16 julho 2018

Inexorabilidade da contribuição nuclear

Paulo Metri

A British Petroleum (BP), petrolífera que atua no setor há 67 anos, publica anualmente o “BP Statistical Review of World Energy”. Este estudo contém dados sobre fontes e formas de energia, ao longo do tempo e por regiões. Esse esforço de levantamento de dados é meritório e contestações sobre a seriedade do levantamento não são ouvidas.

Estes dados permitem a elaboração da seguinte análise e o registro da uma tendência.

1)      As três fontes de energia, que mais contribuíram para a satisfação da demanda mundial de energia em 2017 foram petróleo, suprindo 34% da demanda global, gás natural, que supre 23% desta demanda, e carvão mineral, com 28% da demanda. As três fontes suprem 85% da demanda global. E estas três são combustíveis fósseis, que liberam, durante a queima, os gases do efeito estufa (CO2, CO, N2O, CH4 e outros) na atmosfera.
2)      O acordo de Paris sobre o clima estabelece que a liberação destes gases na atmosfera deve trazer o acréscimo máximo de 2 graus Celsius no aquecimento global em 2100, partindo-se dos níveis da era pré-industrial. Isto irá requerer um enorme esforço para a diminuição do consumo dos combustíveis fósseis que, na prática, ainda não começou a acontecer, bastando observar as taxas médias anuais de crescimento do consumo no período de 2006 até 2016 de petróleo, gás natural e carvão mineral, que foram 1,2%, 2,3% e 1,3%, respectivamente. Notar que, neste período, ocorreu o baque da economia mundial de 2008.
3)      No entanto, a taxa média anual de crescimento do uso da energia nuclear, no período de 2006 até 2016, foi de -0,7%, significando um decréscimo de sua participação. Lembrar que, no período em pauta, ocorreu o acidente de Fukushima, que impactou o setor. Contudo, mesmo sob o critério da “segurança da fonte geradora”, a tecnologia nuclear não deve ser excluída da competição por causa de Fukushima. Por outro lado, a geração nucleoelétrica não lança gases do efeito estufa na atmosfera, contribuindo para a solução do problema do aquecimento global.
4)      No período de 2006 até 2016, a energia hidráulica cresceu em nível razoável, ao valor médio de 2,9% por ano. A hidráulica lança pouca quantidade de gases do efeito estufa na atmosfera. Entretanto, esta fonte tem um teto máximo de disponibilidade.
5)      As demais fontes renováveis, retirada a hidráulica, são basicamente a solar e a eólica. Elas têm crescimento do seu consumo com a taxa média para o período em questão de 16,2% ao ano. Trata-se de crescimento promissor, restando lamentar a participação diminuta inicial no suprimento do consumo total. Também, estas duas estão em fase inicial de seus desenvolvimentos tecnológicos e ainda têm custos pouco competitivos. Obviamente, elas podem vir a contribuir muito.
6)      Outras fontes renováveis e a fusão nuclear ainda estão distantes de serem comercialmente aproveitáveis e, durante um período, não deverão contribuir. Outras ações, que não são substituições de combustíveis fósseis, podem também resultar na diminuição da emissão de gases do efeito estufa na atmosfera. Este é o caso da redução das “queimadas” que ocorrem no Brasil. Mas o maior impacto na atmosfera, a nível mundial, é devido à queima de combustíveis fósseis.
7)      Com este quadro e considerando os custos, desenvolvimentos tecnológicos ainda necessários, limites físicos para as expansões, que é o caso da hidráulica, restrições ambientais, questões de segurança operacional, aspectos geopolíticos, o que deverá acontecer no futuro é difícil de ser imaginado.
8)      É possível que a solução seja um conjunto de fontes, excetuando as fósseis, em que muitas das opções citadas estarão presentes. O pior que pode acontecer é não se dar a devida importância à questão e deixar o tempo passar, permanecendo-se imóvel. No entanto, uma “aposta com alta probabilidade de ocorrência” pode ser dita, se a decisão for séria: não há a possibilidade de não se considerar a contribuição nuclear.

Fonte: https://www.bp.com/content/dam/bp/en/corporate/pdf/energy-economics/statistical-review/bp-stats-review-2018-full-report.pdf

Julho/2018

01 julho 2018

Samba do branco doido

Paulo Metri

Nota preliminar: Nestes dias da Copa da Rússia, o governo Temer já publicou uma dezena de portarias sobre o horário dos servidores públicos. Elas, além de divergirem entre si, são também irracionais e incompreensíveis. Os próprios dirigentes de órgãos públicos, muitas vezes, não sabem o que exigir do funcionalismo. Sobre este assunto, recebi um whatsapp contendo o interessante texto a seguir. Quem me mandou garantiu que não sabia quem era o autor.

Bananal é um país, mas também um grande canteiro de bananas. Seus atuais governantes são uma mescla de representantes de interesses estrangeiros, coronéis do nordeste, coroinhas diabólicos do sudeste e sul, assaltantes do dinheiro público de todas as latitudes e poucos verdadeiros representantes do povo. Uma reunião ministerial acontece para tratar do ponto das repartições públicas nos dias de jogos da seleção.
O carrasco mor inicia a reunião:
- Como vai ficar o ponto destes insubordinados, carnes de pescoço, nos dias de jogos?
O carrasco da área de planejamento propõe:
- A proposta é fechar as repartições na hora dos jogos e, depois, os trastes compensam as horas não trabalhadas.
O único não carrasco, um fraco segundo os demais, colocado no grupo para efeito de propaganda, retruca:
- Eles vão ter capacidade de pagar estas horas não trabalhadas?
Um dos outros carrascos presentes:
- Daqui a pouco, você vai fazer o discurso que muitos estudam de noite, outros têm bicos para aumentar a receita, as mulheres têm a jornada caseira e ninguém pode compensar. Eles que se danem. Só querem mamar nas tetas do Estado.
O fraco pensa: “Quem não larga estas tetas são os empresários.” Depois, fala:
- Não seria possível deixar a repartição aberta para aqueles que querem trabalhar? Quem quiser ver jogo, falta e, depois, compensa.
- E os que vão assistir aos jogos no monitor do computador, fingindo que estão trabalhando? Temos que ser duros. Estes camaradas são uns exploradores.
O malvado mor decide:
- A redação será a proposta pelo planejamento.

*             *             *

Um dia depois da publicação da tal norma do ponto nas repartições, o carrasco do planejamento entra na sala do chefe, o mor, e diz:
- Começaram a pipocar decisões judiciais mandando abrir as repartições para quem necessita trabalhar para atendimento não interrompível do público, além de que alguns dirigentes de órgãos públicos deram uma interpretação para a norma dizendo que não precisa compensar a hora faltada para assistir aos jogos.
- Esses juízes de primeira instância, com honrosas exceções, são todos esquerdinhas. Não reconhecem que estamos colocando ordem nesta bagunça. Quanto aos dirigentes públicos que não nos apoiam, tome nota do nome deles. Vamos endurecer, faça um comunicado dizendo que a norma é esta mesma, mas poderão existir exceções dependendo da necessidade do serviço.

*             *             *

Nada como um dia após o outro para curar ressaca e arbitrariedades. O mor, o pior de todos, abri uma reunião, convocada às pressas:
- Fui aconselhado a fazer mudança na norma do horário dos servidores durante a Copa, porque, apesar de eu me lixar para a opinião pública, congressistas do nosso grupo estão preocupados com a repercussão negativa dela. Assim, reformulem a mesma para o horário dos jogos ser ponto facultativo e, obviamente, sem necessidade de compensação. Não haverá discussão. É só.

*             *             *

Dias depois, o fraco entra no gabinete do mor, esbaforido:
- Chefe, aconteceu o impensável. A nova portaria foi lançada na véspera de um jogo e as portarias demoram um dia para serem publicadas no Diário Oficial. Assim, têm servidores que faltaram devido à diretriz do dia anterior, que não valia mais, mas eles não tinham tomado conhecimento da nova. Que fazer?

*             *             *

Ouvi de um amigo, de certa feita, a seguinte afirmação: “o samba do crioulo doido pode ter uma letra disparatada, mas o ritmo e a melodia são bons. Já o samba do branco doido ...” Quando vejo o governo atual de Bananal, cheio de brancos, misóginos e sem representantes do povo, lembro, por analogia, da afirmação do meu amigo.

Junho de 2018

09 junho 2018

Dos 200 bodes na sala, um foi retirado!

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia e vice-presidente do CREA-RJ

O bode retirado da sala era um dos maiores algozes da nossa sociedade na atualidade, o autor de estrago descomunal que está sendo impingido aos brasileiros. A defenestração de Pedro Parente é um bom começo, mas não se pode considerar como o último ato do processo de expurgo.
Parente delapidava, impudicamente, o maior de nossos tesouros, o petróleo, dado por Deus ou movimentos geológicos, como preferir o leitor. Mas, temos que parar a comemoração, pois tirar Parente representou só uma batalha. É preciso ganhar a guerra, pois ainda falta muito para paralisarmos outras entregas e reconquistarmos o que já foi entregue.
Há uma tendência da sociedade, ao terminar um período de graves agressões da sua história, quando o capital investiu pesado em propaganda das teses neoliberais que lhe beneficiam, de se contentar com menos do que estava acostumada a usufruir, antes do ataque sórdido.
A propaganda intensa contra o monopólio estatal do petróleo desde os anos 1990 até os dias de hoje deixou a sociedade com a certeza que monopólio estatal é ruim para ela, o que não é verdade. Um setor no qual uma empresa privada tem o monopólio da oferta do bem ou serviço é o pior dos mundos, pois a ela está sendo dado o poder de fixar o preço do bem ou serviço. No entanto, o monopólio estatal em um governo compromissado com a sociedade é, ao contrário do que prega a mídia aliada do capital, o melhor dos mundos.
No setor do petróleo, para atuar em águas profundas, que é o recomendado pela geologia para o caso brasileiro, ou se utiliza petrolíferas estrangeiras ou a Petrobras. Não existem petrolíferas nacionais com capacidade para tal atuação. Então, a decisão importantíssima para a sociedade sobre qual agente econômico utilizar para a exploração de possivelmente sua maior riqueza mineral é comunicada, como ato consumado, em breves segundos dentro de um noticiário de televisão que valoriza a entrega de blocos de petróleo para empresas estrangeiras. E não imaginem que é incompetência do meio de comunicação, pois se trata de ato pensado.
Com o monopólio estatal pode-se, por exemplo, subsidiar um derivado de consumo popular, como o gás de botijão, ou um derivado que interfere na formação de muitos preços da economia, como o diesel. Pode-se também sobretaxar derivados consumidos basicamente por classes com maior poder econômico, como é o caso da gasolina, que também é utilizada principalmente para o transporte individual.
O uso do preço de alguns derivados para minimizar a péssima distribuição de renda do país é louvável. Economistas neoliberais consideram este fato como desorganizador da economia e chegam a dar como exemplo da desorganização acarretada, a notícia que milionários passam a aquecer suas piscinas com gás de botijão subsidiado. Esquece-se de dizer que a fração dos donos de mansões com piscina é ínfima e que a parcela dos que mudam para o aquecimento com o gás de botijão é pequena. Estes neoliberais querem ganhar a concordância da população com fatos de menor valor, mas que fazem sentido para uma pessoa não especialista.
Os neoliberais são contra o monopólio também com o velho argumento de que ele inibe a competição, geradora do menor preço para o consumidor. A competição perfeita, como é chamada a competição onde não há cartel, é uma abstração que existe basicamente em livros de economia ou nos discursos de economistas neoliberais para enganar incautos. O que os empresários mais querem é a formação de cartéis para poderem maximizar seus lucros.
O monopólio é também útil para a sociedade porque a empresa que o executa pode comprar mais bens e serviços no país, contratar mais engenharia e desenvolvimento tecnológico no país, empregar maior número de trabalhadores no país, ou seja, um setor monopolizado na economia de um país pode ser um forte indutor de desenvolvimento. Além disso, o petróleo pertencendo a uma estatal, pode ser usado pelo Estado nacional como fator de barganha em acordos internacionais.
O maior exemplo de quanto um monopólio estatal pode ser benéfico para a sociedade é a própria existência da Petrobras. A autorização para a União criar uma empresa para ser a executora do monopólio ocorreu junto com a criação do próprio monopólio, com a lei 2004 de 1953. Este monopólio foi extinto por iniciativa do então presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) com a mudança da Constituição e a aprovação da lei 9.478 em 1997. Contudo, a Petrobras continuou exercendo um monopólio de fato, por competência, e não o monopólio de direito, até o início do governo Temer. Este tem como uma das principais metas da sua ponte para o futuro do Brasil dominado por interesses externos, a transferência dos ativos da Petrobras.
Nestes 65 anos de existência, a empresa acumulou um patrimônio incalculável, como dezenas de refinarias, dezenas de milhares de dutos, centenas de campos de petróleo, uma estimativa conservadora de mais de 60 bilhões de barris de reservas até 2018, mais de dois milhões de barris por dia de produção e, por aí, vai. A Petrobras abasteceu o país, criou grupos de excelência em universidades, desenvolveu fornecedores nacionais, formou quadros valiosos e, o maior de todos os seus feitos, descobriu o Pré-Sal.
Quem de sã consciência acredita que, em 1953, se em vez do monopólio tivesse sido aprovada a abertura do país para as empresas estrangeiras, o que FHC fez 44 anos depois, teríamos hoje um país com tamanha riqueza? E com este grau de desenvolvimento? Isto porque o setor do petróleo entregue à Petrobras contribuiu para o bom desempenho da economia brasileira no período de 1953 a 1997.
Devido, principalmente, ao Pré-Sal, tramas foram arquitetadas alhures para se arrebanhar o poder no país, colocando testas-de-ferro para reinar, dando início, assim, ao processo de usurpação das nossas riquezas. A transferência de propriedade se faz, principalmente, através das petrolíferas estrangeiras.
É claro que, se o monopólio fosse continuar em 1997, mudanças também teriam que ser feitas como existir a possibilidade da Petrobras receber novas áreas sem ter que ocorrerem licitações. Outra correção necessária seria a criação de um imposto de exportação sobre os derivados subsidiados, para o subsídio não ir beneficiar intermediários exportadores destes derivados. E, a mais importante das mudanças, que consiste na minha única crítica ao monopólio que existiu. Os lucros da atividade petrolífera, que são grandiosos, não devem ficar só para a Petrobrás e os seus acionistas, sendo necessária a criação de um fluxo legal de tributo para levar recursos, diretamente, para a saúde e a educação, por exemplo.
Com esta visão abrangente, e prestando-se atenção ao debate existente hoje, quando metodologias de cálculo para os preços dos derivados são sugeridas, tenho a certeza que estão buscando aperfeiçoar uma solução já condenada ao fracasso. Entristece-me saber que continuam leiloando, criminosamente, grandes áreas de petróleo, o futuro da nossa sociedade, com o povo atento à seleção e à possibilidade de nova greve dos caminhoneiros. Por último, não me recordo de nenhuma greve de caminhoneiros durante os 44 anos em que existiu o monopólio estatal do petróleo.

28 maio 2018

Greve dos caminhoneiros

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia e vice-presidente do CREA-RJ

Os caminhoneiros, corretamente, não querem ser a “variável de ajuste” das decisões erradas tomadas no setor do petróleo. Ou seja, eles não querem ter rendimentos baixos para que os investidores da Petrobras tenham bons dividendos, nem tampouco para que a Petrobras seja vista como muito atrativa no futuro quando chegar o momento em que os entreguistas neoliberais do atual governo irão querer privatizá-la.
Essa questão é relacionada também com a dúvida da Petrobras ser uma empresa que visa atingir interesses sociais ou se ela deve se comportar como uma empresa privada. Neste momento, algumas pessoas alegam que ela, agindo como empresa privada, irá dar maior lucro ao Tesouro e evitará o seu uso político. Contudo, considerando que a população brasileira tem baixo índice de politização, a mídia, que deveria promover esta politização, está do lado do capital e contra a sociedade e, finalmente, as agências reguladoras, que poderiam forçar o atendimento dos interesses da sociedade, são dominadas por aqueles que deveriam ser regulados, concluímos que só uma empresa estatal tem condições de ser uma verdadeira empresa de interesse social. E qual maior uso político pode existir do que o de forçá-la a entregar patrimônios a preços vis para concorrentes?
A questão tem, também, como pano de fundo se subsídios devem existir em uma economia. Mais uma vez, alguns desavisados, grandes repetidores de colocações ouvidas nas televisões, dizem que os subsídios desorganizam a economia e que só governos populistas com objetivo de obterem votos, os acolhem. Eles não reconhecem que, muitas vezes, o preço de um produto essencial está muito acima da capacidade de pagamento de um pobre e não subsidiá-lo significará o não consumo do bem pelo pobre.
Assim ocorre com o gás de botijão. O preço atual exclui uma fatia expressiva de antigos consumidores, que precisam do bem para cocção de alimentos. A consequência da elevação desmedida do seu preço é que antigos consumidores começam a derrubar árvores para substitui-lo por lenha. É verdade que, em um país com um salário médio dos trabalhadores digno e que não haja má distribuição de renda, os subsídios podem não existir. Entretanto, o Brasil tem uma péssima distribuição de renda, além de ter miseráveis. Desta forma, o subsídio ao gás de botijão nada mais é que uma contribuição para a melhoria salarial dos mais pobres, que são os grandes consumidores do botijão.
O diesel deve ser subsidiado também por ser um derivado cujo consumo influência basicamente todos os preços da economia, além do impacto direto no transporte urbano de passageiros. Assim, seria muito desejável ter na nossa economia a vantagem competitiva em relação a outras economias do diesel ser mais barato que o seu preço internacional, além da população poder consumir bens e serviços com preços em conta. Isso poderia ser feito com certeza se o Pré-Sal não estivesse sendo doado para petrolíferas estrangeiras e se a Petrobras tivesse sido preservada como uma empresa integrada, de forma a maximizar seu ganho. Desta forma, ela arcaria, sem dificuldade alguma, com este subsídio de grande impacto positivo para a população.
Como o governo Temer está em um processo açodado de entrega das nossas riquezas, fica difícil haver uma solução para a greve. Há necessidade de se criar um Fundo abastecido por tributos pagos por nós para compensar qualquer cala-boca prometido aos caminhoneiros. Estes fazem greve por interesse próprio, mas expõem didaticamente os malefícios do modelo e do governo entreguista. Espero que o povo compreenda, agora, o verdadeiro roubo em execução no Brasil, vá para rua reivindicando a decapitação dos ladrões instalados no poder e a mudança do modelo, eleja quem irá verdadeiramente protegê-lo e apoie o referendo revogatório dos roubos travestidos em operações regulares para a sociedade receber de volta suas propriedades, hoje em mão de receptadores.

15 maio 2018

Ato jurídico perfeito

Paulo Metri

Creio que estas três palavras serão muito ouvidas em um futuro próximo. Não sei quem será o presidente eleito, mas tenho esperança que não será nenhum dos conservadores que já se lançaram. As três palavras serão muito ouvidas, se um candidato de esquerda ganhar a eleição. Não preciso dizer que é para esta opção que torço.
As ações destrutivas que o governo Temer promoveu e quer continuar promovendo até o último minuto do mandato, na economia e na sociedade, é descomunal e não tem algo comparável na história. A opção clara deste governo é pelos donos de capital. Assim, no momento em que o novo governo de esquerda buscar revogar os atos antissociais tomados, vão dizer que eles são atos juridicamente perfeitos e, como tal, não podem ser cancelados.
Tais atos podem resultar, apesar de estarem seguindo à risca todos os ditames jurídicos, em decisões socialmente injustas. Neste ponto, peço vênia aos doutos juízes para dizer que não há como desprezar as repercussões econômicas e sociais das decisões. Neste ponto, sempre é retrucado que: “se decisões diferentes são desejadas, dever-se-ia ter providenciado junto a legisladores e mesmo junto ao Executivo, a aprovação de nova legislação que levaria às decisões almejadas”. Segundo os mesmos, “a alternativa, que é desvincular as decisões do arcabouço jurídico existente, é inadmissível”.
A rápida mudança deste arcabouço, requisito fundamental para poder suplantar o impasse, parece ser impossível. Por outro lado, quanto mais tempo esta mudança demorar, maior será o dano causado pelos atos jurídicos perfeitos. Alguns juristas alegam que processos argumentando preços vis aplicados por Parente na alienação do patrimônio da Petrobras poderia reverter algumas decisões. Mas queremos que sejam revogadas todas as decisões e rapidamente. Têm sido sugeridos os referendos revogatórios que, se resolverem a questão, serão muito bem-vindos. Mas, parece que trarão grande embate jurídico.
O problema é que, nos anos Temer, legisladores corruptos se venderam ao capital e aprovaram leis que trazem, na sua aplicação, grandes impactos sociais negativos. O Congresso Nacional, em um dos seus piores mandatos, aprovou leis a pedido de grupos corruptores. Não é por outra razão que se chega a propor uma nova constituinte para se recuperar a racionalidade social, já que a Constituição brasileira foi toda desonestamente desfigurada.
Pode-se recuperar as perdas devido a governos antissociais, a exemplo do que ocorreu em outros países. A Rússia sofreu um ataque à sua soberania com a ascensão de Yeltsin à Presidência, onde permaneceu por oito anos. Putin e Medvedev o sucederam e conseguiram recuperar o orgulho russo e muitos patrimônios nacionais que tinham sido golpeados.
Outro exemplo de “virada do jogo”, que ocorreu no mundo, foi na Venezuela protagonizada por Hugo Chávez. Seus antecessores embolsavam a renda petrolífera e a população não usufruía quase nada com o fato do petróleo existir no país. Chávez reformulou os contratos e conseguiu fazer esta renda fluir para benefício da população, resultando na sua forte aceitação popular.
Mas, para seguir os exemplos da Rússia e da Venezuela, onde a sociedade tomou o poder de testas-de-ferro do capital, é preciso haver apoio explícito e contundente da sociedade. Ou seja, o povo na rua resolve o problema. Povo contestando o monopólio da informação, que só fornece dado errado ou castrado. Se não fossem as redes sociais, o povo estaria hoje anestesiado. Povo reclamando de juízes tendenciosos, que ouvem com máxima aceitação os apelos do capital, quando bastam convicções para o julgamento dos que se rebelam contra a exclusão. Povo consciente de seus direitos, que deixa claro o que quer e o que não quer. Povo esbravejando contra legisladores corruptos que aprovam leis antissociais. Povo que exige respeito de políticos, empresários, juízes, legisladores e de membros do Executivo e do Ministério Público. Afinal de contas, no livrinho pode-se ler: “todo poder emana do povo”.

08 maio 2018

Quanto ódio!

Paulo Metri

Tem algo mais odioso do que o ódio?
Trata-se de sentimento destrutivo.
Apesar de se destinar aos outros,
Corrói nosso coração e a nós mesmos.

Odeio os políticos enganadores,
Que odeiam seus eleitores
Por eles não aceitarem dar o voto
Sem receberem nada em troca.

Repartir rendimentos gera ódio.
Por que não se entra em acordo?
O que é mais importante:
O capital ou o trabalho?

O misógino, o pedófilo e o torturador,
São seres odiosos. Ódios merecidos.
A fera é perdoada, pois precisa sobreviver.
Tem que cumprir a cadeia alimentar.

É odiento quem usurpa a informação,
Incita ódio gratuito aos lideres do povo,
Induz o aumento da exclusão e
Abastece o ódio de classes. Quanto ódio!

Maio de 2018

09 abril 2018

Dissertação sobre roubos

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia

Muitas pessoas ficam estarrecidas, com razão, com o roubo no setor público. No entanto, existem roubos, tão ou mais estarrecedores, nunca denunciados pela mídia e, como consequência, não conscientizados pelo público. Tratam-se dos “roubos legalizados”, por serem instituídos por lei.
Um primeiro exemplo dos “roubos legalizados” é o ato de um governante não tomar as providências para poder cortar os juros da dívida e, em compensação, fazer cortes na educação e na saúde, significando um roubo no bem-estar social. Mas, este governante não está fazendo nenhuma ilegalidade. Chega-se, assim, à triste conclusão que o nosso arcabouço legal permite a tomada de decisões antissociais. A população mais carente é a que mais sofre com estes cortes.
Outro exemplo dos “roubos legalizados” é o fato que a classe rica paga menos tributos, percentualmente, que a classe pobre, caracterizando um roubo aos menos afortunados.
O Congresso Nacional aprovou, recentemente, o perdão da dívida dos ruralistas. Se estas fossem pagas, mais recursos estariam disponíveis para educação e saúde. Enfim, este perdão de dívida representou um “roubo legalizado” de verbas que beneficiariam os mais carentes.
Ainda na linha de poderes que renunciam a receitas garantidas da sociedade, o presidente da República concedeu isenções tributárias para as petrolíferas estrangeiras totalizando um trilhão de reais em 25 anos. Certamente, o produto deste “roubo legalizado” fará muita falta para os programas sociais.
Desta forma, a mídia só divulga os “roubos fichinhas”, basicamente de servidores do Estado de não tão alta hierarquia, ligados a políticos. Estes roubos são também recrimináveis, mas de grau de importância inferior. Os “roubos superiores” são ligados a fortes grupos econômicos e políticos, controladores da nossa mídia tradicional e, por isso, a sociedade nunca é informada sobre eles.
Roubos como o que ocorreu na Petrobras sempre existiram e existirão com maior ou menor intensidade, quer seja um governo de direita ou de esquerda. Os governos devem tomar medidas de prevenção para estes roubos menores, que diminuirão a sua intensidade, mas nunca serão extintos por completo. Por outro lado, deve-se buscar combater os “roubos superiores”, com o máximo rigor, apesar da grande blindagem deles, pois os prejuízos para a sociedade são imensos.
Grupos econômicos e políticos, a mídia e uma ala corrompida do Estado, em cínica ironia, aproveitam o forte apelo emocional do combate à corrupção para eleger seus candidatos com discursos anticorrupção, sendo, a maioria deles, corruptos. Em 1954, Getúlio era o presidente. Estas forças, encabeçadas por Carlos Lacerda, o acusavam de forma impiedosa de inundar a administração pública com um “mar de lama”. Quando, na realidade, Getúlio combatia os grandes roubos à nossa sociedade, descritos por ele próprio, em sua carta testamento, na citação às “aves de rapina”.
Em 1960, foi eleito como presidente Jânio Quadros com a promessa de “varrer a corrupção” da política nacional. Em 1989, Collor elegeu-se presidente com o discurso da “caça aos marajás”, quando, tempos depois, ele veio a perder seu mandato por corrupção. Este tema recorrente serve, agora, para afastar Lula da política nacional, sem nenhuma prova que o vincule a algum roubo.
Enquanto isso, estas forças se preparam para lançar candidatos a presidente que irão permitir os grandes roubos acontecerem, como as privatizações da Eletrobras, Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica, a venda de blocos do Pré-Sal por preços irrisórios e vendas de fatias do patrimônio da Petrobras na bacia das almas, o que compõe também algumas das ações atuais do “roubo legalizado”.
Finalizando, notar que todos os que, para chegar ao poder, prometem limpar o “varejo da corrupção”, na realidade, irão apoiar o “atacado da corrupção” e, além disso, eles não têm um projeto de nação soberana para o Brasil e não querem a inclusão social.

28 março 2018

Petrolíferas estrangeiras ou a Petrobras na exploração do Pré-Sal?

Paulo Metri - conselheiro do Clube de Engenharia e vice-presidente do CREA-RJ

A avaliação de um atendimento à sociedade requer a comparação com formas alternativas deste atendimento. Assim, o impacto na sociedade brasileira da atuação de empresas estrangeiras no Pré-Sal deve ser comparado com o impacto da atuação da Petrobras no Pré-Sal. Não existem empresas privadas nacionais que possam atuar no Pré-Sal e servir para comparação. Objetivamente, serão analisadas as atuações das petrolíferas estrangeiras e da Petrobras na exploração do Pré-Sal que trazem impactos diferenciados para a sociedade.

Atividades de conquista das tecnologias necessárias à exploração, apesar do Brasil ser um país com atraso em desenvolvimento tecnológico, devido à atuação da Petrobras no Pré-Sal ser de sucesso, tais atividades podem ser a ela designadas. As petrolíferas estrangeiras também podem desenvolver tecnologia, mas irão cobrar caro por sua capacitação, o que repercutirá no lucro e, assim, diminuirá o tributo deixado para o Estado brasileiro. Além disso, as tecnologias desenvolvidas por elas ocorrerão em seus países de origem e, portanto, o Brasil não deterá estas tecnologias.

Indústrias nascentes com conteúdo tecnológico, futuras fornecedoras do Pré-Sal, devem obter incentivos visando o desenvolvimento tecnológico. A Petrobras pode ser a fomentadora destas indústrias, tarefa que já desempenhou no passado. As petrolíferas estrangeiras não irão desenvolver empresas de cunho tecnológico no país. Irão comprar dos seus tradicionais fornecedores e aliados no mercado internacional.

A Petrobras é quem compra plataformas no Brasil. A plataforma, além de representar mais de 80% dos investimentos, durante sua construção é que ocorre o grande emprego de mão de obra do empreendimento. As petrolíferas estrangeiras não compram plataformas no Brasil.

As alternativas do modelo de organização do setor não devem somente garantir que o petróleo será produzido e os tributos serão pagos. Devem gerar empregos no país, inclusive os de qualidade, desenvolver fornecedores, desenvolver tecnologia em centros de pesquisa do país, comprar materiais e equipamentos em fornecedores locais, melhorar o nível de segurança das atividades petrolíferas e trazer o impacto ao meio ambiente ao mínimo. A Petrobras satisfaz melhor todos estes critérios de avaliação que as petrolíferas estrangeiras.

Qualquer atividade econômica geradora de lucro excepcional, como é o caso da atividade petrolífera, deve ser reservada para o Estado. Entretanto, diferentes concepções ideológicas se confrontam com relação à apropriação da renda petrolífera. Aqueles com posições socialmente comprometidas argumentam que os recursos naturais de uma sociedade só a ela pertencem e não a agentes econômicos. Os liberais econômicos creem que a empresa privada pode ter a atividade, gerar o lucro exorbitante antes da tributação e, depois, uma parcela deste lucro é abocanhada através de tributo. No entanto, no mundo real, governos dão isenção de impostos, lucros menores são obtidos com artimanhas contábeis etc.

Liberais argumentam também que o petróleo é uma mera “commodity” e, portanto, sua produção pode ser entregue ao setor privado. Aí, foi desprezada a importância geopolítica do petróleo. Também, a Petrobras não deve seguir a recomendação de liberais, de se especializar em exportar petróleo bruto. Ela pode produzir petróleo acima da necessidade do Brasil, refinar o excedente e exportar os derivados, com maior valor agregado. Para finalizar, a agência reguladora do setor, que deveria proteger a sociedade, infelizmente não o faz. Estas agências no Brasil, de uma forma geral, foram “capturadas pelo mercado”, significando o fracasso do modelo.

A organização do setor de petróleo, visando maximizar os benefícios para a sociedade, é função também do grau de consciência política da sociedade. O caso brasileiro de agências reguladoras capturadas pelos entes a serem regulados mostra a nossa baixa consciência política. A mídia convencional existente no país, com interesses escusos, é a grande responsável por este baixo grau de consciência política.

Todas as petrolíferas internacionais foram para o Mar do Norte, nos anos 1970, a convite do Reino Unido e da Noruega. O Reino Unido determinava, para cada campo, materiais e equipamentos que seriam adquiridos localmente. A Noruega decidia, para cada bloco petrolífero, se a Statoil iria entrar e com que participação. Nenhuma petrolífera reclamava. Os decisores públicos eram livres para agir como quisessem, mas nunca agiam de forma antissocial. A consciência política deles não deixava.

Um novo governo brasileiro deveria buscar corrigir os erros recentemente cometidos por visão entreguista, tentar reaver junto às petrolíferas estrangeiras os prejuízos, que elas sabiam estar causando, receber de volta muitas das vendas de patrimônios por preços vis realizadas, fazer a Petrobras voltar a ser uma empresa integrada e induzir nosso crescimento econômico e social.

23 março 2018

A mídia do capital prejudica a sociedade

Paulo Metri

O julgamento, em 22/3 último, da admissibilidade do habeas corpus impetrado pelos advogados do presidente Lula ao STF, foi esclarecedor para quem ainda tinha alguma dúvida sobre a assunção de posição política pela “mídia do capital”. Esta é composta pelos canais de TV abertos e alguns pagos, as rádios associadas, os principais jornalões e a quase totalidade das revistas semanais.

A repórter de determinado canal interrompia a programação à medida que cada juiz do Supremo acabava de proferir seu voto. Ao interromper, ela desfechava, de passagem, o veredito do canal, mais ou menos, da seguinte forma: “interrompemos para noticiar o julgamento do STF, que trata da possibilidade do presidente Lula já ser preso no próximo dia 26, quando os recursos apresentados por seus advogados serão julgados no TRF4”.

Eu diria que a repórter, por sinal, muito bonita, bem representava a esperança do canal que era a de poder transmitir o presidente Lula sendo preso. Isto é revelador, porque deixa claro que o canal não considera como valioso o princípio da “presunção da inocência”. Não seria de estranhar, se a repórter dissesse algo como: “O presidente Lula está querendo postergar a data da sua prisão, ao máximo, na tentativa que ocorra algum fato político, como um levante popular, que leve a justiça à situação em que, de alguma forma, ela permita a sua candidatura.

O princípio da “presunção da inocência” nos engradece como espécie, porque só iremos imputar a culpa a alguém depois da investigação ter terminado e não houver mais dúvida sobre a culpabilidade do réu. Se assim não for, estaremos usando a justiça para atingir objetivos políticos ou pessoais, o que é, em ambos os casos, deplorável. Pode ser argumentado que, no nosso código penal, existe a possibilidade de colocação de muitos recursos, o que posterga em demasia o “trânsito em julgado”. Então, que se atualize este código, mas, não se faça um by-pass no processo, para apressar o veredito final, estuprando o princípio da “presunção da inocência” e, por conseguinte, a Constituição.

Passado algum tempo, mudo de canal e paro em um no qual está falando um comentarista, que diz algo como: “A prisão logo após o término da segunda instância demorou muito mais anos sendo utilizada que a prisão só após o ‘trânsito em julgado’. Este só durou de 1988 até 2016.” Claramente, o canal em que ele trabalha está fazendo malabarismos para criticar a decisão do Supremo. Se o conceito expresso pelo comentarista fosse o definidor da atratividade da lei, a lei áurea deveria ser revista porque passamos mais tempo no Brasil tendo a escravidão que o período em que ela foi abolida.

Canais de mídia no Brasil têm opinião política, o que pode ser feito, desde que assumam sua posição e não busquem dizer que são isentos. Eles pensam que enganam seus leitores, ouvintes e espectadores, mas muitos deles entendem as artimanhas que são feitas. Está de parabéns a “Carta Capital” que tem partido e o declara abertamente. De qualquer forma, algumas pessoas com baixo nível de conscientização política embarcam, infelizmente, na ficção que a mídia do capital conta.

14 março 2018

Decisão portadora de futuro

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia

A cada dia, todos nós dedicamos um pouco de tempo para escolher a roupa que iremos usar. Se a pessoa vai comprar algo de valor, por exemplo, uma casa, é comum verificar se existe condição financeira para arcar com as despesas, se o valor de venda dela no futuro é compensatório etc. Então, peço que reflita junto comigo sobre a sua decisão em quem votar em outubro próximo.
A minha ousadia ao buscar interferir no seu voto é porque o futuro de todos nós vai depender do conjunto dos nossos votos. Que sua escolha influencie o seu futuro é justo, mas o problema é que ele influencia o meu também e o de toda a coletividade. No período eleitoral, existem muitos caçadores de voto, alguns, bem intencionados, com interesse em contribuir para a sociedade e, outros, com interesse único de usar o cargo eletivo em benefício próprio ou do seu grupo.
Esteja consciente que seu voto não pode ser comprado e ninguém pode fazer chantagem com você para poder obtê-lo. Contaram-me que políticos conseguem até marcar operações em hospitais públicos, furando a fila de atendimentos, em troca de voto. Neste caso, não vou querer influenciar o seu voto porque quem está sofrendo é você. Mas este político é desonesto, porque quem pode definir a ordem das operações são os médicos que conseguem avaliar a gravidade de cada caso. Aliás, este político deve lutar para que as filas nos hospitais nunca acabem, pois elas são compostas de eleitores prontos a negociar o voto.
Estes “compradores de votos” não têm nenhum compromisso com a sociedade. Além disso, muitos deles são enganadores, já que prometem empregos e muito mais, e quando eleitos, não cumprem. Muitas vezes, porque, mesmo com o mandato, eles não têm como cumprir o prometido. Desta forma, não negocie seu voto com políticos que oferecem dinheiro ou benesses. O nosso futuro nunca vai ser melhorado através deles.
Para escolher em quem votar é necessário algum estudo, principalmente porque os maus-caracteres procuram dissimular sua má intenção. Alguns conselhos podem ajudar neste processo de separação do joio do trigo. Busque ver o currículo do candidato. Veja se ele já teve mandatos eletivos e, se teve, que projetos apresentou, como votou os diversos projetos, quantas sessões ele faltou, quais foram seus discursos na tribuna, que artigos escreveu e quem o recomenda. O Google não deve ser considerado como uma fonte fidedigna, mas coloque o nome do candidato lá, pois podem aparecer surpresas.
Tem-se mais trabalho quando o candidato nunca teve um mandato. Mas, de qualquer forma, ele teve um passado. A opinião sobre qualquer candidato, que tenha tido mandato ou não, será sempre baseada no passado do próprio, o que nos ajuda a deduzir como ele se posicionará no futuro. Não confie em currículos feitos pelos próprios candidatos. Desconfie dos candidatos muito citados nas televisões, rádios, jornais e revistas, porque o poder econômico deve estar querendo inflá-los ou queimá-los.
Busque obter informações sobre como pensam estes candidatos sobre os temas que você julga relevante. Por exemplo, o que pode ser feito para combater o desemprego? Como ele se posiciona com relação à pretendida reforma da previdência? Ele apoia a reforma trabalhista recém-aprovada? Se todos os eleitores votarem cumprindo as recomendações citadas, certamente o nosso futuro será bem melhor, pois teremos políticos com mandatos que serão verdadeiros representantes do povo. Ou seja, o voto consciente traz um futuro melhor.

08 março 2018

Única saída inteligente

Paulo Metri

Vamos e convenhamos, o Brasil vive uma crise política, que eu não diria ser “sem precedentes”, mas “gigantesca”. Não se trata de ênfase retórica. É a pura realidade e, a estas alturas, palpável. Nesta crise, se os ânimos não se acalmarem e a racionalidade não prevalecer, não existirão vencedores. O caos poderá ser introduzido e todos terão seu quinhão de perda.
Tentando contribuir, analiso alternativas de futuro para defender a tese contida no título. Primeiramente, trabalho com a hipótese de Lula ser considerado inelegível. Boa parte dos eleitores perderia seu candidato preferido, que não estará à disposição para ser votado. Estes se dispersariam provavelmente entre Ciro, Manuela, Boulos e algum novo candidato do PT. Existirão muitos candidatos nesta eleição, mas irei me limitar aos já citados e mais Bolsonaro, Alkmin, Maia, Meirelles e Marina. Tirei da disputa, por notícias atuais da mídia, Dória, Huck e o próprio Temer. Serra já havia sido defenestrado anteriormente.
Em hipóteses raras, segundo pesquisas de opinião atuais, se der Alkmin, Maia ou Meirelles teremos quatro anos de muitos embates e enfrentamentos. A sociedade não fica mais totalmente anestesiada, como ficou durante o governo FHC. A Marina também está com baixo índice de intenção de voto e, além disso, os quatro anos com ela também serão conturbados, por transmitir insegurança em questões de Economia. Os movimentos sociais não deixarão que nenhum deles atenda totalmente às reivindicações do capital nacional e internacional. Qualquer destas alternativas vai encontrar uma sociedade mais politizada, calejada, e consequentemente, será difícil para estes governantes de direita conseguir passar todas as suas propostas.
Como a mídia irá jogar pesado a favor dos seus candidatos, ainda deixarei a possibilidade de Alkmin ou Maia ou Meirelles ou Marina ir para o segundo turno. Tudo leva a crer que o Bolsonaro irá para o segundo turno. Ele é um candidato de direita, apesar de algumas pessoas dizerem que não é bem assim. Além disso, terá que ser tutelado em questões de Economia e, como tem se oferecido muito para o capital, será possivelmente mal tutelado. Obviamente, o pior dele é considerar o torturador coronel Ustra como um herói, acreditar que o Exercito deve patrulhar comunidades carentes, ser misógino e considerar o estupro um ato de consideração para com a vítima, ou seja, é ele ser um horror. Mas, um ponto deve ser reconhecido: Bolsonaro é o candidato que melhor utiliza a mídia. Também, em época de crise na segurança pública, o fato de ser um militar reformado transmite a ideia que saberá enfrentar a bandidagem.
Quanto aos candidatos de esquerda, Manuela e Boulos são desconhecidos da grande massa e, além disso, por preconceito, alguns eleitores não votam em candidatos de partidos comunistas ou de movimentos de trabalhadores. Além disso, dentro da esquerda, encontra-se também o fogo amigo: Luciana Genro, candidata à Presidência pelo PSOL em 2014, disse que “uma candidatura do PSOL precisa ter uma postura clara de enfrentamento ao modelo lulista, que é de conciliação de classes, (...)”. O Ciro não une as esquerdas por acender velas para Deus e o diabo. Os eventuais candidatos do PT podem ser Celso Amorim, Haddad e Wagner, que, a menos do Amorim, pouco ampliam a lista de votantes para além dos adeptos da esquerda. O Amorim é uma incógnita.
O único candidato que traria paz à sociedade brasileira, até porque já trouxe, o que é fato comprovado, em passado próximo, é Lula. Ele satisfez, dentro de limites, o capital e o trabalho. Aquilo que a Genro considerou como negativo é na realidade o grande ponto positivo de Lula. Então, a nossa escolha para o futuro é a paz, que permitirá o crescimento econômico, social e político, ou o embate permanente, que trará angustias perenes. Conhecidas estas razões, cabe aos políticos imporem a lógica salvadora àqueles que pregam o ódio que a justicialização com argumentos não comprovados traz.

06 março 2018

Dia Internacional da Mulher

Paulo Metri 

O dia 8 de março, considerado em todo mundo como o Dia Internacional da Mulher, deve se revestir de reflexão. Há, na espécie humana, dois princípios antagônicos que influenciam muitas das atitudes de qualquer um de seus representantes. Trata-se da competição e da solidariedade.
A competição é responsável pelas descobertas tecnológicas e pelo progresso econômico, enquanto pode ser considerada como a causa da exclusão de muitos humanos dos benefícios destas descobertas e deste progresso. Assim, a competição é responsável pelo aparecimento daqueles que alguns chamam de “perdedores” da nossa sociedade, como os negros, as minorias religiosas, os pobres e as mulheres. Chegaria a ser ridículo, se não fosse triste, o fato de quererem imputar a culpa aos integrantes destes grupos de estarem em situação de desconforto por atitudes próprias, como por não terem mérito ou por não terem se sobressaído na competição etc. Certamente, neste caso, o Estado deve ser utilizado como moderador da competição e introdutor da solidariedade.
As mulheres são discriminadas, por exemplo, na obtenção de empregos, na ascensão profissional em empresas e na hora do voto. Como a participação dos dois gêneros na sociedade é de aproximadamente 50% cada um e, como seres pensantes, ambos podem igualmente se destacar, a metade dos congressistas deveria ser de mulheres, assim como a metade dos diretores de empresas. Também, o salário médio das mulheres e dos homens, para os mesmos trabalhos, deveria ser igual. Mas, infelizmente, nada disso acontece.
Assim, o dia 8 de março deve ser dedicado à identificação das causas desta discriminação e como suplantá-las sem conflitos. O Dia Internacional da Mulher sem reflexão é uma boa maneira de contribuir para continuar existindo a discriminação contra elas.

01 março 2018

As violências do Brasil

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia e vice-presidente do CREA-RJ

Deixo claro, desde já, que não existe só um fator indutor de violência na nossa sociedade e, também, que a existência de um destes fatores alimenta todos os demais. Procurarei listar os possíveis fatores que determinam o alto nível de violência existente hoje no Brasil. Primeiramente, o mau-caratismo dos bandidos é indiscutivelmente causa relevante. No entanto, a incidência dos que têm propensão a ser bandido não deve diferir tanto com o local.
O policial corrupto é mais bandido que o pior dos bandidos, porque dele se esperava o exemplo. Da mesma forma, o juiz que não faz justiça é um usurpador da esperança do povo e fator de desestruturação de toda a organização social. Políticos corruptos, junto com os policiais e juízes corruptos, compõem mais um fator gerador de violência social, dos mais danosos.
A falta de um tempo mínimo na escola para toda a população, quando seriam transferidos valores sociais e humanísticos, bloqueadores da violência, transforma-se em fator facilitador da agressividade.
A vergonhosa distribuição de renda e riqueza no Brasil é uma causa da violência sempre esquecida na mídia e, por conseguinte, na percepção do povo. Para ser preciso, esta nossa péssima distribuição de renda e riqueza, que é uma das piores do mundo, trata-se, por si só, de uma violência. A diferença abissal entre os mais ricos e os mais pobres no Brasil é um fio desencapado pronto para originar um curto circuito a qualquer momento, e nunca é lembrada pelos analistas da mídia venal. Aliás, o jeito que esta mídia esconde ou torce as informações para enganar o povo é também um fator indutor de violência.
A precária vida dos mais pobres, que têm fome e não têm atendimento social algum, consiste em uma brutal violência. O nosso Estado nacional, graças à maioria dos políticos que o dominam, não dá prioridade aos mais necessitados. A fome e a falta de atendimento da saúde são, por definição, violências constrangedoras. Além disso, os pobres, por serem propositalmente despolitizados, são sempre tratados com violenta desconsideração. Eles com seus sofrimentos são transformados pela mídia (sempre ela!) em seres invisíveis.
Os catadores dos lixões são o próprio retrato da violência. Estes inaladores de cheiros putrefatos, comedores de alimentos estragados, que se expõem a toda sorte de vírus e bactérias, são seres que se submetem à violência de catar nos rejeitos dos abastados sua subsistência. Assim como os que dormem nas ruas, os catadores passam a ser considerados pela elite como sub-humanos, aos quais não é preciso dedicar solidariedade. Cadáveres já não causam espécie, pois tropeçam neles no caminho para casa quase todos os dias. Hannah Arendt diria que foi banalizado o mal também nas comunidades carentes brasileiras. Aqui, o valor da vida é mínimo, ficando mais fácil praticar atos violentos.
Como um fator de peso, estão os atos da mídia para encobrir falcatruas de poderosos, que são tratadas com inusitada benevolência e sem grande divulgação (mais uma vez, “ela”!). Também, o governo dá isenção de impostos para setores econômicos extremamente rentáveis, que não precisariam de apoio algum, caracterizando uma violenta renuncia de tributos, em possível ato de corrupção. Estes recursos poderiam ser destinados para aplicações de grande impacto social, como saúde e educação.
O Estado brasileiro pouco está nas favelas. Aí, este mesmo Estado brasileiro manda o Exército para elas. O que mesmo o Exército veio fazer nestas comunidades carentes? Ele tenta ser só o agente repressor! Não há nenhuma iniciativa para mudar o curso das demais violências. Falta pouco para o triste fim desta corporação da qual os brasileiros ainda se orgulham. O que os pracinhas brasileiros, que deram a vida para defender o Brasil de eventual jugo nazista e que eram oriundos, na sua maioria, de comunidades carentes, diriam do Exercito, que serviram com tanto garbo, estar agora confundindo pobre com bandido? O Exército foi convocado por “ela”, a causa primeira de todos nossos males, junto com os interessados na manutenção do status quo, para ser o exterminador da dignidade do pobre.

16 fevereiro 2018

Enigma Tuiuti

Paulo Metri

O que é a Tuiuti, além da senhora escola de samba que nos presenteou com um inesquecível desfile no último domingo de carnaval?
Ela, finalmente, trará a libertação dos atuais escravos! Ao assistir o desfile da Tuiuti na avenida das consciências, senti que carece ao grupo dos brancos um pedido formal de desculpas aos irmãos negros pelos séculos de humilhação e exploração. Para poder ser válido, terá que ser um pedido verdadeiramente sentido. Enquanto sou também um encabulado integrante do grupo branco, peço perdão.
Tuiuti mostrou com justíssima indignação o sistema insensível por nós construído de exploração e maus tratos dos nossos semelhantes. A escola mostrou também ser uma arma letal para os malfeitores da sociedade, que, apesar de não estarem presentes, foram vistos nus no meio da Sapucaí.
Tuiuti apresentou a denuncia mais eficiente dos empedernidos e recalcitrantes vilões da sociedade. Desde os senhores de engenho aos atuais membros do Executivo, Legislativo, Judiciário e Ministério Público, que fazem sofrer a sociedade. Estavam todos lá, para os bons entendedores.
Trata-se do método lúdico para conscientização política, que lembra o de Paulo Freire com sua descrição precisa do real. Enquanto a mídia atual, pertencente ao capital, se esforça para incutir mentiras nas notícias ao povo, a Tuiuti em poucos minutos faz desabar estes castelos de mentiras. Também, teses erguidas sob areias movediças não se sustentam.
Tuiuti também deu vida aos desvalidos, desesperançados, membros do movimento dos sem mídia (MSM). Os coronéis latifundiários das comunicações se sentiam seguros que, controlando as notícias e, consequentemente, os governos, nunca seriam confrontados. Tinham segurança total do domínio das mentes brasileiras.
Tuiuti é a expressão máxima da bondade existente em todas as religiões. Veio atender ao chamado dos mais carentes, cujas “fortunas” igualam as dos cinco homens mais ricos, em horrendo disparate. Mães começam a pedir que a Tuiuti proteja seus filhos. Hoje, os perseguidos podem se proteger, com alguma dose de blefe, dizendo: “se você não parar com esta agressão, vou chamar a Tuiuti”.
O efeito Tuiuti na política é óbvio, até porque o desfile foi político, com tema corretamente colocado, e a escola mostrou ser um grande instrumento de ação política e mobilização social. Como o Rio é a grande caixa de ressonância do Brasil, o efeito Tuiuti foi expandido. Se Temer tinha ainda alguma esperança de aprovar sua reforma da previdência, graças ao desfile, se conscientizou que não conseguirá. A saída honrosa, mas horrorosa, que Temer tomou para não sair todo chamuscado com o arquivamento da reforma ou ser humilhantemente derrotada no Congresso, foi invadir o Rio de Janeiro. Agora, a reforma ficará em estado de espera, que por ele será bem longo.
Ela é tudo isso e muito mais. Não se pode deixar de dizer que o carnavalesco Jack Vasconcelos é um gênio. Enfim, como disse o amigo Olavo, que não é o que se auto intitula filósofo: “Tuiuti lavou minha alma”.

10 fevereiro 2018

João, João, Fernando e Eurico

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia

O Quinzinho não se chama Marcos e muito menos Quincas. A razão de lhe chamarem assim é porque ele não gostava de ser João de Souza, quando ingressou no tráfico. Com certeza não teve boa vida durante os primeiros 15 anos de sua existência. Conheceu, sim, a agressão máxima que um ser humano é capaz de suportar.
Recebeu agressão do Estado brasileiro, que lhe negou as condições mínimas de sobrevivência, que não deveriam ser negadas a nenhum brasileiro. Foi agredido pelo pai que lhe contemplou com ausência absoluta, deixando o padrasto em situação privilegiada, porque este estava sempre presente para a surra diária. Era agredido pela mãe, involuntariamente, pois o deixava com a vizinha, uma vez que tinha que ir trabalhar. Esta não o alimentava direito. Sentia muita fome na infância.
Desde muito jovem sentia atração para ir para o tráfico, pois sabia que se usasse a coragem e a inteligência que tinha, seria respeitado. Passou a ostentar um revolver aos 15 anos e sentiu que o tráfico era sua única chance de acesso a dinheiro, poder local e garotas da comunidade. Não se perguntava durante quanto tempo isto iria ocorrer. A solidariedade social era restrita aos moradores da comunidade que ficavam calados e não denunciavam seu grupo. Durante seu desenvolvimento, a única alternativa que teve foi ser marmiteiro, que ele rejeitava.
O outro João, mais conhecido como Da Silva, nunca repudiou seu nome, mas o instrutor da corporação, quando ele entrou, escolheu lhe chamar desta forma. Quando criança, achava bonito o uniforme de policial. Depois de certa idade, deixou de dizer que queria ser policial, devido à cobertura dos tiroteios pela TV e dos funerais de soldados. Mas, a crise da economia deixou um exercito de desempregados no país e lhe ceifou alternativas de profissão.
Não era bom atirador e relutou a aderir aos subornos, colocando-se na linha de frente, como policial descartável. Na verdade, tinha orgulho de participar da corporação. Não acreditava que seus superiores pudessem ser corruptos. Sentia-se bem em proteger o desprotegido, apesar de ser um revoltado quanto ao seu salário. Conseguia levar o mínimo para casa para sua família não morrer de fome. Sua mulher cansava de lhe dizer para procurar ser segurança de um supermercado, de empresas ou de grã-finos porque ela não queria ficar viúva.
Fernando é um funcionário público, altamente qualificado, pesquisador da Fiocruz e participante do grupo que procura criar vacinas e remédios para algumas doenças tropicais. Profissionalmente está no local certo, pois vibra com o que faz. Só reclama porque o governo vive cortando verbas de pesquisa, além dos já cortados salários. Conclui que o Governo quer mesmo que continuem brasileiros morrendo por falta de vacinas e remédios.
No dia 6 de fevereiro de 2018, Quinzinho, Da Silva e Fernando não sabiam, mas tinham um encontro marcado na Linha Amarela. Traficantes e policiais, mais uma vez se desentenderam e trocavam muitos tiros, mas realmente muitos. Fernando e sua esposa foram assinar um documento formal em um cartório e voltavam para casa, quando foram surpreendidos pela cena de terror explicito. Empurrados pelo tráfego intenso, foram parar na zona mais quente da “Faixa de Gaza”. Os dois não tiveram alternativa, a não ser se proteger atrás da mureta de uma escada para a passarela.
Foi, no mínimo, uma hora de muito medo. Presenciaram o cidadão que queria ter seus segundos de glória e chegava a se expor para gravar pelo celular o que acontecia. Ele ouvia as pessoas dizendo: “não levanta”, mas precisava daquele vídeo e continuava em pé gravando. Ao mesmo tempo gravava um discurso confuso, pois dizia que a saída era ir para Miami, como se fosse possível a população do Rio de Janeiro ir toda para lá.
Da Silva estava próximo, mas atrás de outra mureta, a da divisória de pistas. Os traficantes aparentemente estavam ganhando, pois atiravam mais. A posição no alto era vantajosa, assim como a irregularidade do conjunto da comunidade ajudava muito a eles para se esconder. Quando Da Silva achava que via uma cabeça saliente na silhueta da favela, se esticava, mirava e atirava. Mas não demorava muito tempo se expondo. Não pensava na vida do traficante, pois “era ou a minha ou a dele”.
O traficante, no seu mundo incompreensível para a maioria de nós, só pensava em destruir todos que ameaçassem seu negócio, sua razão de vida. Apesar de muito corajosos todos queriam sair dali com vida. A esposa de Fernando mais que tremia, chacoalhava. Atrás daquela sinfonia de estampidos, depois de cada um deles, uma vida, que demorou anos para chegar a um estágio avançado de desenvolvimento, poderia estar tombando. Esta é a cruel realidade sobre a qual todos nós deveríamos chorar: “atrás de cada estampido, uma vida pode estar sendo extinta”.
Depois de muito tempo com os afagos mortais, os traficantes se recolheram aos seus esconderijos, parecendo vietcongues que, para espanto dos norte americanos, evaporavam na floresta. Os policiais, dando graças a Deus porque nenhum companheiro foi abatido, também se recolheram. Fernando, esposa e todos que participaram do safari da Maré pegaram seus carros e, agora, relatam seus feitos que, na verdade, se resumem em grande imobilidade. No caso do Fernando, se uma bala perdida o achasse, teria atingido o personagem, dentre todos os aterrorizados inocentes da redondeza, que mais contribuía socialmente. O que mostraria a injustiça da aleatoriedade.
Pode-se e deve-se pensar em quem são os culpados. Todos os que governam de forma excludente. Os políticos, os do Executivo, os do Legislativo, os do Judiciário e os do Ministério Público são culpados. Sim, hoje o Judiciário e o Ministério Público são compostos, na sua maioria, de políticos. São culpados também aqueles que, sendo empresários, não se satisfazem com o acumulo de riqueza que cinco gerações suas terão dificuldade em gastar. São todos aqueles que buscam iludir a população para usufruírem de sua ignorância. Neste grupo, está a mídia, mas ela não está sozinha. Os traficantes são grandes culpados. Na verdade, eles são seres maus, assim como os policiais corruptos.
Existe uma realidade pouco compreendida entre nós. A péssima distribuição de renda do Brasil é um fator indutor da violência. O raciocínio na cabeça de qualquer um é simples: “se cinco empresários brasileiros possuem a mesma riqueza que os 50% mais pobres da população” é porque, neste país, vale a exploração mais desumana. Então, retirando o dano à saúde do usuário, para o qual não há perdão, por que os traficantes são culpados de criar dependência e roubar os usuários? Os crimes do colarinho branco já foram banalizados e perdoados, e os demais, não?
O Eurico trabalha no escritório do pai, uma banca de advocacia especializada em assessoramento de empresas de mineração estrangeiras com relação ao ambiente jurídico e político do Brasil. Recentemente, ganhou rios de dinheiro ao conseguir que o Executivo isentasse por 22 anos o pagamento de impostos de petrolíferas. Elas tinham direito a só mais quatro anos de isenção. Ele tem ódio de ter que morar no Brasil.
Todos que assistiram ao Jornal Nacional, naquela noite, não entenderam o porquê de tanta violência.