21 maio 2019

Planejamento do setor elétrico *

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia

É comum serem ouvidas frases como, por exemplo: “a energia elétrica gerada a partir da fonte eólica é mais atrativa do que aquela gerada por uma usina nuclear, bastando ver os respectivos custos de geração”. Proponho-me a mostrar que o planejamento do setor elétrico deve levar em consideração outros aspectos, além da simples comparação dos custos de geração. Inclusive, o próprio cálculo do custo de geração deve ser repensado. A seguir, tenta-se explicar estas afirmações.

1 - Os aproveitamentos hidráulicos

Cada aproveitamento hidráulico é único, tendo vazão, altura da queda d’água e necessidade de barragens para formação do lago, diferentes. Assim, não há a possibilidade de se falar em módulo de energia hidráulica. Já a geração térmica a combustível fóssil ou biomassa, a nuclear, a eólica, a solar, além de outras são modulares. Desta forma, qualquer comparação com a geração hidráulica se dá através da escolha de um aproveitamento específico.

Para as energias que se expandem através de módulos pode-se falar em custo daquela energia, enquanto para a eletricidade de origem hidráulica fala-se do custo da energia gerada em cada hidroelétrica, especificamente. É comum ouvir-se: “a energia hidroelétrica é a mais barata de todas”. Seria mais preciso ouvir: “aproveitamentos hidráulicos geradores de energia elétrica competitiva existem em grande número”.

No planejamento elétrico, as gerações hidroelétricas, para serem comparadas a outras opções de geração, precisam ter o seu custo composto do custo da geração mais o custo da respectiva transmissão. As hidroelétricas, na maioria das situações, estão distantes dos grandes centros consumidores e, assim, o custo da transmissão as penaliza. As gerações eólica e solar também requerem o mesmo cuidado.

2 – O conceito de energia firme

Este conceito é bastante natural. Se a disponibilidade de uma fonte geradora é variável e em função da ocorrência de eventos da natureza, como chuvas, insolação e ventos, ela terá menor possibilidade de geração firme. O mercado consumidor demanda energia firme e, não, energia sujeita a intemperes. A eólica e a solar são fontes de geração intermitentes, pois podem ocorrer calmarias ou nuvens encobrindo o sol, o que acarreta oscilações na geração durante o dia. São também sazonais, porque a intensidade do vento ou a insolação são variáveis durante o ano. A hidroelétrica é sazonal devido à variação pluviométrica durante o ano ou de um ano para outro. Nestes casos, a energia firme a ser gerada é sempre descrita com uma probabilidade de ocorrência do valor. As térmicas movidas a combustível fóssil e a biomassa, e a nuclear geram energia firme.

As fontes intermitentes e sazonais precisam ter unidades de sobreaviso, de preferência de energia firme, ou mesmo outra intermitente ou sazonal. É possível saber, através de cálculo estatístico e baseado em dados históricos, qual é a curva provável de geração de determinada unidade intermitente ou sazonal. Assim, a unidade de sobreaviso terá custos que precisam ser absorvidos pelas unidades que elas viabilizam.

Desta forma, está-se cometendo um erro ao se dizer que “o kWh eólico é mais barato que o kWh nuclear” por se estar comparando valores de unidades diferentes. É como se fosse possível comparar cinco bananas com quatro abacaxis. Os defensores da geração a partir das energias solar e eólica afirmam que baterias capazes de armazenar eletricidade para ser utilizada em momentos nublados ou de calmaria, estão prestes a serem desenvolvidas. Contudo, pelo conhecimento atual, isto não é possível. A geração eólica teve, nos últimos anos, grandes desenvolvimentos tecnológicos que baratearam o correspondente custo do kWh gerado, se houver vento.

O fato de a energia hidráulica ser sazonal nunca foi problema durante muitos anos. Os governos militares, que existiram no país de 1964 a 1985, garantiram o abastecimento de eletricidade do país. Nesta época, a energia hidráulica era implantada de forma tal que, com um grau de confiabilidade de 95%, ela iria suprir boa parcela da necessidade de eletricidade, restando somente pequenas complementações térmicas. Assim, obras eram decididas e implantadas e não houve escassez de eletricidade no período.

A crítica justa que era feita à época era a prioridade dada aos investimentos na geração elétrica em detrimento dos investimentos sociais. Lembro-me de um palestrante, à época, dizer que não era justo a confiabilidade de se ter energia elétrica ser praticamente igual à segurança que uma criança não iria morrer antes de completar um ano. A mortalidade infantil era alta, então.

3 – Reservatórios plurianuais de hidroelétricas e usinas a fio d’água

Com relação à sazonalidade da fonte hidráulica, pode ser lembrado que os grandes lagos das hidroelétricas mais antigas serviam para estocar água para períodos com escassez de chuvas. Eram os reservatórios plurianuais. As usinas hidroelétricas com reservatórios plurianuais, como foram as primeiras a serem construídas, geravam eletricidade mais barata. As hidroelétricas construídas durante os governos militares, recém-citadas, possuíam reservatórios plurianuais. Estes reservatórios foram combatidos por ambientalistas por inundarem flora e fauna, e algumas vezes, inundavam até comunidades inteiras, rodovias, ferrovias e áreas prováveis de mineração.

Como já foi dito, estes lagos “regularizavam” as chuvas, à medida que um ano seco poderia usar água acumulada de ano chuvoso anterior. Com a crítica feroz a eles, caiu-se em outro extremo, que foi o caso, por exemplo, de se perder uma capacidade adicional de 6.000 MW em Belo Monte para evitar que uma comunidade limitada de índios fosse inundada. A sociedade deveria encontrar um meio termo.

Por cerca de 40 anos (mais ou menos, entre 1950 e 1990), grandes reservatórios foram construídos. Mas, há algum tempo, têm-se construído unicamente hidroelétricas a fio d’água. Elas usam a vazão do rio com turbinas a bulbo para a geração e não usam queda d’água, até porque praticamente não há queda. Como consequência, estas usinas não formam um grande lago. Com as restrições hoje existentes para a construção de novas hidroelétricas, restam poucos aproveitamentos atraentes que podem vir a ser utilizados.

4 – Supermotorização de hidroelétricas

Como beneficio das hidroelétricas, surgiu também a ideia de colocação de unidades geradoras adicionais, além das necessárias para a geração da energia firme planejada, visando ajudar a usina a acompanhar a “curva diária de carga” ou a curva da demanda diária de eletricidade. O conjunto de gerador acoplado à turbina está sendo aqui chamado de “unidade geradora”. Este procedimento é chamado de supermotorização das hidroelétricas, que resulta no atendimento da curva de carga, mas, também, no decréscimo do coeficiente de utilização das hidroelétricas.

Esta supermotorização das hidroelétricas serviu também para colocar energia no sistema quando as eólicas não podiam gerar por falta de vento. Acontece que, recentemente, como não se constrói mais hidroelétricas com reservatórios plurianuais e como foram construídas muito poucas unidades geradoras de qualquer fonte, os reservatórios das hidroelétricas chegaram a ficar em níveis críticos.

Por outro lado, um objetivo que as nucleares não conseguem satisfazer a contento é o acompanhamento da curva de carga.

5 – A estabilidade do Sistema Elétrico

Após anos de construção de unidades geradoras de eletricidade e de linhas de transmissão elétrica, complementadas por redes de abastecimento dentro das cidades, foi criada uma malha de fornecimento e consumo de eletricidade, formalmente chamada de Sistema Interligado Nacional (SIN).

Não iremos explicar tecnicamente, mas desejamos que seja aceito o fato que, nesse Sistema, se existir consumo nas extremidades da rede e não existir geração nestas extremidades, o Sistema poderá se tornar instável.

Por outro lado, existir nas extremidades da rede um aproveitamento hidráulico ainda a ser instalado ou regiões com possibilidade de geração eólica ou solar será uma enorme casualidade. Na realidade, só se pode contar para estabilizar o Sistema com a construção nas extremidades da rede, de unidades geradoras térmicas a combustíveis fósseis ou a biomassa e de usinas nucleares. A possibilidade de instalação destas geradoras em qualquer local torna-se uma vantagem comparativa das mesmas.

6 – A decisão correta do passado

A adoção da opção hidráulica pelo país ocorreu paulatinamente, começando com a construção das hidroelétricas pioneiras de Minas Gerais, como Três Marias e Furnas, que possuem lagos com áreas consideráveis. Paulo Afonso no Nordeste é também uma das pioneiras. Nesta época, dois grupos de pressão política, um ligado aos “barrageiros” (empresas nacionais de engenharia e construções) e outro ligado a empresas estrangeiras do setor de petróleo, queriam que o Brasil construísse usinas hidráulicas e térmicas, utilizando derivados de petróleo, respectivamente. Os defensores das térmicas argumentavam que o insumo era muito barato, o que acarretava energia elétrica mais barata que a de origem hidráulica. O barril de petróleo, à época, custava menos de três dólares.

Saiu vitoriosa a opção hidráulica, que, hoje, resulta na de mínimo custo e também é uma opção com baixa emissão de gases do efeito estufa na atmosfera. Esta decisão acertada compensou outra errada, da mesma época, que foi a de basear o transporte de carga de longo curso através de rodovias, em detrimento dos transportes ferroviário e fluvial.

7 – O planejamento do setor

A tomada de decisão do setor elétrico se resume no ordenamento das entradas em operação das diversas opções tecnológicas de geração escolhidas, satisfazendo a demanda e a função-objetivo previamente decidida. É claro que, posteriormente, precisa ser realizado o planejamento da transmissão da energia gerada.

As opções tecnológicas para geração, comprovadas comercialmente sem subsídios governamentais, são a hídrica, as térmicas a derivados de petróleo, a gás natural, a carvão mineral, a biomassa, a geração eólica e a nuclear.

A função-objetivo a ser otimizada pode ser composta por diversos objetivos como, por exemplo, minimização do custo da energia gerada, minimização da emissão de gases do efeito estufa, maximização das compras locais, maximização da contratação de engenharia no país, maximização das encomendas de desenvolvimentos tecnológicos no país, contribuição máxima à geração de emprego no país, obtenção máxima de saldo em divisas do empreendimento, impacto mínimo ao meio ambiente, minimização da probabilidade de acidentes e, por ai, vai.

Um modelo matemático que vise a satisfação simultânea de todos estes objetivos é impraticável. No entanto, buscar unicamente minimizar o custo da energia gerada é primário. Para contornar a dificuldade, pode-se buscar soluções que otimizem alguns destes objetivos e, depois, avaliar como estas soluções se comportam com relação aos demais critérios de avaliação.

Causa extrema estranheza quando empresas estrangeiras ou mesmo organismos internacionais se propõem a modelar simploriamente o sistema elétrico brasileiro, único no mundo. A Noruega e o Canada têm sistemas com alguma semelhança ao brasileiro. O grupo Eletrobras tinha uma modelagem muito superior a qualquer um dos esboços estrangeiros.

Após esta descrição das questões envolvidas no processo de decisão do setor elétrico, fica claro que este processo é complexo. Portanto, é ingênua ou mal intencionada a frase de abertura deste texto. Se o interlocutor é pouco informado e merece consideração, a melhor resposta será: “você tem meia hora? 

* Este texto não foi escrito para o pessoal técnico, principalmente se for do setor elétrico. Foi escrito para atingir o cidadão comum com conhecimentos gerais, mas não específicos do tema.

17 março 2019

Estratégias norte-americanas

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia e do CREA-RJ

A hegemonia dos Estados Unidos da América (EUA) em relação aos demais países, nas últimas três décadas, foi construída por ações que começaram em passado distante. Ênfase na soberania para a formação desta hegemonia é encontrada, inclusive, em afirmações dos próprios pais fundadores.
Como esta posição é conquistada através de iniciativas em diversas áreas, como a econômica, a educacional, a tecnológica, a política, a diplomática e a militar, além de firme posição política de busca da liderança, e como as iniciativas soberanas da Rússia e da China estão em ascensão, poderá ocorrer que a hegemonia estadunidense será ameaçada no futuro. Aliás, a hegemonia dos EUA foi conquistada com o deslocamento da hegemonia inglesa, que prevaleceu até a segunda grande guerra.
A Doutrina Monroe, lançada pelo presidente norte americano James Monroe em 1823, pregava que o continente americano não deveria aceitar mais nenhum tipo de intromissão europeia sobre quaisquer pretextos. Foi um ato contra o colonialismo, resumido na frase: “A América para os americanos”.
A Doutrina Carter, formulada pelo Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, durante o governo Jimmy Carter, Zbigniew Brzezinski, é descrita da seguinte forma pelo próprio Conselheiro: “Que a nossa posição seja absolutamente clara: Uma tentativa de qualquer força externa para controlar a região do Golfo Pérsico será interpretada como um assalto aos interesses vitais dos Estados Unidos da América, e tal assalto será repelido através de qualquer meio disponível, inclusive a força militar”. [1]
Um dos principais objetivos da estratégia militar do governo dos EUA, em 1991/1992, segundo o General Colin Powell, Secretário de Estado do governo George W. Bush era: “evitar o surgimento de potências regionais ou globais, que possam rivalizar com os EUA e se colocar contra a existência de uma ordem mundial unipolar, conquistada pela supremacia militar dos EUA.” [2]
Esta tese é ratificada e complementada pela cientista social Ana Esther Ceceña do Instituto de Investigaciones Económicas do México, que afirma, após pesquisar em documentos do Department of Defense (DoD) americano: “os interesses vitais dos Estados Unidos, em torno dos quais se organiza toda sua atividade militar, compreendem:
1.      Proteger a soberania, o território e a população dos Estados Unidos;
  1. Evitar a emergência de hegemones ou coalizões regionais hostis;
  2. Assegurar o acesso incondicional aos mercados decisivos, ao fornecimento de energia e aos recursos estratégicos;
  3. Dissuadir e, se necessário, derrotar qualquer agressão contra os Estados Unidos ou seus aliados;
  4. Garantir a liberdade dos mares, vias de tráfego aéreo e espacial e a segurança das linhas vitais de comunicação.” [3]
Existem os objetivos regionais da estratégia militar dos EUA: “Impedir a formação de qualquer força militar europeia fora da OTAN; impedir uma nova militarização do Japão e da Rússia; restringir a capacidade das forças militares na América Latina à sua autodefesa, à contenção do narcotráfico, à assistência a catástrofes e à manutenção da paz internacional.” [2] Além destes objetivos regionais, existem também os seguintes: “Controlar o acesso a fontes de recursos estratégicos, especialmente os energéticos, e suas rotas comerciais, principalmente as marítimas, com a finalidade de negar o acesso a rivais, revelados ou potenciais, e manter seu ‘poder de barganha’ sobre os aliados, ao assumir o papel de garantidor do seu abastecimento.” [2]
Desta forma, os Estados Unidos têm, como já foi dito, um projeto de poder mundial, que visa satisfazer os seus grupos econômicos, a sua sociedade e ao capitalismo internacional, com efeitos previsíveis nos demais países. Busca, entretanto, não afrontar aliados, nem a opinião pública mundial.
Não procuro provar a essencialidade do petróleo, pois este fato é, hoje, incontestável. Porém, quero citar Daniel Yergin, especialista em energia e autor consagrado, que escreveu sobre esta questão de forma quase poética: “E, entre todas as fontes de energia, o petróleo vem se mostrando a maior e a mais problemática devido ao seu papel central, ao seu caráter estratégico, à sua distribuição geográfica, ao padrão recorrente de crise em seu fornecimento – e à inevitável e irresistível tentação de tomar posse de suas recompensas (...). Ele tem abastecido, ainda, as lutas globais por supremacia política e econômica. Muito sangue tem sido derramado em seu nome. A feroz e, muitas vezes, violenta busca pelo petróleo – e pela riqueza e poder inerentes a ele – irão continuar com certeza enquanto ele ocupar essa posição central. [4]
A partir destes fatos, são bem compreendidas as ações do governo norte americano, quer seja uma administração democrata ou uma republicana. A estratégia citada anteriormente: Assegurar o acesso incondicional (...) ao fornecimento de energia (...)” explica as invasões do Iraque, da Líbia e outras, inclusive a recente tentativa de invadir a Venezuela. Assim, o Pré-Sal brasileiro coloca o nosso país na lista dos “fornecedores prioritários” dos Estados Unidos.
Os objetivos da estratégia militar dos Estados Unidos são claramente explicitados pelo General de Divisão Smedley Butler do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, altamente condecorado e autor do livro “Guerra é uma extorsão”, onde descreve o complexo militar-industrial existente nos EUA. Em 1933, Butler proferiu o discurso “Intervencionismo”, do qual seguem trechos (sem mudar o sentido das afirmações): “Guerra é exatamente uma extorsão. (...) Somente um pequeno grupo que está dentro sabe o que significa. Ela é conduzida para o benefício de muito poucos à custa das massas. (...) Eu não iria para a guerra de novo, como eu fui, para proteger algum investimento nojento dos banqueiros. (...) Eu passei trinta e três anos e quatro meses no serviço militar ativo. (...) E durante este período, eu passei a maior parte do meu tempo sendo um homem músculo de alta classe para o Grande Negócio, para Wall Street e para os banqueiros. Resumidamente, eu era um extorsionário, um gangster para o capitalismo. (...) O registro de extorsões é grande. (...) Olhando para trás neste ponto, eu sinto que eu poderia ter dado a Al Capone umas poucas sugestões. O melhor que ele pôde fazer foi operar as suas extorsões em três distritos. Eu operei em três continentes.” [5]
Padula descreve posições geopolíticas dos Estados Unidos, propostas por alguns estrategistas, e os principais conteúdos de documentos estratégicos oficiais deste país, de diferentes épocas. [1] Busco identificar os argumentos que embasam os objetivos estadunidenses depois deste país galgar a posição de hegemon, com o debacle da União Soviética. Para tal, análises são necessárias.
Os Estados Unidos continuam com forte influência em entidades multilaterais, como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, a Organização Mundial do Comércio e a própria ONU. Possuem a moeda que lhes permite o endividamento sem limite. Têm o controle da OTAN, que hoje pode atuar em qualquer lugar do planeta. Suas Forças Armadas são as mais letais e as mais bem equipadas. Seu sistema de pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico e inovação responde aos desafios de aumento de competitividade da sua economia para continuar atuando no mundo globalizado e de aumento da satisfação da sua sociedade.
Capitais ancorados basicamente nos Estados Unidos possuem influência em grupos midiáticos de diversos países. Todas as agências de notícias do mundo ocidental recebem influências do capital internacional. O poder da manipulação das informações é tão dominador quanto o das Forças Armadas.  Os Estados Unidos, ou o capital que nele reside, têm recursos suficientes para corromper, através dos órgãos de inteligência, políticos, juízes, servidores públicos, enfim, lideranças dos países a serem dominados. Suas empresas privadas atuam no mundo afora como recolhedoras de lucros dos mercados alheios e como dilapidadoras dos recursos naturais dos outros países.
Assim, as Forças Armadas dos Estados Unidos elegeram combater, neste novo mundo em que eles lideram isoladamente, o narcotráfico, a proliferação de armas nucleares, a degradação ambiental, o terrorismo, ditaduras, Estados violadores de direitos humanos e Estados fracos que permitem a ocorrência dos crimes citados. Não discordo do elenco de dramas existentes. Tenho dúvida que eles sejam as verdadeiras razões para diversas agressões. Além disso, existem contradições nestes objetivos, porque, por exemplo, há uma ditadura na Arábia Saudita, que nunca é lembrada. Com este conjunto de dramas a combater, é permitido aos Estados Unidos desembarcar suas Forças Armadas em qualquer ponto do planeta. Se existir alguma dificuldade para a justificativa, uma fake news, como “a produção de armas de destruição em massa”, pode ser providenciada.
Os Estados Unidos atingiram a perfeição no processo de dominação, porque não precisam mais invadir militarmente um país. Basta financiar nacionais dos países a serem espoliados, que passam a ser seus prepostos, vendilhões da pátria e traidores dos seus irmãos. Fornecer a eles apoio diplomático, mercadológico e midiático. Comprar políticos, juízes e demais lideranças da sociedade, que, ao fim e ao cabo, o butim ocorrerá.

[1] Padula, Raphael, capítulo “A geopolítica estadunidense e a Eurásia” do livro “Sobre a guerra”, organizado pelo Professor José Luís Fiori, Editora Vozes, página 343, 2018.
[2] Padula, Raphael, palestra “A Geopolítica do Petróleo e a Conjuntura Internacional”, proferida no Clube de Engenharia, 2018.
[3] Ceceña, Ana Esther, artigo “Estratégias de dominação e mapas de construção da hegemonia mundial”, II Fórum Social Mundial (FSM), 2002.
[4] Yergin, Daniel, livro “O petróleo, uma história de ganância, dinheiro e poder”, 2010.
[5] Jornal Hora do Povo, 12/01/2007,  http://www.horadopovo.com.br/2007/janeiro/12-01-07/pag5a.htm

19 fevereiro 2019

Militares brasileiros

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia e do CREA-RJ

No início do século passado, o Exercito brasileiro, visando a sua modernização, mandou tenentes e capitães fazerem estágio no Exército Imperial Alemão. Assim, foram enviadas três turmas de brasileiros, em 1905, 1908 e 1910. Estes jovens oficiais, ao voltarem, receberam a alcunha de “jovens turcos”, porque militares turcos, que tinham feito o mesmo estágio no Exército Alemão, ao chegarem ao seu país, fizeram um movimento de oposição ao sultanato, que acabou por resultar na proclamação da República em 1923. Nossos estagiários, ao retornarem, buscaram introduzir conceitos lá adquiridos. Todos carregavam o sentimento de brasilidade, pois queriam fazer algo pelo Brasil e pelo povo brasileiro. [1]
Três deles: Bertoldo Klinger, Estêvão Leitão de Carvalho e César Augusto Parga Rodrigues foram os idealizadores da revista “A Defesa Nacional” de teor técnico e militar, capaz de contribuir para a formação do oficialato brasileiro. Ela realmente influenciou gerações do nosso Exército, inclusive sob o ponto de vista político. O objetivo e a orientação dos fundadores desta revista era o de “lutar pelo soerguimento do Exército, pela defesa nacional, pelo desenvolvimento do país e pela formação de uma nação moderna e militarizada, nos moldes das nações europeias, em especial a Alemanha.” [1]
Na primeira metade do século passado, o Coronel Mario Travassos e o General Pedro Aurélio de Góis Monteiro se projetaram como formuladores de propostas para o Exército brasileiro. O Coronel Mario Travassos, aplicando ensinamentos geopolíticos em suas análises, conseguiu influenciar os seus pares. Ele foi colaborador da revista “A Defesa Nacional” desde a sua fundação, chegando ao posto de Redator–Secretário. [2]
O General Góis Monteiro formou uma visão racional sobre o sistema internacional e considerou essa visão como central para o entendimento da participação do Exército na política nacional. Para ele, a paz universal é um mito. A preocupação com a defesa e a preparação para a guerra dominam o modo como as nações conduzem a política exterior, o que, inclusive, orienta a diplomacia. A guerra e a preparação para ela não são resultado apenas das preocupações de defesa das potências, mas também do expansionismo inato delas[1]. [2]
Para o General Góis Monteiro, o intervalo entre os conflitos armados passou a ser dominado pelas lutas intestinas, que visam bloquear as iniciativas da nação com o objetivo de se organizar e se fortalecer e, assim, deixá-la à mercê do imperialismo. [2]
O General Júlio Caetano Horta Barbosa, Presidente do Conselho Nacional do Petróleo, em conferência no Clube Militar, no dia 30 de julho de 1947, disse: “Pesquisa, lavra e refinação (de petróleo), constituem as partes de um todo, cuja posse assegura poder econômico e poder político. Petróleo é bem de uso coletivo, criador de riqueza. Não é admissível conferir a terceiros o exercício de uma atividade que se confunde com a própria soberania nacional. Só o Estado tem qualidades para explorá-lo, em nome e no interesse dos mais altos ideais de um Povo.” [3]
O General Júlio Caetano Horta Barbosa, Presidente do Conselho Nacional do Petróleo, em conferência no Clube Militar, no dia 6 de agosto de 1947, disse: “A Política do petróleo adotada pelo Brasil orientou-se no sentido de satisfazer do melhor modo aos imperativos da defesa nacional – militar e econômica. A legislação correspondente foi reclamada, em fevereiro de 1938, pelo Estado Maior do Exército, chefiado pelo General Pedro Aurélio de Góes Monteiro, sob a alegação da necessidade de salvaguardar nossa soberania. Propôs o órgão militar a nacionalização da indústria do óleo cru, ou o seu monopólio pelo Estado.” [3]
O General Raimundo Sampaio, em artigo na publicação “Emancipação” de 2/2/1949, escreveu: “Nesta ordem de ideias, objetivando a proteção geral de nossos recursos naturais, parece oportuno, que ao lado da campanha em curso, da defesa do petróleo, seja empreendida, desde já, uma ação sistemática no sentido de preservar do perigo de exaustão não só as jazidas de minérios radioativos em geral, como, principalmente, as dos minérios uraníferos e toríferos, cuja exportação sem o mínimo controle técnico se vem realizando, com ampla liberdade, já há vários anos.” [3]
O General José Pessoa, Comandante da Escola Militar do Realengo, disse: “É crime de lesa-Pátria, um atentado e uma ameaça à existência nacional, diante dos exemplos desastrosos de outros países, entregar aos trustes[2] estrangeiros a exploração e o aproveitamento da riqueza petrolífera do Brasil.” [3]
O General Arthur Carnaúba, Presidente da Associação Brasileira de Defesa dos Direitos do Homem, em artigo intitulado “Em Defesa da Liberdade”, escreveu: “Defendamos os princípios liberais da nossa carta política, que são os mesmos que figuram na ‘Declaração Universal dos Direitos do Homem’, adotada e proclamada, em dez de dezembro de 1948, pela Assembleia Geral das Nações Unidas!” [4]
O General Felicíssimo Cardoso, Diretor de “Emancipação” e Presidente do Centro de Estudos e Defesa do Petróleo e da Economia Nacional (CEDPEN), escreveu no Prefácio do caderno “Emancipação” de 1952:  No conjunto dos esforços patrióticos pela independência econômica e política do Brasil constituem fator de primeira grandeza as lutas populares contra os trustes imperialistas. O desejo destes é de que nos perpetuemos na condição de semi-colônia, fornecedora de matérias primas a preços baixos e importadora de produtos manufaturados. A vontade do povo, ao contrário, é de que sejamos uma nação verdadeiramente livre, com seu completo parque de indústrias pesadas, seu amplo mercado interno e a terra em mãos dos que realmente nela trabalham.” [4]
O General Leônidas Cardoso, Presidente do Centro Paulista de Defesa do Petróleo, escreveu para a revista “Emancipação”: “Como se vê, a preservação de nossas riquezas estratégicas está intimamente ligada à conquista de nossa independência econômica e ao nosso progresso. Ora, a defesa nacional, a segurança nacional só são possíveis quando há independência econômica, quando há florescimento da economia do país – pois sem indústria nacional não há defesa nacional. (...) O problema das areias monazíticas e demais minerais radioativos e estratégicos é o problema da espoliação de nossas riquezas por alguns consórcios internacionais – os quais atentam contra nossa independência econômica, contra o nosso progresso e contra a defesa nacional, que é nossa missão sagrada de soldados defender.” [4]
Em meados do século passado, era sabido que o Brasil tinha reservas de urânio e tório. Assim, já gerava a cobiça de outros países, tanto que os Estados Unidos (EUA) propuseram à Organização das Nações Unidas (ONU) o Plano Baruch, que previa a internacionalização de minérios radioativos, que ficariam sob a guarda de um organismo da mesma ONU, sobre o qual os EUA tinham ascendência. O nosso representante na Comissão de Energia Atômica desta Organização, o Almirante Álvaro Alberto, ao se contrapor a esta proposta lançou em nome do Brasil a tese das “compensações específicas”, através da qual os minerais radioativos não seriam comercializados através de dinheiro e, sim, com a oferta de compensação, a qual poderia ser, por exemplo, a cessão de tecnologia pelo comprador. A proposta não foi aceita, mas o Plano Baruch também foi arquivado. [5]
O setor nuclear, em muitas situações, suscitou sentimentos de soberania dos nossos governantes. Em 1954, no pós-guerra, o mesmo Almirante Álvaro Alberto mandou fabricar na Alemanha, visando a importação, três centrífugas para enriquecimento de urânio. Este intento foi barrado pela inteligência estadunidense, mas ficou claro o esforço para o Brasil ter uma tecnologia primordial para poder ter navios e submarinos com a propulsão nuclear. [5]
O Brigadeiro Francisco Teixeira tinha as qualidades ideais que um militar deve ter, como compromisso com o desenvolvimento do país, o nacionalismo, a legalidade, a democracia e, dentro da agremiação militar, um comportamento exemplar. Seu compromisso com a legalidade e a democracia o levou a ser perseguido pelos membros do golpe militar de 1964.
Sobre o Marechal-do-Ar Casimiro Montenegro Filho, não é necessário escrever muito. Basta somente dizer que ele idealizou e criou o Instituto Tecnológico de Aeronáutica - ITA e o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial – DCTA. Chegou a idealizar também a Empresa Brasileira de Aeronáutica – Embraer. A importância destas realizações é suficiente para credenciá-lo como benfeitor da nossa sociedade. Entretanto, a sua competência e obstinação pela realização e a sua visão não acanhada, do tamanho esperado para o Brasil, o elevam à condição de grande estrategista e realizador.
Obviamente, existiram outros militares que lutaram pela melhoria do bem estar do nosso povo, pela democracia, por um Brasil soberano e demais causas nobres. Tenho em minha defesa o fato deste texto querer mostrar, em caráter de exemplo, que existiram grandes homens, verdadeiros heróis nacionais, dentre nossos militares, sem precisar ser exaustivo. Orgulho-me em poder dizer que tivemos estes militares no nosso país. 

Fontes:

[2] Vieira, Ricardo, dissertação de Mestrado “LEMBRAI-VOS DA GUERRA: Ameaça Geopolítica, Organização do Estado e Desenvolvimento Econômico no Pensamento Militar Brasileiro (1913 – 1964)”, apresentada ao Programa de Pós-graduação em Economia Política Internacional – PEPI da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, 2013.
[3] Miranda, Maria Augusta Tibiriçá, livro “O Petróleo é Nosso”, editora Ipsis, 2004.
[4] Cadernos de “Emancipação”, número 1, “Libertação Econômica”, 1952.
[5] Metri, Paulo, palestra “Vocação nuclear do Brasil, seus avanços e seus gargalos”, proferida em seminário do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento, em agosto de 2018.



[1] Esta afirmação é questionável, pois nega a possibilidade de um país ter Forças Armadas bem equipadas tecnologicamente e treinadas, sem ter intenções expansionistas.
[2] A palavra “truste”, pelo dicionário Priberam, equivale a “agrupamento de empresas para dominar o mercado e diminuir a concorrência”. Nos dias atuais, para este significado, é usada a palavra “cartel”.

06 fevereiro 2019

Caos

Paulo Metri

Subitamente, passei a sonhar com a Terra se desgarrando do sistema solar e caminhando para o espaço profundo do gigantesco universo. O frio devido ao distanciamento do sol atingia mais meu espírito do que meu corpo. Nenhum dos seres vivos, que povoam a Terra hoje, cujas existências são consequência de evoluções que demoraram milênios para chegar ao estágio atual, irá sobreviver. A sensação era de angustia e o desespero me levava a querer ficar com a família em volta.
A energia nuclear e os combustíveis fósseis, com suas enormes capacidades de gerar calor, não poderiam ajudar a salvar a humanidade, pois não só as reservas destas fontes são limitadas como também a prospecção e a mineração em condições extremamente inóspitas nunca foram nem pensadas. Nossa Terra, sem o calor de uma estrela, passaria a ser mais um corpo celeste inabitado no universo.
Acordava assustado ainda sem saber o que fazer, mas, da última vez, veio um clarão de lucidez, que me permitiu a volta da tranquilidade, pois lembrei: “graças a Deus e a Newton, isto não irá acontecer”. Mais uma vez, a humanidade e, neste caso, eu especificamente, éramos salvos pela ciência. A partir daí, nunca mais tive este sonho.
Nestes últimos dias, a conversa com um amigo era sobre a visão da escola de Chicago sobre a Economia, mas evoluiu para o fato de, nesta área de conhecimento, não existirem conceitos e interpretações determinísticas, havendo a influência de considerações políticas e sociais.  Portanto, existem diversas correntes racionais, deixando para o cidadão a escolha, no menu de teorias econômicas, a que melhor satisfaz o objetivo imaginado por ele, a ser atingido. Por isso, os decibéis quando se discute Economia são tão altos.
Neste ponto, meu amigo me premiou com esta frase. “Têm sistemas que pensamos serem determinísticos, mas, hoje, acredita-se que podem ocorrer neles, instabilidades. Na virada do século XIX para o XX, foi lançado na comunidade científica o desafio representado pela pergunta: ‘o sistema solar é estável?’ Sumarizando tudo que ocorreu até hoje, chegou-se à conclusão que, no período de um bilhão de anos, pode ocorrer, sim, uma instabilidade no sistema solar.” Perplexo, ainda perguntei: “Instabilidade? Como instabilidade?” Sua resposta não poderia acertar melhor a mosca: “Por exemplo, a Terra sair vagando pelo universo e não mais orbitar em torno do sol.
Ele atingiu o centro nefrálgico do medo. Vendo que o sangue tinha sumido da minha face, meu amigo disse: “Não se preocupe. Isto só vai acontecer em um intervalo gigantesco. Não vai acontecer agora.” Minha resposta, que o deixou calado, foi: “Agradeço muito seu interesse em me tranquilizar, mas o momento presente é parte do macro período de um bilhão de anos, então pode acontecer agora.
Sei que é paranoia minha, pois conheço o significado de probabilidade. Por isso, fui levado a pensar que estou muito assustado por evento de baixíssima probabilidade. Por que? Meu estado emocional mostra mais desequilíbrio que o sistema solar. Por que? Chego à conclusão que o fato principal é saber que valores e verdades mínimos para a espécie ser considerada humana, foram vilipendiados, sem constrangimentos. Se já não há mais resquícios de nobreza na espécie, viver só para ver o tempo passar? 

Conquistas da humanidade

Paulo Metri

O embrião da forma democrática de governo surgiu em Atenas no século V a. C. Não se tratava da democracia com o conceito de “um ser humano, um voto”, pois as mulheres e os escravos não podiam participar. Aliás, nos dias atuais, ainda há críticas a este conceito de democracia. Contudo, os gregos tiveram o mérito de tentar cercear o poder absoluto do líder, conquistado pela astúcia e força bruta, que se transformava, na maioria dos casos, em um déspota bárbaro. Outras instâncias de poder criadas moderavam o poder absoluto.
Os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade da Revolução Francesa vieram, a partir de 1789, para modificar a organização social e política do Ocidente. Começou com a sociedade francesa, que passou por uma transformação gigantesca, com a perda de privilégio dos aristocratas e religiosos, que foram despojados, em grande parte, do seu poder e riqueza, por ataques de grupos políticos, das massas nas cidades e de camponeses. Esta revolução talvez tenha proporcionado um dos maiores avanços da condição humana da nossa espécie.
Os Pais Fundadores dos Estados Unidos da América defenderam o direito de um povo ter a liberdade de constituir sua nação e de buscar o seu crescimento. Com isso, opuseram-se à dominação de povos por outros povos, ou seja, opuseram-se à colonização. Estes Fundadores, dos quais os mais conhecidos são Thomas Jefferson, Benjamin Franklin, George Washington e Alexander Hamilton, assinaram a Declaração de Independência em 1776 ou participaram da luta contra a dominação inglesa. Este movimento libertário de oposição à dominação colonial inspirou outras colônias a lutarem contra os impérios.
Joaquim José da Silva Xavier tirava dentes, mas implantava sementes de brasilidade no coração de brasileiros. Todo movimento libertário é contra a dominação que diminui a liberdade dos colonizados. Assim, a brasilidade pode ser entendida como o movimento pela reconquista do que pertence aos brasileiros e está sendo usurpado deles. Como é comum aos libertários que confrontam impérios, Tiradentes foi assassinado em 1792, pela forca.
Simon Bolívar foi o libertário que mais descravizou povos da América Latina do jugo da Coroa Espanhola. Entre 1816 e 1826, liderou os povos da Bolívia, da Colômbia, do Equador, do Panamá, do Peru e da Venezuela à independência, e ajudou a lançar nestes países estruturas governamentais de bases democráticas.
Durante a revolução industrial na Inglaterra, no século XVIII, trabalhadores das indústrias têxteis, iniciaram ações de amparo aos mais necessitados, inclusive aos desempregados, e aceitaram eleger lideranças para representá-los em negociações com os patrões. Foram iniciadas, assim, as atividades dos sindicatos, que, com toda a imperfeição do modelo de representatividade, já ajudou enormemente os trabalhadores na luta contra a ganância de alguns dos representantes do capital.
Marx e Engels lançaram em 1848 o “Manifesto comunista” e, em 1867, Marx lançou o primeiro livro de “O Capital”, que se trata da melhor crítica ao capitalismo escrita até hoje. A única luta por mais liberdade que é prejudicial à sociedade é aquela pela liberdade econômica, pois ela representa, na verdade, a expansão do direito do dono do capital de explorar a sociedade.
Mahatma Ghandi foi o idealizador e fundador do moderno Estado indiano e o maior defensor do princípio Satyagraha de não agressão ou uma forma não violenta de fazer revolução, baseada principalmente no uso da desobediência civil da massa. O primeiro uso deste princípio ocorreu em setembro de 1906. Enfim, através da sua liderança, Ghandi retirou a Índia da dominação colonial inglesa.
A Revolução Russa de 1917 mostrou que um novo modelo de organização política e social era possível. Teve imenso sucesso nos anos iniciais, mas os germes humanos da ganância por dinheiro e poder atuaram, comprometendo o projeto. Eventualmente, o ser humano ainda não está preparado para o socialismo.
Quando regimes fascistas afloraram na Europa nas décadas de 30 e 40 do século passado, forças antifascistas uniram-se para evitar a involução da sociedade. Foi, então, que ocorreu uma das maiores vitórias libertárias da humanidade, aquela protagonizada pelos Aliados ao derrotarem o nazismo. Infelizmente, o fascismo demorou bem mais tempo em Portugal e Espanha, fazendo sofrer seus povos.
O documento mais lindo da luta por igualdade, fraternidade e liberdade, no meu julgamento, é a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Aprovada em 1948, mostra muito daquilo que o fascismo, o autoritarismo, o capitalismo exacerbado, o liberalismo econômico, a experiência comunista do século passado e alguma eventual alternativa de organização política e social esquecida, não garantem aos humanos.
Várias outras foram e são as lutas libertárias, como a das sufragistas, a do movimento pelos direitos dos negros, a do combate à homofobia, a do movimento dos sem terra, a dos ambientalistas, entre inúmeras outras. Tantas são estas lutas que a história da humanidade pode ser descrita como a das suas lutas. Por outro lado, não é por falta de lutas que os humanos podem ficar enfadados de viver.
O homo sapiens está na face da Terra há cerca de 300.000 anos. Pode-se dizer que o “período de atividade generosa” de alguns membros de cada geração dura em média 25 anos. Obviamente, alguns passam bem mais que este tempo lutando contra arbitrariedades. Por outro lado, no início do desenvolvimento da espécie, não existiam questões político sociais a serem resolvidas. Também, fora do período inicial, existiam estas questões, mas nem todos os humanos buscavam resolvê-las. Por fim, tiro do bolso do colete o número médio de 100 pensadores dentro de cada geração, durante 300.000 anos, constantemente buscando resolver as questões político sociais.
Então, já ocorreram em torno de 1.200.000 períodos (de 25 anos cada) de contribuição dos nossos semelhantes para a “melhoria da humanidade”. Gigantesco patrimônio humanístico, conquistado com muita luta e sofrimento, recebido de heróis e povos heroicos de diversas épocas e localidades corre o risco de ser revertido, em um brusco movimento mundial obscurantista.

Na lama de Brumadinho

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia e do CREA-RJ

Mais uma vez, o debate sobre um acidente está ocorrendo confuso, com cada técnico, político, servidor público e cidadão buscando relatar suas teses e conclusões. Entretanto, os grandes interesses continuam camuflados e preservados até o próximo acidente, quando voltarão a correr o risco de serem descobertos.
Descrevendo um pouco da confusão, prendem-se técnicos, deixando a grande dúvida: se eles são corruptos, quem são os corruptores? Algumas informações técnicas explicam a irracionalidade de decisões do passado. Vem à tona a parcela expressiva da população que mora próximo de barragens inseguras. Descobre-se que a Vale ainda não pagou multas relativas ao crime de Mariana.
A esperança por sobreviventes é sempre depositada, em toda desgraça, nos bombeiros, os profissionais da solidariedade. Punir os responsáveis é justo e esperado pela sociedade, mas é preciso identificá-los corretamente, inclusive os poderosos. A mídia, como sempre, não está sendo isenta, pois esta pertence ao capital e os interesses inconfessáveis dele têm que ser preservados. Assim, a comunicação fica truncada. Bodes expiatórios, que podem até ter alguma responsabilidade, são noticiados com estardalhaço.
Tentando racionalizar a questão, a identificação do problema, com a visão da sociedade, é primordial e consiste no primeiro passo para a real solução. Desta forma, a pergunta inicial que se deve fazer para poder identificar o problema é: “o que se deve exigir de uma mineradora que explora determinada jazida concedida pelo Estado?” Estou querendo incluir na análise da questão, a identificação de um eventual erro genético do modelo utilizado, que, se não for sanado, os crimes desastrosos se repetirão.
Respondendo à pergunta feita, são geradas as seguintes exigências para as mineradoras poderem atuar:
(1)   A mineradora deve ter capacidade de investimento para poder alocar recursos no empreendimento.
(2)   A mineradora deve receber receitas, com a atividade econômica, que permita remunerar seus trabalhadores, pagar os demais custos, despesas e impostos, realizar os reinvestimentos e dar dividendos aos acionistas.
(3)   A mineradora deve utilizar projetos de engenharia e técnicos locais, assim como a mão de obra do país.
(4)   A mineradora deve fomentar o desenvolvimento tecnológico nacional.
(5)   A mineradora deve buscar exportar somente produtos com o máximo de valor agregado, assim como importar o mínimo de materiais e equipamentos do exterior, contribuindo para a melhoria da balança comercial brasileira.
(6)   A mineradora deve proteger ao máximo o meio ambiente e minorias étnicas próximas do seu local de atuação.
(7)   A mineradora deve recuperar ao máximo o dano ambiental mínimo e inevitável da sua atividade.
(8)   A mineradora deve cuidar da segurança de todos os seus funcionários e moradores da sua cercania.
(9)   A mineradora deve retribuir a aceitação da comunidade local, através de apoios de ordens diversas.
(10)           A mineradora tem um dever para com a sociedade brasileira, que não é compensado só com o pagamento de impostos, mas também, com o atendimento a todas essas exigências.
Evidentemente, as empresas privadas e as estatais têm formas de atuação diferentes em cada uma das “exigências para a mineradora”, por partirem de filosofias de atuação deferentes.
Entrando na esfera da subjetividade, alguns desempenhos dos agentes econômicos em determinadas exigências podem ser considerados como mais relevantes que os desempenhos em outras exigências. Dou, a seguir, a visão, que creio ser a da maioria: os desempenhos no “cuidado com o meio ambiente e minorias étnicas” e no “cuidado com os funcionários da empresa e vizinhos” são considerados mais relevantes que o desempenho na “capacidade de gerar receitas”.  Mesmo que argumentem que, com receitas insuficientes, os diversos usos destas estarão comprometidos.
Proponho que, em determinada exigência para a mineradora, se ocorre baixo desempenho do grupo empresarial detentor da concessão e se esta exigência for vital para a sociedade, o grupo terá a concessão subtraída pelo Estado. Exigências para as mineradoras com esta característica formam o conjunto de “exigências eliminatórias”. As exigências restantes formam o conjunto das “exigências classificatórias”, nas quais um baixo desempenho da empresa não a elimina, mas ela recebe um baixo grau, que serve para classificá-las.
Quanto à subjetividade, que é sempre colocada como um empecilho para a escolha das exigências eliminatórias, pode-se dizer que a aparente dificuldade é vencida quando há a aceitação das escolhas por grande parte da sociedade.
Neste ponto, coloco duas propostas de teses:
(1)   O “cuidado com o meio ambiente e minorias étnicas” e o “cuidado com os seus funcionários e vizinhos” são exigências eliminatórias para qualquer mineradora.
(2)   Entre uma empresa privada e uma estatal, ambas atuando na mineração, a estatal tende a cuidar melhor do meio ambiente, das minorias étnicas, dos funcionários e dos seus vizinhos que a empresa privada.
A razão óbvia que explica a segunda tese é que os citados cuidados requerem recursos que resultam, necessariamente, em menor lucro. Sabe-se que o grau de segurança das medidas de prevenção de danos ambientais e demais danos é variável e proporcional aos investimentos destinados à prevenção. Então, quando uma empresa diz que atende à exigência de minimização do impacto ao meio ambiente e dos demais impactos, ela está dizendo que atende a este objetivo no grau de segurança julgado por ela satisfatório.
Estatais, como não priorizam a obtenção de lucro acima de qualquer outro objetivo, têm maior possibilidade de gastar em prevenção dos acidentes ambientais.  Neste ponto, os neoliberais presentes sempre argumentam que as agências reguladoras e os órgãos de meio ambiente foram criados exatamente para garantir a segurança ambiental. Em governos progressistas, isto pode ser verdade. Mas, em governos conservadores, as agências e os órgãos ambientais têm a incumbência de aparentar proteger a sociedade, quando protegem, na verdade, os lucros. Por isso que o “mercado” busca influenciar, com o seu peso político, a escolha dos titulares da direção das agências reguladoras e dos órgãos ambientais.
Devido ao diferencial de cuidados com o que é nobre, a vida, entre a solução privada e a estatal, as duas teses mencionadas são verdadeiras. Também, as citadas exigências eliminatórias para as mineradoras existem em qualquer sociedade civilizada. Desta forma, a privatização da Vale não deveria ter ocorrido. Aliás, ela não deveria ter ocorrido por outras razões, também. Ela passou 55 anos como estatal e não provocou nenhum grande dano ambiental, como estes dois gigantescos do período em que é empresa privada. Notar que querer obter lucros altos não é proibido, nem errado. O erro ocorre quando o maior lucro é obtido com um mar de lama, onde estão sepultados seres humanos, animais, a esperança dos que se salvaram e onde reside a tristeza nacional.

19 setembro 2018

Por quê?

Paulo Metri

Por que nascem filhos sem pais?
Tristes os que dão vida por um fugaz, furtivo e esquecível momento.
Por que há fome, miséria e privação?
Tristes os que consomem e acumulam a mais valia usurpada de outros.
Por que alguém faz amor por dinheiro?
Tristes aqueles que doam o sexo ao não escolhido.
Mas, mais tristes os que compram o sexo alheio.
Por que o culto ao belo, se é desumano alguém nascer pouco dotado fisicamente?
Felizes aqueles que encontram o belo no invisível.
Por que alguns nascem mais inteligentes e espertos?
Deus ou a Natureza ou o Acaso queriam ver o fracasso e o sucesso?
Já que o conceito de beleza física é uma realidade gerada no ser ou transmitida, por que, novamente, Deus ou a Natureza ou o Acaso quiseram premiar uns e castigar outros?
Por que alguns são muito aquinhoados com dons e outros muito massacrados com defeitos?
Por que chamar as poucas opções que servem a uma pessoa de livre arbítrio?
Por que a ganância e a falsidade, se é tão mais simples ser fraterno e sincero?
Por que a insegurança e a carência fazem tantos sofrerem?
Por que “ganhar” sem a força de um ideal? Ou seja, por que emocionar para ludibriar?
Por que a luta pela sobrevivência, para muitos, é uma verdadeira grande guerra?
Nada temem os que nada têm, pois destes só a vida poderá ser suprimida e,
Se esta lhes for retirada, eles só deixarão de sofrer.
Por que os seres humanos tendem a não fazer outros sofrerem, só quando já sofreram também?
Bem aventurados os que, sem terem sofrido tanto, não geram sofrimento aos semelhantes.
Por que o acréscimo de produção devido a desenvolvimento tecnológico não é colocado à disposição dos mais carentes?
Por que a sociedade permite que o acréscimo de riqueza devido às descobertas tecnológicas seja destinado ao acúmulo capitalista?
E por que os pesquisadores que são responsáveis pelas descobertas não se rebelam?
Por que classes e, quanto mais, luta entre classes?
Por que o capitalismo, que gratifica com maior desenvolvimento material, fracassa ao carregar no seu código genético o egoísmo, a avareza e a impiedade?
Por que o socialismo traz também consigo o germe da busca do poder? E o do desprezo por acréscimos de produções materiais?
Por que a propalada “igualdade de oportunidades” é lembrada para seres que nascem com estruturas mentais e físicas diferentes? Não seria melhor “geração de oportunidades compatíveis com a estrutura de cada ser”?
Por que “não se produz segundo as próprias possibilidades e se consome segundo as suas necessidades”?
Por que a necessidade desta organização da sociedade, quando a elite econômica, que deveria ter uma das maiores responsabilidades, é tão irresponsável?
Por que um número razoável dos políticos não tem o mínimo grau de consciência social?
Porque foram eleitos por pessoas planejadamente despolitizadas e, portanto, manipuláveis.
Por que há a necessidade de lideranças, que frequentemente traem os liderados? Porque o sistema de governo anárquico, para o estágio atual de desenvolvimento da humanidade, não é viável. Um movimento contra lideranças, à medida que teria que ser liderado por alguém, seria um movimento natimorto.
Por que a morte de semelhante pertencente a outro povo, principalmente se este povo for considerado inimigo, não causa tanta comoção?
Por que existem diferentes nações, podendo algumas serem inimigas?
Por que a hegemonia de nações sobre nações?
Por que o desenvolvimento tecnológico bélico? Por que a produção de armamentos?
Por que a existência? Por que não o vácuo, a escuridão e o nada?
Por que tantas indagações?

Dezembro de 1996