03 agosto 2017

Quantas vezes irão tentar matar Getúlio?

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia e do CREA-RJ

Getúlio foi assassinado em 24 de agosto de 1954. Quem puxou o gatilho que lhe varou o coração foram seres abjetos, como Carlos Lacerda, os componentes da república do Galeão, além das aves de rapina denunciadas pelo próprio Getúlio em sua carta testamento. Todos tinham o dedo no gatilho do revolver assassino. Vira e mexe, ouvimos as investidas da elite excludente, querendo aumentar seus lucros com a pauperização dos indefesos. Estes que tinham em Getúlio, seu defensor incondicional.
Quando Fidel Castro morreu, o jurista José Paulo Cavalcanti Filho escreveu um texto dizendo, basicamente, que existiram dois Fideis, sendo o primeiro aquele que libertou o povo cubano do déspota Fulgencio Batista, trouxe muitos benefícios para este povo e era companheiro de Che Guevara. O segundo Fidel, dito de forma sumária, foi o ditador.
O escritor acrescentou: “Qual dos dois Fideis vai sobreviver? Eis a questão. É cedo para saber. Hitler recuperou uma Alemanha despedaçada; mas ficou, apenas, como um assassino frio de judeus. Enquanto Getúlio Vargas, que ascendeu ao poder numa espiral autoritária, permaneceu pelos compromissos com os trabalhadores. E por ser responsável pelas bases econômicas de um Brasil moderno.
Resta saber também quem os “vencedores”, os que contam a história, querem que a lembrança perdure ou desapareça. Muitas vezes, o culto à memória de um morto é incomodo para a elite dominante sob o ponto de vista político. Portanto, os que se sentem mal com o culto tratam de matar o morto, o que seria sua segunda morte.
Como herói do nosso povo, Getúlio tem sido trazido do túmulo, frequentemente, ou para salvar a sociedade brasileira ou ser considerado culpado pelas mazelas que nos afligem. Na década de 90, falava-se até em “sepultar a era Vargas”.
Hoje, com a tranquilidade de quem é dono da mídia tradicional e, assim, pode transformar mentira em verdade, desmerecem a obra social de Getúlio para afastá-lo da memória coletiva como o “pai dos pobres”. Ou seja, dedos apressados, querendo ganhar notoriedade, buscam também puxar o gatilho para, agora, matar o legado de Getúlio. Chega-se a dizer absurdos como: a CLT não está atualizada e não beneficia o trabalhador porque proíbe mais contratações. Ou seja, o desemprego não é causado pela recessão imposta, mas graças à CLT.
Em Filosofia, fala-se das duas mortes de um homem. A primeira é a tão temida por todos e a segunda ocorre quando seu legado é esquecido. A mitologia grega descreve o dilema de Aquiles, que poderia morrer jovem e ser lembrado por séculos pelos seus atos heroicos ou morrer de velhice com a família, porém desconhecido.
O plano para a chegada ao poder dos inimigos do povo inclui, objetivando o sucesso do intento, o compartilhamento do poder com outros grupos. No caso atual, o Congresso está compartilhando o poder com o Judiciário, a mídia, a elite econômica e, provavelmente, com certo país estrangeiro. Uma trama desta magnitude tem grande chance de enganar o povo, a ponto de ele vir a escolher caminhos que lhe são prejudiciais. O triste povo precisa desenvolver defesas contra este plano maquiavélico de poder. O maior e primordial passo deve ser buscar ter acesso a fontes de informações fidedignas.
Sobre o ato de se fazer justiça, principalmente, levando em consideração o princípio da presunção da inocência, é sugerido que o filme antigo “Doze homens e uma sentença” seja assistido. O espectador verá que o juiz Moro não parece em nada com o jurado representado pelo ator Henry Fonda. Principalmente, por este não ter ódio ao suposto criminoso, nem compromisso com ninguém para condená-lo.
Tenho esperança que não conseguirão assassinar, de novo, Getúlio, através de acusações a seu legado pela mídia tendenciosa, sem possibilidade de contraponto e sem racionalidade social! Getúlio, em sua segunda carta testamento, a que foi manuscrita e é pouco conhecida, diz profeticamente: “A resposta do povo virá mais tarde ..." Podendo ser acrescentado: “Getúlio vive e viverá para sempre entre nós”.

14 julho 2017

Ápice da transgressão neoliberal

(Publicado no Correio da Cidadania a partir de 14/07/17)

Paulo Metri

Os últimos acontecimentos seguiram um script com lógica irretocável levando em conta o momento mundial e as condições brasileiras. Uma nova onda neoliberal está varrendo o ocidente e, por isso, não é obra da roleta do destino assumirem as chefias de Estado ou de governo Macron, Macri, Kuczynski, Monti e Peña Nieto, e ocorrer o golpe no Brasil. Todos têm em comum, inclusive Temer, terem sido guindados ao poder com forte apoio do capital.
 O sucesso de experiências mais compromissadas com a sociedade e de menor subserviência aos mercados, do início do atual século, não foram bem transmitidas para a nova geração, perdendo-se na memória dos mais velhos, cujas teses precisam ser combatidas, pensam os jovens, para que eles possam trilhar seus caminhos. Sem garantir que a opção mais atraente para a sociedade é imune a erros, ela é melhor que o liberalismo econômico.
Sinais foram emitidos pelo Fórum Econômico Mundial do que estava por vir. Não importará qual será o número da reedição do neoliberalismo, elas sempre trarão exclusão social. As agências reguladoras do mercado são retumbantes fracassos, quando vistas como órgãos para não permitir a exploração da sociedade pelas corporações, e são esplendorosos sucessos como parte do processo de ludibrio da sociedade, pois permite a espoliação sem existir reação.
O ardiloso capital sempre soube que não poderia enganar tantos durante tanto tempo, se a sociedade recebesse informações corretas. Sentiu que a mídia tinha que ser dominada para poder a sociedade também ser. Como consequência, em países com população pouco politizada, não existe mais mídia independente, que analisa os fatos, dá as diversas versões, faz projeções para o futuro, podendo até recomendar posições, mas que deixa as conclusões para seus clientes tomarem. No Brasil, a mídia tradicional ou convencional não é independente. Como consequência, muitos brasileiros estão mal informados, o que é pior do que estarem desinformados.
Trata-se de um escárnio, a nova lei do trabalho, aprovada pelo Congresso e a ser sancionada por Temer, considerando que se está no século XXI. Não existe uma pessoa honesta que a ache boa, a menos que seja um alienado político. Se for necessário criar um teste para separar os seres do bem e os maus-caracteres, sugiro uma única pergunta: “A nova lei do trabalho é boa ou má para o trabalhador?” Assim, com o poder econômico e a mídia tendenciando as eleições, e sendo a sociedade pouco politizada, ela dificilmente irá crescer.
Outra aberração social e, também, aberração jurídica e democrática, foi o Moro condenar Lula a nove anos e meio de prisão. Não vou repetir os argumentos de juristas fora da influência do capital, até porque eles estão na mídia alternativa, mas este fato é outra involução da sociedade brasileira. Finalizando a penca de infelicidades recentes, a permissão para Temer ser investigado, solicitada pela Procuradoria Geral, foi rejeitada na CCJ da Câmara.
O que estes três fatos mostram, além da proximidade das suas ocorrências, é que eles irão permitir ao capital continuar acumulando riquezas em futuro próximo. Moro se motivou para condenar Lula mais pelo seu “crime” de tirar 32 milhões de miseráveis das suas tristes condições. Se fosse bastante franco, este juiz escreveria na sentença proferida o seguinte: “Cada grupo de 3,368 milhões de miseráveis retirados da morte próxima, por governante traidor dos princípios do liberalismo econômico, merece um ano de prisão, para servir de exemplo para que ninguém mais ouse mexer na exclusão social, cuja consequente mais valia usurpada abastece nossa burguesia”.
Contudo, uma onda contra o neoliberalismo está despontando no horizonte. Tem-se o “Podemos” espanhol, a “França Insubmissa”, o novo trabalhismo inglês, com Jeremy Corbin, o Movimento Regeneração Nacional do México com Lopez Obrador e, também, Bernie Sanders, nos Estados Unidos. Mas, esta nova onda não tem a força de penetração nas massas que têm a mídia controlada e os marqueteiros pagos pelo capital.
Desta forma, se os brasileiros querem que uma onda positiva chegue ao Brasil e expulse a corja de neoliberais corruptos incrustrados em diversas das nossas instituições, só tem uma receita: ir para a rua para protestar, sabendo que só contará com a mídia alternativa. Se a massa que aderir às manifestações for expressiva, tudo será possível, inclusive eleições diretas já!

20 junho 2017

Base de Alcântara

(Publicado no Jornal Brasil Popular de 22/06/17)

Paulo Metri

A Coroa Portuguesa, quando a Colônia foi invadida por franceses e holandeses, lutou para expulsá-los. 60 mil brasileiros morreram para que não houvesse perda de território nacional para os invasores paraguaios. O Barão do Rio Branco dedicou parte da sua vida à expansão das fronteiras nacionais. Agora, há a intenção de esta Base ser entregue sem usufruto algum para a nossa sociedade aos Estados Unidos da América (EUA).
Este país comprou, conquistou através da força, ou negociou territórios com o Reino Unido, a França, a Espanha, o México, a Rússia e o Canada, para quase triplicar a sua área original. O usurpador do governo brasileiro, não representativo do nosso povo por ser golpista, quer entregar parcela do território nacional para os EUA, para a instalação de base militar.
Se fosse por compensação financeira, o Brasil lucraria muito mais com o serviço de lançamento de satélites, a partir de sua própria base e seu veiculo lançador. Alcântara, devido ao seu posicionamento estratégico na linha do Equador, é cobiçada.
Sendo Alcântara entregue aos EUA, a área será território estadunidense e serão proibidas inspeções pelas nossas autoridades do que lá existe. Em situação de guerra, Alcântara, será usada pelos EUA, certamente, para o lançamento de mísseis com ogivas nucleares. Sem ser o único, é conhecida a postura belicista deste país.
A Alínea a do Inciso XXIII do Artigo 21 da nossa Constituição diz que: “toda atividade nuclear em território nacional somente será admitida para fins pacíficos e mediante aprovação do Congresso Nacional”. Assim, existe um impasse constitucional.
Além disso, a partir do momento que existirem misseis nucleares no Brasil, potenciais adversários dos EUA passam a direcionar seus mísseis também para o Brasil. Assim, ceder Alcântara é também se colocar no palco de uma eventual guerra nuclear.

31 maio 2017

Setor nuclear, nacionalismo, soberania, mídia e dominação

Paulo Metri

Ao setor nuclear brasileiro, foi sempre dedicada atenção nacionalista, em várias épocas. Contudo, devido ao Brasil ser um país com inúmeras carências e possuir tantas opções energéticas, este setor não foi mais desenvolvido, o que seria benéfico para a própria sociedade. Porem, o que foi feito representa um razoável avanço para um país de desenvolvimento tardio.
A posição brasileira sobre questões nucleares em fóruns internacionais sempre foi de extremo compromisso com a nossa sociedade. O evento mais característico da retidão de um representante nosso ocorreu com o Almirante Álvaro Alberto quando da proposição do governo estadunidense quanto às reservas do mundo de tório e urânio, chamada de Plano Baruch. Em resumo, este plano determinava que elas ficariam sob o controle de uma agência internacional, sobre a qual os Estados Unidos teriam forte influência.
Nesta oportunidade, o Almirante votou contra a proposta, que ele chamava de "tentativa dos Estados Unidos de desapropriar as reservas mundiais" e propôs o Princípio das Compensações Específicas, que significava que nenhuma transação comercial com minerais estratégicos deveria ser realizada com o pagamento em moeda, mas através do fornecimento de tecnologia. Os países subdesenvolvidos, em geral donos de reservas, forneceriam o minério desejado em troca do recebimento de tecnologias.
O Almirante Álvaro Alberto foi também o idealizador da compra de três centrífugas para o enriquecimento de urânio, na Alemanha do pós-guerra, que ainda estava sob o controle norte americano, e de trazê-las para o Brasil. Esta operação não resultou em sucesso. Entretanto, prova que ele sabia, em 1954, sobre a importância desta tecnologia para o Brasil.
No ano de 1962, a criação do Instituto de Engenharia Nuclear (IEN), junto com a construção do reator de pesquisas Argonauta, concluído em 1965 com 93% de índice de nacionalização, representou uma reação do Brasil ao programa “Átomos para a Paz” dos Estados Unidos, que buscava criar dependência dos países em desenvolvimento àquele país com relação à tecnologia nuclear.
Dando um salto na história de uma dezena de anos, durante o governo do General Geisel, em 1975, o Brasil fechou o Acordo Nuclear com a Alemanha, que era muito ambicioso, mas tinha preocupação com a transferência da tecnologia nuclear para o Brasil. Como consequência desta transferência, por exemplo, o Brasil, há anos, fabrica as recargas de elementos combustíveis para as usinas de Angra I e Angra II. Durante a construção de Angra II, tecnologias foram absorvidas e uns poucos componentes foram fabricados na NUCLEP. Infelizmente, o conhecimento está sendo perdido por falta de continuidade na construção das usinas.
O auge da demonstração de querer o melhor para a sociedade brasileira ocorreu com a constituição do Programa Nuclear Paralelo. O objetivo último sempre foi dotar o país da potente arma de defesa, o submarino de propulsão nuclear. Sabe-se que nenhum país do mundo vende este submarino. Assim, o Brasil é obrigado a desenvolver as tecnologias necessárias para possui-lo, sendo as principais, o enriquecimento do urânio e a construção do reator compacto. O submarino necessita do desenvolvimento de outras tecnologias, mas, relacionadas com a energia nuclear e com alto grau de complexidade, são estas duas.
Com relação ao desenvolvimento do enriquecimento de urânio, houve grande sucesso, graças à equipe da Marinha e do IPEN, coordenada pelo Vice-Almirante Othon Pinheiro da Silva. As ultracentrífugas desenvolvidas por ela tinham um desempenho acima das melhores existentes à época. Entretanto, o maior valor desta equipe não foi a sua cultura técnica, que era grande, nem a sua capacidade inventiva. Foi, principalmente, o seu comprometimento com a sociedade brasileira. Todos os membros da equipe se esforçaram para conseguir este grande feito.
No momento presente, o país vive o assédio de forças neoliberais e entreguistas. Mas a população começa a reagir, apesar de todo controle midiático que se tem sobre ela. Trata-se do maior controle de informações já visto no país. Nem os militares com seus sensores com tesouras vetavam tanto o que o povo podia saber. Hoje, se não fossem as redes sociais, que buscam conscientizar a população, esta não saberia o que ocorre e, na próxima eleição, votaria contra os seus próprios interesses.
As relações interestatais e o desenvolvimento de cada nação explicam, em parte, a ascensão e a queda da vertente nacionalista em muitos países. Pode-se superpor a curva das decisões neoliberais e entreguistas ao longo do tempo com a curva do grau de soberania do país no tempo. Será notado que, quando o Brasil está em fase mais soberana, as decisões neoliberais e entreguistas são menores. Portanto, deve-se buscar aumentar o grau de soberania para usufruto da sociedade. Na atual fase dos Estados Nacionais, há extrema invasão dos países colonizados pelos colonizadores visando aumentar o grau de dominação.
Países com alto grau de soberania protegem seus mercados, seus setores estratégicos de indústrias e serviços, suas universidades fronteiras do conhecimento, suas fontes geradoras de tecnologia e sua cultura. Os brasileiros, enganados pelas empresas de comunicação de massa, em um sistema sem regulação, permitem que o país seja completamente dominado. Hoje, pode-se dizer que o Brasil é um relativo sucesso de dominação por capitais e países estrangeiros.
Em um novo formato de dominação de sociedades, forças armadas foram substituídas por eficientes empresas de entretenimento e comunicação. Não se desembarca mais em praias para tomar de assalto um país. Basta possuir uma forte empresa de comunicação e se começar a divulgar inúmeros conceitos errados, como, por exemplo:
1.      O Brasil pode se desenvolver, com aumento do IDH, graças à entrada maciça de capital estrangeiro no país.
2.      Não há setor industrial que necessite da existência de empresas estatais.
3.      Em setores com predominância de empresas privadas, são necessárias agências reguladoras para, dentre outros objetivos, proteger a sociedade.
4.      O Brasil pode ter sua segurança física garantida pelos Estados Unidos, não necessitando gastar em projetos militares custosos.
5.      Há mais de 150 anos, o Brasil não entra em conflito com nenhum dos seus vizinhos, o que corrobora a tese de não precisar ter forças armadas fortes.
6.      As barreiras à importação, também conhecidas como reservas de mercado, só servem para criar atraso tecnológico e ineficiência produtiva.
7.      Para atrair o capital estrangeiro, importante para nosso desenvolvimento, devemos minimizar os impostos de uma forma geral sobre a atividade produtiva.
Sempre fizemos parte da zona de influência dos Estados Unidos. Tivemos presidentes com maior preocupação com relação à soberania, como Vargas, Goulart e Geisel. Durante os governos Lula e Dilma, o Brasil chegou a mostrar “rebeldias”, na busca por maior grau de soberania, como quando se juntou aos países do BRICS, ao formar a UNASUL, ao participar da criação de um banco de desenvolvimento ligado ao BRICS, ao concordar em transacionar mercadorias em moedas dos países do BRICS, ao comprar caça e submarino com absorção de tecnologia, ao procurar desenvolver o submarino nuclear, ao aprovar o contrato de partilha para o Pré-Sal, ao apoiar a Petrobras ser a operadora única do Pré-Sal, ao exigir as compras locais e, assim, por diante.
 Todas estas atitudes, apesar de não terem agradado aos capitais internacionais, não podem ser consideradas nem agressões, nem hostilidades, pois simplesmente elas eram do interesse brasileiro. Este acréscimo de soberania tem sido perdido a partir do momento em que Temer tomou a presidência.
Por incrível que possa parecer, graças ao grande número de empresas estrangeiras instaladas no país, à nossa lei generosa de remessa de lucros, à debilidade das nossas forças armadas e à subserviência das nossas atuais autoridades, o Brasil está muito longe de ser um palco de guerra. Em outras palavras, nosso país tem aceitado, recentemente, todas as imposições colocadas pelo país imperial. Além disso, não estamos na fronteira entre potências mundiais. Um país do Oriente Médio, da Ásia Central e do Leste da Europa são possíveis palcos de guerra.
Por outro lado, existem tantos conceitos errados, hoje, no nosso país. Por exemplo: “o Brasil não precisa de Forças Armadas”, “a geopolítica é coisa de militar” e “comprar ou desenvolver armamentos é jogar dinheiro fora”. Resta procurar destruir todos os conceitos errados propositadamente colocados para a população.
Existe um dado novo no setor nuclear quase paralisado. Empresas estrangeiras de construção e operação de usinas nucleares querem a mudança da Constituição para que ocorra o término do monopólio estatal neste setor. Com isso, estas empresas irão concorrer com aquelas que produzem energia elétrica a partir de energia hidráulica, eólica, solar, em térmicas a partir de combustíveis fósseis etc. Certamente, as empresas estrangeiras de geração nucleoelétrica devem ter segurança que poderão gerar kwh mais baratos que aqueles gerados com as demais fontes. Está-se analisando somente uma das aplicações da energia nuclear, mas ela é a que movimenta os maiores volumes de recursos.
Infelizmente, uma parte dos investimentos feitos no passado para o Brasil ter domínio desta tecnologia, está sendo jogada no lixo, hoje. A maior tristeza de um país subdesenvolvido não é a carência de recursos para impulsionar os seus diversos projetos, mas é o fato de, tendo enormes carências, parte dos poucos recursos existentes ser jogada no lixo. Seria oportuna a elaboração, junto com a sociedade, de um projeto nacional a ser seguido por todos.

12 maio 2017

Nunca visto

Paulo Metri - conselheiro do Clube de Engenharia

Vejo, pela cidade, cenas que minha retina já registrou no passado. A população de mendigos, que tinha crescido nos anos 90 do século passado e declinado nos anos 2000, voltou a crescer. Pelo menos por onde eu ando, vejo fila de mendigos nas calçadas com seus pedidos de esmola angustiantes, dizendo que têm fome, algo de cortar o coração.
Como, em toda sociedade, existem aqueles que pensam conservadoramente, um amigo, para o qual eu contei este fato, retrucou: “quanto melhor a representação, maior a chance de se receber a esmola e, ainda, de maior valor”. Supondo verdadeira esta afirmação, de qualquer forma, ainda resta a dúvida: “Por que ele passou a aceitar esta humilhação para obter algum trocado, uma vez que ela não era uma prática em passado recente?” Acho que realmente as barrigas devem estar reclamando mais.
As ruas estão mais sujas, os mendigos estão sempre com suas trouxas em carrinhos de compras velhos, cheios de folhas de papelão, que servem para isolá-los do frio das calçadas. A parcela de mendigos com comportamento desequilibrado aumentou também, o que é compreensível porque a miséria vem junto com a fome, a humilhação, o desespero, a depressão, enfim, ela traz o desequilíbrio mental.
Os mendigos se aglomeram nas portas das igrejas, pois descobriram que seus frequentadores, em geral, acreditam que suas almas irão para o céu, se forem generosos. Portanto, a porta da igreja é o local exato onde eles dão esmolas, pensando em aliviar suas culpas e garantir o reino do céu.
Sobre mendigos nas portas das igrejas, lembro a história do jovem casal, filhos de dois caciques da política fluminense, que iam casar e escolheram uma das três igrejas coladas, existentes na Rua Primeiro de Março no Centro do Rio. Como os mendigos poderiam constranger os convidados e tornar feias as fotos, atendendo ao pedido de um dos pais, uma fundação estadual que abriga desamparados os coletou de forma nada gentil antes da cerimônia.
No entanto, eles deixaram o seu fedor, o que quase enfartou a responsável pela cerimônia. Desodorizantes de ambientes foram comprados às pressas e o ar da entrada da igreja foi pulverizado para tirar o “cheiro da miséria”. Assim, sugiro o número médio de mendigos na porta de igrejas como um componente da avaliação do IDH de um país.
O Brasil de Temer parece, cada vez mais, com o Brasil de FHC. Malditos os economistas e os políticos neoliberais que são os planejadores e executores das catástrofes sociais. São competentes ao assassinar os mais carentes, por inanição ou falta de atendimento médico, e em arruinar uma nação. Competentes ao transferir renda e riqueza da grande massa para a oligarquia dominante e grupos no exterior.
Entre o parágrafo anterior e este, passaram-se duas semanas, tempo em que este artigo dormitou no computador e eu mudei de opinião. Pensei melhor: o governo Temer é muito pior do que o de FHC, tanto que o título do artigo, que seria “Déjà vue”, foi transformado no atual. Conscientizei-me que Temer está ultrapassando pontos onde FHC teve escrúpulos em avançar. Por medo do fracasso na aprovação de medidas socialmente incorretas ou por ainda ter algum constrangimento ético, FHC não propôs as agressões sociais, defendidas hoje sem o mínimo de pudor por Temer. Este deve ter como lema a frase de um seu provável ídolo, Jarbas Passarinho: “Às favas, todos os escrúpulos de consciência”.
Hoje, temos a barbárie introduzida nas nossas convivências políticas e sociais, ou seja, uma involução social humilhante para a espécie. O grupo promotor das mudanças lembra o assassino que mata o único que o defende, um defensor dos direitos humanos que o julga como irresponsável social, que deve ser guardado em prisão, mas que tem direito à vida. O pobre é o construtor do acúmulo de renda e riqueza do tal grupo, no entanto ele encurta a vida deste pobre.
Não há nenhuma condescendência com os menos dotados e os incapazes. Trata-se da nova política de “Solidariedade zero”. Os subdotados têm que ser explorados porque é o que lhes cabe, se quiserem sobreviver. Assim, eles são culpados das suas condições. Tantos humanistas dedicaram suas vidas para obterem algumas conquistas sociais e elas são perdidas em um dia de votação do Congresso, cujos membros em sua maioria são seres mal formados, indignos de representar o povo.
Mas estes não são os únicos malditos. Tão ou mais malditos são muitos dos proprietários da grande mídia nacional. Se, para uma sociedade, as diversas questões fossem bem explicadas, ela nunca adotaria posições contra si própria. Então, a mídia tradicional conta para o povo versões mentirosas sobre os acontecimentos. A espoliação do povo pela classe dominante nunca é, obviamente, contada, pois esta mídia é ferramenta dos dominadores. Economistas não liberais, sindicalistas e lideranças de esquerda não têm nunca suas posições transmitidas na mídia tradicional.
Contudo, os executores do mal para o povo não se concentram no Executivo, no Legislativo e na mídia. Existem os malditos dentre os interpretadores das leis e julgadores dos membros da sociedade acusados de desvios. Tais malditos pactuariam com a oligarquia contra o povo. Existem até os da falsa oposição, que aparentam não ser malditos, mas só até chegarem ao poder, quando mostrarão as suas maldades. O recebimento dos salários do Judiciário e do Legislativo, em um país de maioria pobre e miserável, em uma interpretação ampla do conceito de Justiça, se constitue em ato imoral. O cúmulo ocorre com os salários de juízes, quando flagrados em ato de corrupção, pois há a tradição de serem “condenados” a uma aposentadoria antecipada com o salário integral!
É um momento triste da história da sociedade brasileira. Desde os primeiros anos da exploração humana no Brasil, que inclui a dos nativos, dos africanos trazidos a força para cá e dos portugueses sem fidalguia, tem-se observado ciclos, em que ora o humanismo consegue suplantar a barbárie e ora os donos do capital e do poder são os que impõem os seus interesses. Hoje, por exemplo, tenta-se impor a precarização das condições do trabalho, além de muitas outras perdas sociais.
Em uma sociedade de castas de fato, como a nossa, a existência delas já é um obstáculo para a conquista de melhorias no bem-estar social, que repercutiriam até na civilidade. Vive-se um momento de negação dos valores éticos rudimentares. Por exemplo, bandidos pés-de-chinelo pensam: “Roubam todos em todos os lugares e a toda hora, por que não posso roubar também?” Arrisco em dizer que o banditismo aumenta em fase de grande desordem social, porque o neoliberalismo exacerbado atual é o banditismo colocado em lei, ou seja, o banditismo legal. Enfim, o exemplo vindo de cima.
Medidas diversas têm sido tomadas pelo capital internacional em diversos países, principalmente naqueles não soberanos. Até background teórico foi criado para justificar o que na realidade é a exploração. São implantadas “modernizações” das relações internacionais, como o livre fluxo de mercadorias e do próprio capital, e “flexibilizações” de medidas de proteção das sociedades. O interessante é que a “modernização” do livre fluxo de seres humanos no planeta não é relevante. Por isso, muitos deles se afogam no Mediterrâneo.
Finalmente, nada aconteceria sem a atuação deletéria dela, a mãe de todos nossos males. Na arquitetura da dominação de países e suas sociedades, a principal ferramenta é a mídia, autora de versões fictícias dos eventos, deturpadora da lógica causal e hipnotizadora das sociedades. Os membros destas se transformam em alienados que votam contra seus próprios interesses e apregoam os mesmos argumentos que ela, tentáculo do capital, lhes dita. São os escravos inconscientes da mídia, de triste condição. Neste quadro, é muito difícil formar uma nação.

02 maio 2017

Não se faz mais homem público como antigamente

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia e CREA-RJ

1.      Introdução
Setores econômicos possuem opções técnicas para as suas expansões, cada uma com diferentes aspectos positivos ou negativos. Estes aspectos consistem, por exemplo, em investimentos, custos, receitas, rentabilidades, desembolsos em moedas fortes, possibilidades de exportação, impactos ambientais, capacidade de geração de empregos no país, volume de compras locais e problemas tecnológicos a resolver.
O único objetivo que deveria nortear todo o processo de decisão de qualquer um dos setores da economia, sob o ponto de vista do administrador público, deveria ser o da maximização da satisfação dos interesses da sociedade. Este objetivo só ocorrerá em um setor com forte participação do setor privado, se existir uma agência reguladora do setor que verdadeiramente cuide dos interesses sociais.
Entretanto, no mundo real, existem dúvidas sobre a precisa definição dos interesses sociais e a gradação da sua satisfação, por conterem subjetividade. Situação esta comemorada pelos vendedores de soluções, pois seu produto pode ser mais facilmente camuflado como a melhor solução.
Atenho-me, especificamente, ao setor nuclear. De passagem, não podem ser esquecidas posições históricas do Brasil quanto ao uso da energia nuclear. A sociedade brasileira não se contentou em só assinar um acordo internacional contra o uso de artefatos nucleares, que seria suficiente para o propósito da não proliferação de armamentos nucleares. Nossa sociedade obrigou a si própria a não usar artefatos deste tipo, mesmo sem nenhum constrangimento externo, pois a Constituição de 1988 foi promulgada com esta proibição.
Desta forma, este trabalho se atém aos usos pacíficos da energia nuclear, basicamente, ao uso na medicina, na agricultura, na indústria e para a geração elétrica. Vale lembrar que o mercado mundial de bens e serviços do setor nuclear movimenta anualmente bilhões de dólares.
Nosso país tem urânio, a capacidade de enriquecê-lo e de fabricar elementos combustíveis e equipamentos para as usinas nucleares, além da capacidade de produzir radioisótopos. Com estas capacidades, ele pode participar do mercado mundial ofertando bens e serviços. É claro que encontrará fortes competidores neste mercado.
 
2.      Evolução do setor nuclear no Brasil
A posição brasileira em acordos internacionais, ao longo dos anos, foi sempre de extremo compromisso com a nossa sociedade. O evento mais característico da retidão de um representante nosso ocorreu com o Almirante Álvaro Alberto quando da proposição do governo estadunidense quanto às reservas do mundo de tório e urânio, chamada de Plano Baruch. Em resumo, este plano determinava que elas ficassem sob o controle de uma recém-criada, à época, agência internacional da ONU, sobre a qual os Estados Unidos tinham forte influência.
Nesta oportunidade, o Almirante votou contra a proposta, que ele chamava de "tentativa dos Estados Unidos de desapropriação das reservas" e propôs o Princípio das Compensações Específicas, que significava que nenhuma transação comercial com minerais estratégicos deveria ser realizada com o pagamento em moeda, mas através do fornecimento de tecnologia. Os países subdesenvolvidos, em geral donos de reservas, forneceriam o minério desejado em troca de tecnologia.
O Almirante Álvaro Alberto foi também o idealizador da compra escondida de três centrífugas para o enriquecimento de urânio, na Alemanha do pós-guerra, ainda sob o controle norte americano, e de trazê-las para o Brasil. Infelizmente, esta operação não resultou em sucesso. Contudo, ele já sabia, em 1954, sobre a importância desta tecnologia para o Brasil.
No ano de 1962, a criação do Instituto de Engenharia Nuclear (IEN), junto com a construção do reator de pesquisas Argonauta, concluído em 1965 com 93% de índice de nacionalização, representou uma reação do Brasil ao programa “Átomos para a Paz” dos Estados Unidos, que buscava criar dependência dos países em desenvolvimento àquele país com relação à tecnologia nuclear.
Dando um salto na história de uma dezena de anos, o Brasil, durante o governo do General Geisel, em 1975, fechou o Acordo Nuclear com a Alemanha, que pode ter sido megalômano, mas tinha preocupação com a transferência da tecnologia nuclear para o Brasil. Como consequência desta transferência, por exemplo, o Brasil, há anos, fabrica as recargas de elementos combustíveis para as usinas de Angra I e Angra II. Durante a construção de Angra II, tecnologias foram absorvidas e uns poucos componentes foram fabricados na NUCLEP. Infelizmente, o conhecimento está sendo perdido por falta de continuidade na construção de usinas.
O auge da demonstração de querer o melhor para a sociedade brasileira ocorreu com a constituição do Programa Nuclear Paralelo. O objetivo último sempre foi dotar o país da potente arma de defesa, o submarino de propulsão nuclear. Sabe-se que nenhum país do mundo vende tecnologia militar. Assim, o Brasil foi obrigado a desenvolver as tecnologias necessárias para poder ter o submarino, basicamente o enriquecimento do urânio e a construção do reator compacto. O submarino necessita do desenvolvimento de outras tecnologias, mas, relacionadas com a energia nuclear e com alto grau de complexidade, são estas duas.
Com relação ao enriquecimento de urânio, o sucesso foi imenso, graças à equipe do Vice-Almirante Othon Pinheiro da Silva no Programa Paralelo. As ultracentrífugas desenvolvidas por este grupo tinham um desempenho melhor que as melhores existentes, então. Tomando o Vice-Almirante Othon como exemplo, seu maior valor não é a sua cultura técnica, nem a sua inventividade demonstrada. É, principalmente, o seu comprometimento com a sociedade brasileira. Ele, assim como outros membros da equipe, deve ter recebido propostas milionárias para descrever a solução tecnológica adotada. Como o tempo passou e não surgiram ultracentrífugas estrangeiras tão eficientes como as nossas, imagina-se que ninguém aceitou o suborno.
 
3.      Constatações
Esta primeira análise do setor nuclear evitou propositalmente entrar no debate da questão ambiental, não por ela não ser importante, mas porque iria-se sobrepor uma discussão em cima de outra. Mas, certamente o tema merece uma discussão profunda.
Se há um setor brasileiro da atividade econômica em que, na maioria das situações durante a sua existência, os tomadores de decisão, homens públicos, tiveram a preocupação com o atendimento da melhor forma possível para a nossa sociedade, este setor é o nuclear.
Infelizmente, a realidade atual do nosso país consiste do Executivo em conluio com o Congresso estar implantando um misto de modelo neoliberal exacerbado, tendo como beneficiária a oligarquia interna, com um modelo externo entreguista, com as empresas estrangeiras como beneficiárias. O povo é totalmente alijado da discussão e desrespeitado, pois não lhe dão satisfação, mentem, camuflam propostas, tendo total auxilio da mídia tradicional e corrupta. Um vislumbre de esperança acabou de brotar nos corações fatigados por tanta tortura, que foi a greve geral de 28 de abril.
Com relação ao setor nuclear, os atuais mandatários no poder querem destruir tudo construído no país em 70 anos. O Brasil deve entregar seu urânio, suas ultracentrífugas, sua fabrica de elementos combustíveis e a de equipamentos pesados, seu mercado consumidor de energia elétrica e suas riquezas na Amazônia Azul. Ou seja, devemos voltar a ser colônia.
Desculpem-nos Almirante Álvaro Alberto e todos os precursores do setor que se dedicaram à sociedade brasileira. O trabalho de vocês está sendo jogado no lixo. Desculpem-nos por não reagirmos, quando podíamos, contra uma mídia vendilhona da Pátria. Desculpem-nos por termos escolhido congressistas tão ruins. Só não precisam nos desculpar com relação ao mandatário maior, pois este nós não escolhemos.

25 março 2017

Terceirização a todo vapor

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia

O poder econômico conseguiu mais uma vitória neste Congresso de figuras tristes, desvinculado da sociedade e completamente subserviente ao capital. Um Congresso, que é contra seu próprio povo, só é explicado pela baixa conscientização política deste povo, consequência da atuação de um cartel de mídia, tentáculo do capital. Este Congresso, que pode ser legal, mas é ilegítimo, aprovou, sem delonga alguma, uma lei que permite a terceirização de inúmeras atividades antes preservadas à boa execução. A partir deste caos, com o intuito de acordar a população, sugiro algumas outras maldades que este Congresso e o Executivo não menos nefasto podem decidir, aperfeiçoando o desastre.
Para que as Forças Armadas tradicionais? Vamos terceirizá-las. Têm tantos mercenários baratos no mundo, psicopatas ávidos por confrontos. Vai ser uma boa economia para os cofres públicos. Além do mais, não existe mais patrimônio nacional genuíno para ser guardado. Os congressistas, com raras exceções, e Executivos neoliberais, incluindo o atual, já o transferiram. Há muito patrimônio, geograficamente localizado no Brasil, que, hoje, pertence a empresas estrangeiras. As nossas Forças, depois de tantos orçamentos ridículos, ano a ano, não podem ser mais consideradas como “forças”, mas, também não precisam mais defender o povo. Dentre o povo brasileiro, hoje, só existem os escravos e os prepostos dos dominadores, que nunca sofrerão agressões externas, pois são fatores de produção dos alienígenas.
Neste ponto, lembro-me do poema “No caminho com Maiakovski” do brasileiro Eduardo Alves da Costa. As Forças Armadas, que ficaram tão caladas quando o petróleo nacional foi escancarado, a Vale foi vendida por migalhas, a vigilância da Amazônia foi entregue a empresa estrangeira, a presidente da República foi grampeada e o nosso Pré-Sal foi doado, hoje não têm mais a possibilidade de ser guardiães da inexistente soberania nacional. Ficaram presas a interpretações erradas do conceito de “Ordem e Progresso”, como, por exemplo, que manifestações contra o “entreguismo” era a sublevação da “Ordem” e que multinacionais instaladas no país representavam o “Progresso”. Deviam ter se espelhado no general Horta Barbosa, no Almirante Álvaro Alberto e no Brigadeiro Francisco Teixeira.
Sugiro que a Quarta Frota, que já tem a incumbência de garantir a navegação no Atlântico Sul para os interesses dos Estados Unidos, seja acionada para garantir a segurança do Pré-Sal. Afinal de contas, com a nova política para esta área, ocorrerá um número cada vez maior de petrolíferas estrangeiras na área. Como se trata da segurança de empresas e patrimônios estrangeiros, chamar uma terceirização gratuita é uma enorme economia.
Como a soberania nacional não é mais relevante e o serviço diplomático é caro, as atividades do Itamaraty poderiam ser terceirizadas também. Como o governo brasileiro tem, atualmente, relações carnais com o governo dos Estados Unidos, os embaixadores deste generoso país cuidariam dos poucos interesses do Brasil.
Como o destino pode ser irônico, o inteligente empresariado nacional, com sua visão de curto alcance, não se deu conta que, com a terceirização extremada, restará menos recursos para o consumo das famílias, o que repercutirá na demanda agregada e, consequentemente, no PIB. Podem, então, descobrir que a rentabilidade das empresas seria maior se tivessem permanecido com os empregados mais caros e competentes.
Uma questão de menor valor para ser citada, chegando a ser um desperdício de espaço neste artigo, é a questão ética. As tristes figuras do Congresso usaram a artimanha de reviver um projeto de lei de autoria do governo de FHC, cujas posições políticas foram refutadas quatro vezes nas urnas. Em uma compreensão abrangente do termo corrupto, os atuais congressistas governistas, se já não são denunciados como corruptos, são porque se opuseram ao desejo do povo. Simplesmente, esqueceram de arquivar o projeto, mas os algozes do povo, sempre prontos para inovar em suas maldades, o aproveitaram.
Têm horas que fico pensando como deve funcionar a cabeça destes nefastos seres. Eles sabem que este governo, aliás, com mandato roubado, só será lembrado por ter sido um dos piores da história da subserviência do país ao capital, em detrimento da sociedade. Pergunte a um brasileiro, que não seja um professor de História, mas tenha algum conhecimento: “O que você já ouviu falar do governo Dutra?” Muitos deles responderão: “Ele importou ioiô.” Assim, após a decantação providenciada pelo tempo, do governo Temer só se saberá que foi composto de carrascos do povo.
Será que ele acha que foi bastante inteligente ao conseguir articular um golpe contra quem representava legitimamente o povo? Será que ele não notou que muitos devem ter sido sondados para golpes de outros tipos e não se dispuseram a fazer papel tão indigno? Será que ele não sabe que está sendo usado para fazer tudo que o capital e interesses estrangeiros querem e, logo depois que findar o mandato, será esquecido por todos, inclusive pelos atuais participes do butim? Será que ele não imagina que seu filho ao crescer ouvirá constrangedoras verdades sobre o seu pai?
 Como a vida continua, apesar destes miseráveis e de suas ações deletérias, sugiro à sociedade continuar lutando. Para os identificadores de comunistas, esclareço que sugiro a luta não física, mas toda ação permitida pela lei, como greve, redação de panfletos, jornais e outros, manifestações, discursos, acesso à população por canais alternativos, tipo internet. Tem um aspecto doloroso, mas que traz esperança: os maus tratos dos “coisas ruins” são tão grandes que ajudam a conscientizar.

13 março 2017

Resgate da Petrobras e do Pré-Sal para a sociedade

(Publicado no Jornal dos Economistas de Março de 2017)

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia e do CREA-RJ

A Petrobras foi criada, em 1953, em atendimento a grande mobilização popular, ocorrida nos seis anos anteriores, reivindicando que a riqueza do petróleo, se descoberto, pois era desconhecido à época, deveria ser usufruída por brasileiros. Ou seja, visionários foram às ruas, dizendo na verdade que “o petróleo seria nosso”!
Atualmente, existem inúmeras evidências sugerindo que lideranças políticas e a grande mídia abraçam a campanha “O petróleo não precisa ser nosso”, tal o grau de entrega que fazem no setor e, hoje, diferentemente do passado, sabe-se que existe muito petróleo no país. Ele, se bem aproveitado, irá resultar em invejável índice de desenvolvimento humano para a sociedade brasileira. Somando as descobertas recentes declaradas pela Petrobras, porem ainda não certificadas, chega-se a uma cifra entre 30 e 40 bilhões de barris. No entanto, se interesses políticos não a proibirem de concorrer para arrematar novos blocos, ela passará a ter mais de 100 bilhões de barris.
Mas, a mídia e políticos conservadores transmitem que o melhor para o país é ter a exploração e produção de petróleo concentrada em empresas privadas reguladas por uma agência que imporia os interesses do Estado, do que em uma estatal, pois mais investimentos estarão disponíveis e uma melhor eficiência será obtida. Começa que o setor privado não é necessariamente mais eficiente que o setor estatal. Além disso, só se pensa em eficiência financeira e, não, em eficiência social, que é mais importante e uma estatal atende melhor.
A escolha dos investimentos no setor deve considerar os impactos sociais a serem obtidos, como acarretar o máximo de compras locais, empregar o máximo de brasileiros, desenvolver o máximo de tecnologia no país. Neste sentido, a retirada da Petrobras da condição de operadora única do Pré-Sal foi uma decisão contrária aos interesses da sociedade brasileira. Argumentou-se à época que havia pressa para a exploração do Pré-Sal, quando os investimentos lá aplicados devem seguir a velocidade que traz o máximo usufruto social.
A atuação planejada da Petrobras no Pré-Sal pode induzir um novo ciclo de desenvolvimento para o país. Por outro lado, muitas agências reguladoras estão “capturadas” pelos entes a serem regulados. Então, aqueles que desejam ver uma sociedade mais justa no Brasil devem buscar outro modelo sem agência para o setor do petróleo, lembrando que o país precisa ser soberano para poder garantir impactos sociais relevantes, e sabendo que a Doutrina Monroe, com suas atualizações, nunca foi abandonada.
Uma discussão escondida da população é em quais atividades o Estado satisfaz melhor os interesses da sociedade. Além das típicas do Estado, devem ficar com ele também os empreendimentos de infraestrutura com grande prazo de maturação e baixa rentabilidade, atividades que requerem alto grau de segurança, as que resultam no aumento da soberania nacional e as que geram lucros estratosféricos. O setor de petróleo se enquadra em mais de uma destas categorias. No entanto, a cartilha neoliberal se prende a um único objetivo, a maximização do lucro, supostamente atingido pelas petrolíferas privadas e que, aliás, a sociedade pouco usufrui.
Hoje, infelizmente, a nossa sociedade, acreditando nas informações destorcidas pela mídia, pensa que a Petrobras deve muito acima da sua capacidade de pagamento. Assim, a tese que a Petrobras precisa vender ativos para pagar sua dívida é aceita pela população. Contudo, ela não é verdadeira, como pode ser observado em “A construção da ignorância sobre a Petrobras” de Felipe Coutinho, presidente da Associação de Engenheiros da Petrobras (AEPET).
É importante conhecer as atuações passadas, em outros países, das petrolíferas estrangeiras, pois pela intenção de Temer e Parente, elas atuarão em novos empreendimentos no Brasil. Encontra-se na literatura que barreiras éticas não foram respeitadas por estas empresas nas ações para atingir seus objetivos. Foram protagonistas de tomadas de poder, financiamentos de guerras, assassinatos, corrupções e outras tramas. Mesmo sabendo que as posições no mundo mudam, será difícil confiar nas medições delas da produção de petróleo, das quais dependem os valores dos tributos. Como confiar nos gastos declarados em segurança das operações e em proteção ao meio ambiente? Uma estatal, não visando exacerbadamente o lucro, tende a não fazer estes absurdos.
A atual atuação das petrolíferas estrangeiras é escamoteada, pois inclui a compra de políticos para a aprovação de uma legislação que dissimula a maximização do lucro, e a divulgação, através da mídia cooptada, de inverdades ou a não divulgação de assunto relevante. Assim, conclui-se que as petrolíferas estrangeiras, diferentemente da estatal, não objetivam grande contribuição social.
Ocorre no Brasil, hoje, uma investida das petrolíferas e outras empresas estrangeiras ao patrimônio da Petrobras. Existe também a investida dos “espertos” acionistas da Petrobras no exterior. Eles aproveitam o momento vulnerável da empresa, a falta de apoio do governo e a colaboração inexplicável de nossas autoridades para apresentar reivindicações possivelmente injustas. Parente aplicou o “impairment” de necessidade duvidosa para calculo do valor de vários patrimônios da empresa, acarretando preços vis. Parente buscou acabar com a empresa integrada que possui todas as áreas que maximizam o retorno da produção de petróleo, aquelas com alta agregação de valor.
No entanto, a Petrobras reage a estes descalabros aumentando a produção do Pré-Sal, o que compensa a diminuição da produção da bacia de Campos e diminuindo a necessidade de importação de petróleo. Tudo isto dificulta Parente de providenciar uma privatização maior.
Ele buscou definir como objetivo da Petrobras a descoberta e produção de petróleo, o que ela faz muito bem. No entanto, vender petróleo in natura, com pouco valor agregado, para petrolíferas estrangeiras, que são integradas, significa transferir lucro para os competidores. Temer e Parente fazem hoje um desrespeito para com todas as gerações de administradores e funcionários da empresa, presidentes e ministros da República, e políticos diversos que, durante 63 anos, sustentaram o desenvolvimento desta empresa e a tornaram um orgulho nacional. Ou seja, ela é a prova que os brasileiros não são atavicamente subdesenvolvidos. É por esta razão que se conclui que eles estão tentando destruir não a empresa, mas o orgulho nacional.
Para o término das obras da COMPERJ e outros empreendimentos, Parente pretendeu chamar só empresas estrangeiras. Ele buscou transferir uma parcela do campo de Carcará para a Statoil e outros campos para a Total, todos a preços vis. A Noruega e a França aceitaram de bom grado o neocolonialismo. Ele se opôs à exigência de conteúdo local, junto com as petrolíferas estrangeiras. Ele tentou vender a Liquigás, distribuidora de GLP, e uma participação na BR Distribuidora, com a possibilidade de compartilhamento do controle da companhia. Ele buscou transferir a propriedade de 90% da Nova Transportadora do Sudeste, responsável pelo transporte de gás natural nesta região, para a empresa Brookfield Incorporações S/A. Ele foi a favor das parcerias, em que a Petrobras nada ganha, só perde.
Assim, todas as empresas que firmaram contratos leoninos com o Estado brasileiro, são coparticipes de um crime. Parente está atropelando a lei na sua ânsia pelo desmonte. É bom que ele aja assim, porque está criando um passivo judicial, que pode resultar na revisão das decisões. Inclusive, descrevi, neste texto, as suas atitudes como sendo pretensões, porque para mim tudo feito é passível de ser revertido na Justiça.
O engenheiro Ricardo Maranhão, conselheiro da AEPET, apresentou ao TCU uma lista de irregularidades e ilegalidades no plano de desinvestimentos da Petrobras. Desta forma, não existe um “ato jurídico perfeito”, não só pelo atropelamento da lei, como também pela fragilidade política do presidente atual. Fernando Henrique, que também representou o pensamento neoliberal no poder, não ousou fazer o que Temer, através de Parente, tenta fazer. Inclusive, depois de 2018, um novo governante virá e ele pode querer desfazer o que foi feito, quando ocorrerão embates jurídicos.
Por tudo isto é louvável que muitos Sindicatos e Federações de Petroleiros têm entrado na Justiça contra a selvageria desmedida que Parente busca impor à Petrobras e ao petróleo brasileiro. São alvissareiras as notícias dos deferimentos dos juízes às ações impostas. Entidades da sociedade civil, como Clube de Engenharia, OAB, CNBB e outras deveriam também entrar com ações na Justiça, pois o teatro de guerra é imenso e há espaço para todos.
E se o preço do barril de petróleo subir substancialmente e a destruição de Parente for permanente, quão prejudicada será a sociedade brasileira?
 

30 janeiro 2017

Uma névoa povoa meus olhos

Paulo Metri 

Não é catarata, pois esta já foi retirada. Não se trata da “névoa da guerra”, pois não sou o Robert McNamara, nem meu país vive em guerra, a menos daquela caseira. Também não é o “espectro que ronda a Europa”, primeiro, porque a névoa nos leva a ver espectros, mas eles não são sinônimos. De qualquer forma, aquilo que rondava a Europa foi denunciado por Marx em 1848 no seu Manifesto. O fog londrino já foi dissipado, além de que não me encontro em Londres. Aliás, dissipação esta lamentada por toda sorte de bandidos que evaporavam no meio do fog, inclusive o Jack, que adorava estripar. Em resumo, não é também por causa do fog londrino.
Então o que não me deixa ver a realidade? O que turva o real? Devo usar uns óculos de distorção das imagens, que não consigo retirá-los. Será coisa do Grande Irmão? Mas a teoria da conspiração já foi oficialmente negada! Quem conspiraria, então? Forças retrógradas e contrárias ao povo? Forças formadas através do conluio do Congresso, Judiciário, mídia, rentistas, empresas estrangeiras e demais integrantes da turma do 1%! Como reles representante dos 99%, consegui a proeza de identificar o que há por trás dos óculos imateriais, mesmo com a visão turva!
Há a verdade absoluta, que traz nexo para as ações. Se o cidadão conseguir enxergar nitidamente, ele nunca votará em candidatos que irão prejudicá-lo, não irá a passeatas contra os que lhe ajudam, não acreditará piamente no que ouve na TV e no radio, nem no que lê nos jornais e revistas conservadoras. Ele não terá mais o perturbador da visão lhe bloqueando o entendimento.
Porém, como se desvencilhar destes óculos de objetivo invertido? Tem-se que começar a receber outras versões para os fatos já veiculados com os interesses da mídia do capital. Há que se entender que se vive em um mundo, pelo menos a parte ocidental deste mundo, em que o capital domina. É mais fácil se ouvir a versão dos empresários do que a dos trabalhadores.
Aberrações diversas são constatadas nela, como o elogio dirigido por William Waack a Obama, por ter promovido a paz no mundo. Nunca há divergência entre os analistas políticos. Eles sempre concordam. Mentira contada em vários lugares e a toda hora: “O orçamento de um país é igual ao orçamento de uma família: não se pode gastar mais do que se ganha.”
Como se desvencilhar das versões erradas? Não vai se livrar. Elas estarão sempre aí. A pergunta certa é: como chegar às outras versões dos fatos? Com pesquisa, luta, leitura, debate, inteligência e perseverança.
Contudo, há uma definição prévia a ser feita pelos candidatos. Você quer ser considerado por uma grande parcela da classe média como um ser problemático, quase um traidor da classe? E sem ser reconhecido pela classe mais pobre, que é a maior beneficiária da sua postura, como uma pessoa meritória? Você quer lutar por uma sociedade mais justa, em que qualquer criança nela nascida terá maior chance de crescer saudável, se desenvolver como pessoa e integrante da sociedade, onde terá uma velhice digna?
Não esqueça que não há grupo mais conservador que a classe média, que pouco usufrui do conservadorismo. Seria por esperança de, um dia, ser rico?

Janeiro de 2017

20 janeiro 2017

Tratamento dado aos nossos heróis nacionais - Capítulo 5

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia

Falar sobre um herói desconhecido é, a primeira vista, irracional. Mas, se for explicado que é um herói almejado, já planejado em detalhes, e que faria muito bem para a sociedade se existisse, começa a fazer sentido. Por outro lado, talvez ele já exista e eu não se sei sobre a sua existência.
Este herói nacional é o militar perfeito. Escrevi, em artigos passados, que a postura do militar deveria ser a de não tomar posição a favor de nenhum lado político e não se envolver com este debate. Enfim, cumprir a risca o que a Constituição diz. Mudei de opinião ao me conscientizar que o texto constitucional não retrata o que é melhor para a sociedade.
Em uma entrevista ao Estadão, em 11/12/16, o Comandante do Exército, General Villas Boas, após dizer que a chance de uma intervenção militar hoje era zero, disse: “Eu avisei (ao presidente e ao ministro) que é preciso cuidado, porque essas coisas são como uma panela de pressão. Às vezes, basta um tresloucado desses tomar uma atitude insana para desencadear uma reação em cadeia.” “Atitude insana” seria o pedido de um golpe militar? E, se o pedido for este, “reação em cadeia” seria o fato do pedido se agigantar? E, se ele se agigantar, qual a reação dos militares da ativa? Seria extremamente importante o General não deixar nenhuma dúvida no ar.
Ao falar sobre os militares da reserva, o General disse que a reserva é sempre mais arisca, mais audaciosa, mas "até o momento está bem, sob controle". Ele não me tranquilizou sobre o que é possível acontecer no futuro. Existe a possibilidade dos militares da reserva ficarem fora de controle? E, aí, o que acontecerá?
O artigo 142 da Constituição Federal de 1988 diz que: “As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem.
Promulgada três anos depois dos 21 anos de ditadura civil-militar, ainda assim a Constituição contém a obsessão das Forças Armadas serem as garantidoras da lei e da ordem. Não há a preocupação que estas Forças garantam a inclusão social ou que se oponham à entrega de um patrimônio nacional a estrangeiros. A obsessão exclusiva pela lei e pela ordem pode ser interpretada como sendo um excelente pretexto para a usurpação do poder de políticos escolhidos pelo povo e que não são da preferência de grupos econômicos e de políticos perdedores da eleição. A ordem assim conseguida é na base da repressão. A população é dominada por medo. Esta ordem lembra muito a “paz de cemitério”.
Desta forma, o militar perfeito não deve ter ânsia de poder e não deve satisfazer os anseios de nenhum grupo, que queira se apossar do poder, pela força ou por imposição midiática, inclusive com golpe parlamentar e do judiciário, alegando argumentos fictícios. A única transmissão de poder deve se dar nas épocas combinadas previamente e em respeito ao voto popular.
Eu tive um sonho. Todo o Alto Comando das Forças Armadas estava em um amplo salão. Estavam lá oficiais do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, e também os que servem no Estado Maior das Forças Armadas. Creio que, como uma deferência ao Exército, era o Comandante desta Força que ia falar. Logo no início da sua fala, disse que, para as afirmações que faria, tinha a concordância de todas as patentes e os comandos daquela sala, que “são os atuais representantes das Forças Armadas”.
Ele disse que estava ali para comunicar uma mensagem, que seria transmitida uma única vez, que os militares continuavam sem querer se envolver em política partidária, que não querem também opinar sobre as diversas leis que tramitam no Congresso ou as políticas de governo, excetuando aquelas relacionadas à Defesa Nacional. Que os militares continuavam reconhecendo o Presidente da República como Comandante-em-Chefe das Forças Armadas.
Deu uma pausa e disse: “No entanto, os militares não podem se calar, sem serem cúmplices, da entrega que está sendo feita do patrimônio nacional. Este patrimônio não pertence aos políticos que estão em cargos públicos no momento, nem a grupos empresariais ou a uma geração. Ele pertence a todas as gerações, a atual e as futuras, da sociedade brasileira. Trata-se de verdadeiro crime de lesa-pátria querer explorá-lo rapidamente e trazendo pouco benefício para a sociedade.
Continuou, dizendo: “A Constituição de 1988 era um excelente ponto de partida para a sociedade. No entanto, políticos representantes de grupos econômicos vêm a modificando a cada mandato, sem terem sido eleitos como constituintes, e hoje, ela é uma colcha de retalhos, que se distanciou da proteção à sociedade. As Forças Armadas existem para defender a Pátria, que não é só os acidentes geográficos existentes em nossa região do planeta. Pátria inclui seus habitantes e nossas Forças não podem ficar alheias ao fato que grupos os estão explorando.
Finalizou da seguinte forma: “No presente governo, existiram várias transações, quase doações, e todas seguiram o que os instrumentos jurídicos mandam. Contudo, estes instrumentos foram criados ou administrados por inimigos do povo. Por exemplo, parte do campo de Carcará, grande parte da malha de gasodutos, campos do Pré-Sal, empreendimentos na Petroquímica e muitos outros, compõem o assalto recente no setor de petróleo ao bem público e em benefício de petrolíferas estrangeiras. Essas transações devem ser desfeitas. Não há ‘ato jurídico perfeito’ quando um dos lados teve preços e condições aviltados nos contratos.
Após esta comunicação, fiquei pensando: “Isto é um ultimato. Não há a chance de não ser obedecido sem ser deposto, mesmo o Comandante-em-Chefe. E, se este quiser substituir a liderança militar, pelo que foi dito, não existirá substituto, ou seja, não há oficial que aceite o cargo. Se o Comandante-em-Chefe não cumprir o determinado, possivelmente o poder será passado de imediato para o seguinte na linha sucessória. Este é um golpe? Sim, o ‘golpe do bem’” Acordei feliz, pois tinha conhecido a versão atual do militar perfeito. Estes já existiram no passado. Cometerei o erro de citar só três, pois excluirei vários outros: General Horta Barbosa, Almirante Álvaro Alberto e Brigadeiro Sergio Ferolla. Certamente, eles existem hoje, mas algo os proíbe de aflorar.
E o tratamento que é dado a eles pela sociedade? Esta não sabe que eles podem existir e, muito menos, como eles poderiam nos beneficiar. Aliás, não vamos longe, a sociedade se manifesta pouco ou quase nada sobre as Forças Armadas que quer. Quando, na verdade, elas podem ser um fator de indução de bem-estar.

11 janeiro 2017

Tratamento dado aos nossos heróis nacionais - Capítulo 4

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia

São vários os critérios de julgamento de qualquer candidato à inclusão na galeria dos heróis nacionais. Amar o povo brasileiro, de onde emergiu, é o primeiro critério e, também, o único eliminatório. Se passar nele, pode continuar sendo julgado pelos demais, que ajudam a classificar o candidato. Só quem ama sua sociedade pode vir a ser um verdadeiro herói nacional.
O herói deve priorizar o atendimento aos mais fracos da sociedade. Precisa ser justo e não pode proteger seu pequeno grupo em detrimento do conjunto da sociedade. Nunca o herói participaria de qualquer uma das bancadas econômicas existentes no Congresso, se lá estivesse, esquecendo-se de quem lhe deu os votos.
Um herói não é corporativista, se bem que é preciso entender que as associações de classe, tanto sindicais quando patronais, são corporativistas, mas necessárias. Elas desempenham papéis fundamentais dentro da luta democrática.
De forma espontânea, o herói é “politicamente correto”. Ele não precisa se esforçar para bloquear a aparição do seu verdadeiro eu. No seu caso, o que vem à tona é um ser sensível às causas sociais, disposto a lutar para melhorar as condições de vida dos mais necessitados. O herói é um autêntico.
O herói precisa ser corajoso. Na maioria das vezes, para proteger os mais fracos, ele terá que enfrentar poderosos. E não pode esmorecer, pois o acumulador de riqueza e poder, que é o vilão opositor do herói, nunca dará trégua. O vilão, que pode ser nacional ou estrangeiro, dispondo de sua vilanagem, usará os métodos mais sujos para desmerecer a imagem do herói perante a opinião pública. Neste momento, o herói deve mostrar sua fibra.
Não seria preciso dizer, por ser corolário de afirmação anterior, que o herói tratará com maior zelo tudo que é público, inclusive o recurso público. Não precisa ser um requisito obrigatório, mas ajuda muito o herói ser criativo, porque o poder dos inimigos da igualdade social e dos direitos das minorias, os vilões, é imenso.
O herói não visa o reconhecimento e a glória. É humano querer se sentir aceito, mas o herói compreende que, em uma população carente, inclusive de informações fidedignas, a falta de aprovação pode ser somente devido à não compreensão da situação.
Trazendo nova linha de argumentação, com a Lava Jato, a Justiça entrou em uma frenética caçada às bruxas. Em primeiro lugar, segundo esta operação, o único critério de julgamento dos investigados se relaciona com a corrupção, o que é compreensível. No entanto, o que não faz sentido é o uso desta caçada de forma sensacionalista, tendenciosa e despudoradamente política. Por outro lado, a própria definição de corrupção não é fácil de ser obtida consensualmente, pois abrange desde trazer um grampeador do trabalho para casa até, sendo agente público, aceitar suborno de empresa privada, passando por corromper um guarda ou esconder informações da Receita Federal. Donde se conclui que 99% dos humanos, em algum momento da vida, foram corruptos.
O que tem acontecido é o cidadão ir para esta fogueira da Inquisição moderna, recebendo um julgamento parcial, pois depende, dentre outras coisas, do partido ao qual o suspeito pertence. O fato de nada mais importar para o juiz Moro e os procuradores do Ministério Público, além da corrupção, lembra muito o guarda da esquina, que objetiva somente melhorar o tráfego de veículos na sua esquina, enquanto o objetivo desejado é a otimização do tráfego na cidade inteira. E, para melhorar este tráfego global, pode ocorrer que a esquina do guarda em questão deve ficar engarrafada. Assim, Moro e os referidos procuradores não são heróis, até porque dão subsídios para campanhas midiáticas que são desserviços para a democracia brasileira. Esta é a visão amena do juiz Moro e dos procuradores, porque foram excluídas as acusações de serem agentes de governo estrangeiro visando o domínio político do país e o consequente roubo das nossas riquezas.
Uma vez dito quem não é herói, o herói nacional homenageado neste artigo é o servidor público brasileiro. É aquele que está na Embrapa e ajuda o Brasil a aumentar continuadamente sua produção agrícola. Está certo que ajuda também ao agrobusiness a ter lucros fabulosos, mas tem sido primordial para o Brasil acumular divisas. É aquele que está em hospitais e postos públicos de atendimento médico, inclusive com poucos recursos materiais, minorando o sofrimento da classe mais pobre da sociedade.
É aquele que está em plataformas de petróleo lutando para o Brasil continuar sendo autossuficiente em petróleo. Antes que comecem a argumentar que ainda não somos autossuficientes, peço que se lembrem de que, em 1979, o Brasil só produzia 15% do petróleo que consumia. Considerei funcionário de estatal como um servidor público também. Continuando com os exemplos que explicam porque os servidores são heróis, é lembrado o professor de escola ou universidade pública que, por amor à sociedade e à profissão, pois a remuneração é pífia, busca transmitir conhecimentos e visões do mundo para os jovens brasileiros.
É também o projetista e construtor de aviões da Embraer que coloca o produto brasileiro em quase todos os céus do mundo. São os pesquisadores da Fiocruz e de outros centros de pesquisa brasileiros que se preocupam em buscar a cura das doenças de países pobres, que as multinacionais farmacêuticas se recusam a pesquisar.
São todos os cientistas e pesquisadores nacionais, que, em alguns casos, rejeitam ofertas de emprego no exterior, com fartos recursos, para pesquisarem na sua terra natal. É aquele militar que coloca a sua própria vida à disposição da defesa da Pátria. Cabe comentar que querer chegar ao poder pelo menor vislumbre de dano à ordem pública não faz parte de nenhuma cartilha do verdadeiro herói. O militar herói não cede ao canto de sereias que pedem uma ruptura democrática, em geral de sereias de direita.
É também aquele que se dedica a viabilizar projetos culturais no país. São todos homens e mulheres públicos, que se colocam realmente à disposição da sociedade para ajuda-la. Enfim, se trata deste exército de seres humanos anônimos, todos servidores públicos e muitos dos quais se realizam ao trazer benefícios para outros brasileiros, principalmente os menos afortunados da sociedade.
Tem um ponto que é gratificante para alguns servidores públicos. Imaginem dois trabalhadores, que se aposentam na mesma época, um no serviço público e o outro de uma empresa privada. Ambos tiraram dos seus empregos os seus sustentos, durante suas vidas. Contudo, além disso, o do setor privado, apesar do produto ou serviço da empresa em que trabalhava ter alguma utilidade social, vê como consequência do seu esforço, despendido durante anos, uma contribuição para o acúmulo de riqueza do dono da empresa. O empregado do setor público vê os seus anos de trabalho como uma contribuição para o aumento do bem-estar da sociedade.
E o tratamento dado pela sociedade ao herói servidor público? Creio que dá um reconhecimento quase nulo.