar de eu me lixar para a opinião pública, congressistas do nosso grupo estão preocupados com a repercussão negativa dela. Assim, reformulem a mesma para o horário dos jogos ser ponto facultativo e, obviamente, sem necessidade de compensação. Não haverá discussão. É só.

*             *             *

Dias depois, o fraco entra no gabinete do mor, esbaforido:
- Chefe, aconteceu o impensável. A nova portaria foi lançada na véspera de um jogo e as portarias demoram um dia para serem publicadas no Diário Oficial. Assim, têm servidores que faltaram devido à diretriz do dia anterior, que não valia mais, mas eles não tinham tomado conhecimento da nova. Que fazer?

*             *             *

Ouvi de um amigo, de certa feita, a seguinte afirmação: “o samba do crioulo doido pode ter uma letra disparatada, mas o ritmo e a melodia são bons. Já o samba do branco doido ...” Quando vejo o governo atual de Bananal, cheio de brancos, misóginos e sem representantes do povo, lembro, por analogia, da afirmação do meu amigo.

Junho de 2018

09 junho 2018

Dos 200 bodes na sala, um foi retirado!

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia e vice-presidente do CREA-RJ

O bode retirado da sala era um dos maiores algozes da nossa sociedade na atualidade, o autor de estrago descomunal que está sendo impingido aos brasileiros. A defenestração de Pedro Parente é um bom começo, mas não se pode considerar como o último ato do processo de expurgo.
Parente delapidava, impudicamente, o maior de nossos tesouros, o petróleo, dado por Deus ou movimentos geológicos, como preferir o leitor. Mas, temos que parar a comemoração, pois tirar Parente representou só uma batalha. É preciso ganhar a guerra, pois ainda falta muito para paralisarmos outras entregas e reconquistarmos o que já foi entregue.
Há uma tendência da sociedade, ao terminar um período de graves agressões da sua história, quando o capital investiu pesado em propaganda das teses neoliberais que lhe beneficiam, de se contentar com menos do que estava acostumada a usufruir, antes do ataque sórdido.
A propaganda intensa contra o monopólio estatal do petróleo desde os anos 1990 até os dias de hoje deixou a sociedade com a certeza que monopólio estatal é ruim para ela, o que não é verdade. Um setor no qual uma empresa privada tem o monopólio da oferta do bem ou serviço é o pior dos mundos, pois a ela está sendo dado o poder de fixar o preço do bem ou serviço. No entanto, o monopólio estatal em um governo compromissado com a sociedade é, ao contrário do que prega a mídia aliada do capital, o melhor dos mundos.
No setor do petróleo, para atuar em águas profundas, que é o recomendado pela geologia para o caso brasileiro, ou se utiliza petrolíferas estrangeiras ou a Petrobras. Não existem petrolíferas nacionais com capacidade para tal atuação. Então, a decisão importantíssima para a sociedade sobre qual agente econômico utilizar para a exploração de possivelmente sua maior riqueza mineral é comunicada, como ato consumado, em breves segundos dentro de um noticiário de televisão que valoriza a entrega de blocos de petróleo para empresas estrangeiras. E não imaginem que é incompetência do meio de comunicação, pois se trata de ato pensado.
Com o monopólio estatal pode-se, por exemplo, subsidiar um derivado de consumo popular, como o gás de botijão, ou um derivado que interfere na formação de muitos preços da economia, como o diesel. Pode-se também sobretaxar derivados consumidos basicamente por classes com maior poder econômico, como é o caso da gasolina, que também é utilizada principalmente para o transporte individual.
O uso do preço de alguns derivados para minimizar a péssima distribuição de renda do país é louvável. Economistas neoliberais consideram este fato como desorganizador da economia e chegam a dar como exemplo da desorganização acarretada, a notícia que milionários passam a aquecer suas piscinas com gás de botijão subsidiado. Esquece-se de dizer que a fração dos donos de mansões com piscina é ínfima e que a parcela dos que mudam para o aquecimento com o gás de botijão é pequena. Estes neoliberais querem ganhar a concordância da população com fatos de menor valor, mas que fazem sentido para uma pessoa não especialista.
Os neoliberais são contra o monopólio também com o velho argumento de que ele inibe a competição, geradora do menor preço para o consumidor. A competição perfeita, como é chamada a competição onde não há cartel, é uma abstração que existe basicamente em livros de economia ou nos discursos de economistas neoliberais para enganar incautos. O que os empresários mais querem é a formação de cartéis para poderem maximizar seus lucros.
O monopólio é também útil para a sociedade porque a empresa que o executa pode comprar mais bens e serviços no país, contratar mais engenharia e desenvolvimento tecnológico no país, empregar maior número de trabalhadores no país, ou seja, um setor monopolizado na economia de um país pode ser um forte indutor de desenvolvimento. Além disso, o petróleo pertencendo a uma estatal, pode ser usado pelo Estado nacional como fator de barganha em acordos internacionais.
O maior exemplo de quanto um monopólio estatal pode ser benéfico para a sociedade é a própria existência da Petrobras. A autorização para a União criar uma empresa para ser a executora do monopólio ocorreu junto com a criação do próprio monopólio, com a lei 2004 de 1953. Este monopólio foi extinto por iniciativa do então presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) com a mudança da Constituição e a aprovação da lei 9.478 em 1997. Contudo, a Petrobras continuou exercendo um monopólio de fato, por competência, e não o monopólio de direito, até o início do governo Temer. Este tem como uma das principais metas da sua ponte para o futuro do Brasil dominado por interesses externos, a transferência dos ativos da Petrobras.
Nestes 65 anos de existência, a empresa acumulou um patrimônio incalculável, como dezenas de refinarias, dezenas de milhares de dutos, centenas de campos de petróleo, uma estimativa conservadora de mais de 60 bilhões de barris de reservas até 2018, mais de dois milhões de barris por dia de produção e, por aí, vai. A Petrobras abasteceu o país, criou grupos de excelência em universidades, desenvolveu fornecedores nacionais, formou quadros valiosos e, o maior de todos os seus feitos, descobriu o Pré-Sal.
Quem de sã consciência acredita que, em 1953, se em vez do monopólio tivesse sido aprovada a abertura do país para as empresas estrangeiras, o que FHC fez 44 anos depois, teríamos hoje um país com tamanha riqueza? E com este grau de desenvolvimento? Isto porque o setor do petróleo entregue à Petrobras contribuiu para o bom desempenho da economia brasileira no período de 1953 a 1997.
Devido, principalmente, ao Pré-Sal, tramas foram arquitetadas alhures para se arrebanhar o poder no país, colocando testas-de-ferro para reinar, dando início, assim, ao processo de usurpação das nossas riquezas. A transferência de propriedade se faz, principalmente, através das petrolíferas estrangeiras.
É claro que, se o monopólio fosse continuar em 1997, mudanças também teriam que ser feitas como existir a possibilidade da Petrobras receber novas áreas sem ter que ocorrerem licitações. Outra correção necessária seria a criação de um imposto de exportação sobre os derivados subsidiados, para o subsídio não ir beneficiar intermediários exportadores destes derivados. E, a mais importante das mudanças, que consiste na minha única crítica ao monopólio que existiu. Os lucros da atividade petrolífera, que são grandiosos, não devem ficar só para a Petrobrás e os seus acionistas, sendo necessária a criação de um fluxo legal de tributo para levar recursos, diretamente, para a saúde e a educação, por exemplo.
Com esta visão abrangente, e prestando-se atenção ao debate existente hoje, quando metodologias de cálculo para os preços dos derivados são sugeridas, tenho a certeza que estão buscando aperfeiçoar uma solução já condenada ao fracasso. Entristece-me saber que continuam leiloando, criminosamente, grandes áreas de petróleo, o futuro da nossa sociedade, com o povo atento à seleção e à possibilidade de nova greve dos caminhoneiros. Por último, não me recordo de nenhuma greve de caminhoneiros durante os 44 anos em que existiu o monopólio estatal do petróleo.

28 maio 2018

Greve dos caminhoneiros

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia e vice-presidente do CREA-RJ

Os caminhoneiros, corretamente, não querem ser a “variável de ajuste” das decisões erradas tomadas no setor do petróleo. Ou seja, eles não querem ter rendimentos baixos para que os investidores da Petrobras tenham bons dividendos, nem tampouco para que a Petrobras seja vista como muito atrativa no futuro quando chegar o momento em que os entreguistas neoliberais do atual governo irão querer privatizá-la.
Essa questão é relacionada também com a dúvida da Petrobras ser uma empresa que visa atingir interesses sociais ou se ela deve se comportar como uma empresa privada. Neste momento, algumas pessoas alegam que ela, agindo como empresa privada, irá dar maior lucro ao Tesouro e evitará o seu uso político. Contudo, considerando que a população brasileira tem baixo índice de politização, a mídia, que deveria promover esta politização, está do lado do capital e contra a sociedade e, finalmente, as agências reguladoras, que poderiam forçar o atendimento dos interesses da sociedade, são dominadas por aqueles que deveriam ser regulados, concluímos que só uma empresa estatal tem condições de ser uma verdadeira empresa de interesse social. E qual maior uso político pode existir do que o de forçá-la a entregar patrimônios a preços vis para concorrentes?
A questão tem, também, como pano de fundo se subsídios devem existir em uma economia. Mais uma vez, alguns desavisados, grandes repetidores de colocações ouvidas nas televisões, dizem que os subsídios desorganizam a economia e que só governos populistas com objetivo de obterem votos, os acolhem. Eles não reconhecem que, muitas vezes, o preço de um produto essencial está muito acima da capacidade de pagamento de um pobre e não subsidiá-lo significará o não consumo do bem pelo pobre.
Assim ocorre com o gás de botijão. O preço atual exclui uma fatia expressiva de antigos consumidores, que precisam do bem para cocção de alimentos. A consequência da elevação desmedida do seu preço é que antigos consumidores começam a derrubar árvores para substitui-lo por lenha. É verdade que, em um país com um salário médio dos trabalhadores digno e que não haja má distribuição de renda, os subsídios podem não existir. Entretanto, o Brasil tem uma péssima distribuição de renda, além de ter miseráveis. Desta forma, o subsídio ao gás de botijão nada mais é que uma contribuição para a melhoria salarial dos mais pobres, que são os grandes consumidores do botijão.
O diesel deve ser subsidiado também por ser um derivado cujo consumo influência basicamente todos os preços da economia, além do impacto direto no transporte urbano de passageiros. Assim, seria muito desejável ter na nossa economia a vantagem competitiva em relação a outras economias do diesel ser mais barato que o seu preço internacional, além da população poder consumir bens e serviços com preços em conta. Isso poderia ser feito com certeza se o Pré-Sal não estivesse sendo doado para petrolíferas estrangeiras e se a Petrobras tivesse sido preservada como uma empresa integrada, de forma a maximizar seu ganho. Desta forma, ela arcaria, sem dificuldade alguma, com este subsídio de grande impacto positivo para a população.
Como o governo Temer está em um processo açodado de entrega das nossas riquezas, fica difícil haver uma solução para a greve. Há necessidade de se criar um Fundo abastecido por tributos pagos por nós para compensar qualquer cala-boca prometido aos caminhoneiros. Estes fazem greve por interesse próprio, mas expõem didaticamente os malefícios do modelo e do governo entreguista. Espero que o povo compreenda, agora, o verdadeiro roubo em execução no Brasil, vá para rua reivindicando a decapitação dos ladrões instalados no poder e a mudança do modelo, eleja quem irá verdadeiramente protegê-lo e apoie o referendo revogatório dos roubos travestidos em operações regulares para a sociedade receber de volta suas propriedades, hoje em mão de receptadores.

15 maio 2018

Ato jurídico perfeito

Paulo Metri

Creio que estas três palavras serão muito ouvidas em um futuro próximo. Não sei quem será o presidente eleito, mas tenho esperança que não será nenhum dos conservadores que já se lançaram. As três palavras serão muito ouvidas, se um candidato de esquerda ganhar a eleição. Não preciso dizer que é para esta opção que torço.
As ações destrutivas que o governo Temer promoveu e quer continuar promovendo até o último minuto do mandato, na economia e na sociedade, é descomunal e não tem algo comparável na história. A opção clara deste governo é pelos donos de capital. Assim, no momento em que o novo governo de esquerda buscar revogar os atos antissociais tomados, vão dizer que eles são atos juridicamente perfeitos e, como tal, não podem ser cancelados.
Tais atos podem resultar, apesar de estarem seguindo à risca todos os ditames jurídicos, em decisões socialmente injustas. Neste ponto, peço vênia aos doutos juízes para dizer que não há como desprezar as repercussões econômicas e sociais das decisões. Neste ponto, sempre é retrucado que: “se decisões diferentes são desejadas, dever-se-ia ter providenciado junto a legisladores e mesmo junto ao Executivo, a aprovação de nova legislação que levaria às decisões almejadas”. Segundo os mesmos, “a alternativa, que é desvincular as decisões do arcabouço jurídico existente, é inadmissível”.
A rápida mudança deste arcabouço, requisito fundamental para poder suplantar o impasse, parece ser impossível. Por outro lado, quanto mais tempo esta mudança demorar, maior será o dano causado pelos atos jurídicos perfeitos. Alguns juristas alegam que processos argumentando preços vis aplicados por Parente na alienação do patrimônio da Petrobras poderia reverter algumas decisões. Mas queremos que sejam revogadas todas as decisões e rapidamente. Têm sido sugeridos os referendos revogatórios que, se resolverem a questão, serão muito bem-vindos. Mas, parece que trarão grande embate jurídico.
O problema é que, nos anos Temer, legisladores corruptos se venderam ao capital e aprovaram leis que trazem, na sua aplicação, grandes impactos sociais negativos. O Congresso Nacional, em um dos seus piores mandatos, aprovou leis a pedido de grupos corruptores. Não é por outra razão que se chega a propor uma nova constituinte para se recuperar a racionalidade social, já que a Constituição brasileira foi toda desonestamente desfigurada.
Pode-se recuperar as perdas devido a governos antissociais, a exemplo do que ocorreu em outros países. A Rússia sofreu um ataque à sua soberania com a ascensão de Yeltsin à Presidência, onde permaneceu por oito anos. Putin e Medvedev o sucederam e conseguiram recuperar o orgulho russo e muitos patrimônios nacionais que tinham sido golpeados.
Outro exemplo de “virada do jogo”, que ocorreu no mundo, foi na Venezuela protagonizada por Hugo Chávez. Seus antecessores embolsavam a renda petrolífera e a população não usufruía quase nada com o fato do petróleo existir no país. Chávez reformulou os contratos e conseguiu fazer esta renda fluir para benefício da população, resultando na sua forte aceitação popular.
Mas, para seguir os exemplos da Rússia e da Venezuela, onde a sociedade tomou o poder de testas-de-ferro do capital, é preciso haver apoio explícito e contundente da sociedade. Ou seja, o povo na rua resolve o problema. Povo contestando o monopólio da informação, que só fornece dado errado ou castrado. Se não fossem as redes sociais, o povo estaria hoje anestesiado. Povo reclamando de juízes tendenciosos, que ouvem com máxima aceitação os apelos do capital, quando bastam convicções para o julgamento dos que se rebelam contra a exclusão. Povo consciente de seus direitos, que deixa claro o que quer e o que não quer. Povo esbravejando contra legisladores corruptos que aprovam leis antissociais. Povo que exige respeito de políticos, empresários, juízes, legisladores e de membros do Executivo e do Ministério Público. Afinal de contas, no livrinho pode-se ler: “todo poder emana do povo”.

08 maio 2018

Quanto ódio!

Paulo Metri

Tem algo mais odioso do que o ódio?
Trata-se de sentimento destrutivo.
Apesar de se destinar aos outros,
Corrói nosso coração e a nós mesmos.

Odeio os políticos enganadores,
Que odeiam seus eleitores
Por eles não aceitarem dar o voto
Sem receberem nada em troca.

Repartir rendimentos gera ódio.
Por que não se entra em acordo?
O que é mais importante:
O capital ou o trabalho?

O misógino, o pedófilo e o torturador,
São seres odiosos. Ódios merecidos.
A fera é perdoada, pois precisa sobreviver.
Tem que cumprir a cadeia alimentar.

É odiento quem usurpa a informação,
Incita ódio gratuito aos lideres do povo,
Induz o aumento da exclusão e
Abastece o ódio de classes. Quanto ódio!

Maio de 2018

09 abril 2018

Dissertação sobre roubos

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia

Muitas pessoas ficam estarrecidas, com razão, com o roubo no setor público. No entanto, existem roubos, tão ou mais estarrecedores, nunca denunciados pela mídia e, como consequência, não conscientizados pelo público. Tratam-se dos “roubos legalizados”, por serem instituídos por lei.
Um primeiro exemplo dos “roubos legalizados” é o ato de um governante não tomar as providências para poder cortar os juros da dívida e, em compensação, fazer cortes na educação e na saúde, significando um roubo no bem-estar social. Mas, este governante não está fazendo nenhuma ilegalidade. Chega-se, assim, à triste conclusão que o nosso arcabouço legal permite a tomada de decisões antissociais. A população mais carente é a que mais sofre com estes cortes.
Outro exemplo dos “roubos legalizados” é o fato que a classe rica paga menos tributos, percentualmente, que a classe pobre, caracterizando um roubo aos menos afortunados.
O Congresso Nacional aprovou, recentemente, o perdão da dívida dos ruralistas. Se estas fossem pagas, mais recursos estariam disponíveis para educação e saúde. Enfim, este perdão de dívida representou um “roubo legalizado” de verbas que beneficiariam os mais carentes.
Ainda na linha de poderes que renunciam a receitas garantidas da sociedade, o presidente da República concedeu isenções tributárias para as petrolíferas estrangeiras totalizando um trilhão de reais em 25 anos. Certamente, o produto deste “roubo legalizado” fará muita falta para os programas sociais.
Desta forma, a mídia só divulga os “roubos fichinhas”, basicamente de servidores do Estado de não tão alta hierarquia, ligados a políticos. Estes roubos são também recrimináveis, mas de grau de importância inferior. Os “roubos superiores” são ligados a fortes grupos econômicos e políticos, controladores da nossa mídia tradicional e, por isso, a sociedade nunca é informada sobre eles.
Roubos como o que ocorreu na Petrobras sempre existiram e existirão com maior ou menor intensidade, quer seja um governo de direita ou de esquerda. Os governos devem tomar medidas de prevenção para estes roubos menores, que diminuirão a sua intensidade, mas nunca serão extintos por completo. Por outro lado, deve-se buscar combater os “roubos superiores”, com o máximo rigor, apesar da grande blindagem deles, pois os prejuízos para a sociedade são imensos.
Grupos econômicos e políticos, a mídia e uma ala corrompida do Estado, em cínica ironia, aproveitam o forte apelo emocional do combate à corrupção para eleger seus candidatos com discursos anticorrupção, sendo, a maioria deles, corruptos. Em 1954, Getúlio era o presidente. Estas forças, encabeçadas por Carlos Lacerda, o acusavam de forma impiedosa de inundar a administração pública com um “mar de lama”. Quando, na realidade, Getúlio combatia os grandes roubos à nossa sociedade, descritos por ele próprio, em sua carta testamento, na citação às “aves de rapina”.
Em 1960, foi eleito como presidente Jânio Quadros com a promessa de “varrer a corrupção” da política nacional. Em 1989, Collor elegeu-se presidente com o discurso da “caça aos marajás”, quando, tempos depois, ele veio a perder seu mandato por corrupção. Este tema recorrente serve, agora, para afastar Lula da política nacional, sem nenhuma prova que o vincule a algum roubo.
Enquanto isso, estas forças se preparam para lançar candidatos a presidente que irão permitir os grandes roubos acontecerem, como as privatizações da Eletrobras, Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica, a venda de blocos do Pré-Sal por preços irrisórios e vendas de fatias do patrimônio da Petrobras na bacia das almas, o que compõe também algumas das ações atuais do “roubo legalizado”.
Finalizando, notar que todos os que, para chegar ao poder, prometem limpar o “varejo da corrupção”, na realidade, irão apoiar o “atacado da corrupção” e, além disso, eles não têm um projeto de nação soberana para o Brasil e não querem a inclusão social.

28 março 2018

Petrolíferas estrangeiras ou a Petrobras na exploração do Pré-Sal?

Paulo Metri - conselheiro do Clube de Engenharia e vice-presidente do CREA-RJ

A avaliação de um atendimento à sociedade requer a comparação com formas alternativas deste atendimento. Assim, o impacto na sociedade brasileira da atuação de empresas estrangeiras no Pré-Sal deve ser comparado com o impacto da atuação da Petrobras no Pré-Sal. Não existem empresas privadas nacionais que possam atuar no Pré-Sal e servir para comparação. Objetivamente, serão analisadas as atuações das petrolíferas estrangeiras e da Petrobras na exploração do Pré-Sal que trazem impactos diferenciados para a sociedade.

Atividades de conquista das tecnologias necessárias à exploração, apesar do Brasil ser um país com atraso em desenvolvimento tecnológico, devido à atuação da Petrobras no Pré-Sal ser de sucesso, tais atividades podem ser a ela designadas. As petrolíferas estrangeiras também podem desenvolver tecnologia, mas irão cobrar caro por sua capacitação, o que repercutirá no lucro e, assim, diminuirá o tributo deixado para o Estado brasileiro. Além disso, as tecnologias desenvolvidas por elas ocorrerão em seus países de origem e, portanto, o Brasil não deterá estas tecnologias.

Indústrias nascentes com conteúdo tecnológico, futuras fornecedoras do Pré-Sal, devem obter incentivos visando o desenvolvimento tecnológico. A Petrobras pode ser a fomentadora destas indústrias, tarefa que já desempenhou no passado. As petrolíferas estrangeiras não irão desenvolver empresas de cunho tecnológico no país. Irão comprar dos seus tradicionais fornecedores e aliados no mercado internacional.

A Petrobras é quem compra plataformas no Brasil. A plataforma, além de representar mais de 80% dos investimentos, durante sua construção é que ocorre o grande emprego de mão de obra do empreendimento. As petrolíferas estrangeiras não compram plataformas no Brasil.

As alternativas do modelo de organização do setor não devem somente garantir que o petróleo será produzido e os tributos serão pagos. Devem gerar empregos no país, inclusive os de qualidade, desenvolver fornecedores, desenvolver tecnologia em centros de pesquisa do país, comprar materiais e equipamentos em fornecedores locais, melhorar o nível de segurança das atividades petrolíferas e trazer o impacto ao meio ambiente ao mínimo. A Petrobras satisfaz melhor todos estes critérios de avaliação que as petrolíferas estrangeiras.

Qualquer atividade econômica geradora de lucro excepcional, como é o caso da atividade petrolífera, deve ser reservada para o Estado. Entretanto, diferentes concepções ideológicas se confrontam com relação à apropriação da renda petrolífera. Aqueles com posições socialmente comprometidas argumentam que os recursos naturais de uma sociedade só a ela pertencem e não a agentes econômicos. Os liberais econômicos creem que a empresa privada pode ter a atividade, gerar o lucro exorbitante antes da tributação e, depois, uma parcela deste lucro é abocanhada através de tributo. No entanto, no mundo real, governos dão isenção de impostos, lucros menores são obtidos com artimanhas contábeis etc.

Liberais argumentam também que o petróleo é uma mera “commodity” e, portanto, sua produção pode ser entregue ao setor privado. Aí, foi desprezada a importância geopolítica do petróleo. Também, a Petrobras não deve seguir a recomendação de liberais, de se especializar em exportar petróleo bruto. Ela pode produzir petróleo acima da necessidade do Brasil, refinar o excedente e exportar os derivados, com maior valor agregado. Para finalizar, a agência reguladora do setor, que deveria proteger a sociedade, infelizmente não o faz. Estas agências no Brasil, de uma forma geral, foram “capturadas pelo mercado”, significando o fracasso do modelo.

A organização do setor de petróleo, visando maximizar os benefícios para a sociedade, é função também do grau de consciência política da sociedade. O caso brasileiro de agências reguladoras capturadas pelos entes a serem regulados mostra a nossa baixa consciência política. A mídia convencional existente no país, com interesses escusos, é a grande responsável por este baixo grau de consciência política.

Todas as petrolíferas internacionais foram para o Mar do Norte, nos anos 1970, a convite do Reino Unido e da Noruega. O Reino Unido determinava, para cada campo, materiais e equipamentos que seriam adquiridos localmente. A Noruega decidia, para cada bloco petrolífero, se a Statoil iria entrar e com que participação. Nenhuma petrolífera reclamava. Os decisores públicos eram livres para agir como quisessem, mas nunca agiam de forma antissocial. A consciência política deles não deixava.

Um novo governo brasileiro deveria buscar corrigir os erros recentemente cometidos por visão entreguista, tentar reaver junto às petrolíferas estrangeiras os prejuízos, que elas sabiam estar causando, receber de volta muitas das vendas de patrimônios por preços vis realizadas, fazer a Petrobras voltar a ser uma empresa integrada e induzir nosso crescimento econômico e social.

23 março 2018

A mídia do capital prejudica a sociedade

Paulo Metri

O julgamento, em 22/3 último, da admissibilidade do habeas corpus impetrado pelos advogados do presidente Lula ao STF, foi esclarecedor para quem ainda tinha alguma dúvida sobre a assunção de posição política pela “mídia do capital”. Esta é composta pelos canais de TV abertos e alguns pagos, as rádios associadas, os principais jornalões e a quase totalidade das revistas semanais.

A repórter de determinado canal interrompia a programação à medida que cada juiz do Supremo acabava de proferir seu voto. Ao interromper, ela desfechava, de passagem, o veredito do canal, mais ou menos, da seguinte forma: “interrompemos para noticiar o julgamento do STF, que trata da possibilidade do presidente Lula já ser preso no próximo dia 26, quando os recursos apresentados por seus advogados serão julgados no TRF4”.

Eu diria que a repórter, por sinal, muito bonita, bem representava a esperança do canal que era a de poder transmitir o presidente Lula sendo preso. Isto é revelador, porque deixa claro que o canal não considera como valioso o princípio da “presunção da inocência”. Não seria de estranhar, se a repórter dissesse algo como: “O presidente Lula está querendo postergar a data da sua prisão, ao máximo, na tentativa que ocorra algum fato político, como um levante popular, que leve a justiça à situação em que, de alguma forma, ela permita a sua candidatura.

O princípio da “presunção da inocência” nos engradece como espécie, porque só iremos imputar a culpa a alguém depois da investigação ter terminado e não houver mais dúvida sobre a culpabilidade do réu. Se assim não for, estaremos usando a justiça para atingir objetivos políticos ou pessoais, o que é, em ambos os casos, deplorável. Pode ser argumentado que, no nosso código penal, existe a possibilidade de colocação de muitos recursos, o que posterga em demasia o “trânsito em julgado”. Então, que se atualize este código, mas, não se faça um by-pass no processo, para apressar o veredito final, estuprando o princípio da “presunção da inocência” e, por conseguinte, a Constituição.

Passado algum tempo, mudo de canal e paro em um no qual está falando um comentarista, que diz algo como: “A prisão logo após o término da segunda instância demorou muito mais anos sendo utilizada que a prisão só após o ‘trânsito em julgado’. Este só durou de 1988 até 2016.” Claramente, o canal em que ele trabalha está fazendo malabarismos para criticar a decisão do Supremo. Se o conceito expresso pelo comentarista fosse o definidor da atratividade da lei, a lei áurea deveria ser revista porque passamos mais tempo no Brasil tendo a escravidão que o período em que ela foi abolida.

Canais de mídia no Brasil têm opinião política, o que pode ser feito, desde que assumam sua posição e não busquem dizer que são isentos. Eles pensam que enganam seus leitores, ouvintes e espectadores, mas muitos deles entendem as artimanhas que são feitas. Está de parabéns a “Carta Capital” que tem partido e o declara abertamente. De qualquer forma, algumas pessoas com baixo nível de conscientização política embarcam, infelizmente, na ficção que a mídia do capital conta.

14 março 2018

Decisão portadora de futuro

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia

A cada dia, todos nós dedicamos um pouco de tempo para escolher a roupa que iremos usar. Se a pessoa vai comprar algo de valor, por exemplo, uma casa, é comum verificar se existe condição financeira para arcar com as despesas, se o valor de venda dela no futuro é compensatório etc. Então, peço que reflita junto comigo sobre a sua decisão em quem votar em outubro próximo.
A minha ousadia ao buscar interferir no seu voto é porque o futuro de todos nós vai depender do conjunto dos nossos votos. Que sua escolha influencie o seu futuro é justo, mas o problema é que ele influencia o meu também e o de toda a coletividade. No período eleitoral, existem muitos caçadores de voto, alguns, bem intencionados, com interesse em contribuir para a sociedade e, outros, com interesse único de usar o cargo eletivo em benefício próprio ou do seu grupo.
Esteja consciente que seu voto não pode ser comprado e ninguém pode fazer chantagem com você para poder obtê-lo. Contaram-me que políticos conseguem até marcar operações em hospitais públicos, furando a fila de atendimentos, em troca de voto. Neste caso, não vou querer influenciar o seu voto porque quem está sofrendo é você. Mas este político é desonesto, porque quem pode definir a ordem das operações são os médicos que conseguem avaliar a gravidade de cada caso. Aliás, este político deve lutar para que as filas nos hospitais nunca acabem, pois elas são compostas de eleitores prontos a negociar o voto.
Estes “compradores de votos” não têm nenhum compromisso com a sociedade. Além disso, muitos deles são enganadores, já que prometem empregos e muito mais, e quando eleitos, não cumprem. Muitas vezes, porque, mesmo com o mandato, eles não têm como cumprir o prometido. Desta forma, não negocie seu voto com políticos que oferecem dinheiro ou benesses. O nosso futuro nunca vai ser melhorado através deles.
Para escolher em quem votar é necessário algum estudo, principalmente porque os maus-caracteres procuram dissimular sua má intenção. Alguns conselhos podem ajudar neste processo de separação do joio do trigo. Busque ver o currículo do candidato. Veja se ele já teve mandatos eletivos e, se teve, que projetos apresentou, como votou os diversos projetos, quantas sessões ele faltou, quais foram seus discursos na tribuna, que artigos escreveu e quem o recomenda. O Google não deve ser considerado como uma fonte fidedigna, mas coloque o nome do candidato lá, pois podem aparecer surpresas.
Tem-se mais trabalho quando o candidato nunca teve um mandato. Mas, de qualquer forma, ele teve um passado. A opinião sobre qualquer candidato, que tenha tido mandato ou não, será sempre baseada no passado do próprio, o que nos ajuda a deduzir como ele se posicionará no futuro. Não confie em currículos feitos pelos próprios candidatos. Desconfie dos candidatos muito citados nas televisões, rádios, jornais e revistas, porque o poder econômico deve estar querendo inflá-los ou queimá-los.
Busque obter informações sobre como pensam estes candidatos sobre os temas que você julga relevante. Por exemplo, o que pode ser feito para combater o desemprego? Como ele se posiciona com relação à pretendida reforma da previdência? Ele apoia a reforma trabalhista recém-aprovada? Se todos os eleitores votarem cumprindo as recomendações citadas, certamente o nosso futuro será bem melhor, pois teremos políticos com mandatos que serão verdadeiros representantes do povo. Ou seja, o voto consciente traz um futuro melhor.